Torre de Pisa inclinada, na Piazza dei Miracoli
A Torre de Pisa. Foto: Marco Ceschi / Unsplash.

Torre de Pisa: por que é inclinada e como não caiu

A Torre de Pisa é inclinada porque foi erguida sobre siltes e argila mole, um terreno que cedeu mais de um lado do que do outro. E não caiu por uma combinação de sorte e engenharia: a obra parou duas vezes por quase um século, o que deu tempo para o solo ganhar resistência, e entre 1999 e 2001 uma intervenção retirou terra de baixo do lado mais alto e reduziu a inclinação em cerca de meio grau.

Este artigo explica a inclinação da Torre de Pisa com os números da fundação, a cronologia da obra e a conta da pressão sobre o solo. As fontes são os artigos do engenheiro John Burland, que participou da estabilização, a Opera della Primaziale Pisana, que administra o monumento, e um estudo sísmico da Universidade de Bristol.

Os números da torre

Item Número Fonte
Altura 58,36 m Opera della Primaziale Pisana
Massa cerca de 14.500 toneladas Burland
Diâmetro da fundação 19,6 m Burland
Pressão média sobre o solo cerca de 500 kPa Burland e colegas
Início da obra 9 de agosto de 1173 Opera della Primaziale Pisana
Fim da obra por volta de 1370 Burland
Desaprumo em 1990 o sétimo andar avançava cerca de 4,5 m sobre a base Burland
Correção de 1999 a 2001 cerca de 1.800 segundos de arco (0,5 grau) Burland e colegas

Os dados de Burland estão num artigo da revista Ingenia, da Academia Real de Engenharia britânica, e num artigo técnico de 2009, com Michele Jamiolkowski e Carlo Viggiani. A altura é da página oficial da torre.

A pressão média dá para conferir. A fundação tem área de π × 9,8² ≈ 302 m². O peso é 14.500.000 kg × 9,81 ≈ 142.000 kN. Dividindo: 142.000 ÷ 302 ≈ 470 kPa (conta nossa, com a fundação tratada como um disco cheio), perto dos 500 kPa do artigo técnico. A fundação é um anel, com um vazio no centro, o que explica a diferença. É uma pressão alta para argila mole. E ela não se distribui por igual: com a torre inclinada, a borda sul da fundação chegou a cerca de 1.000 kPa, o dobro da média, segundo o mesmo artigo.

Catedral de Pisa com a torre inclinada ao fundo, na Piazza dei Miracoli
A catedral de Pisa e a torre, que é o seu campanário. Foto: Florian Hirzinger – https://www.fh-ap.com / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

O solo: três camadas

O artigo técnico de 2009 descreve o terreno sob a torre em três horizontes:

  • Horizonte A, com cerca de 10 m de espessura: depósitos moles de siltes arenosos e argilosos.
  • Horizonte B, até cerca de 40 m de profundidade: argila marinha mole e sensível.
  • Horizonte C, até cerca de 60 m: areia marinha densa.

A torre se apoia no horizonte A, e o peso comprime também a argila do horizonte B, que começa a cerca de 10 m de profundidade. Do lado sul, a camada superior é um pouco mais mole, e o recalque foi maior ali.

Esquema das três camadas de solo sob a Torre de Pisa: siltes moles, argila marinha mole e areia densa, com a retirada de solo sob o lado norte
As três camadas de solo descritas por Burland, Jamiolkowski e Viggiani, e o lado de onde o solo foi retirado. Desenho esquemático, fora de escala.

Por que a inclinação aumentava sozinha

O problema de Pisa não é o solo romper por excesso de carga. É o que os engenheiros chamam de instabilidade por inclinação. Na definição do artigo de 2009, ela acontece numa estrutura alta quando o momento de tombamento gerado por um pequeno aumento da inclinação é igual ou maior que o momento resistente gerado pela fundação.

Em palavras simples: quanto mais a torre inclina, mais o peso se desloca para o lado baixo; quanto mais peso desse lado, mais o solo cede ali; e quanto mais cede, mais ela inclina. É como tentar equilibrar um lápis em pé sobre uma almofada. Em 1990, a inclinação crescia cerca de 6 segundos de arco por ano, o que no alto da torre equivalia a perto de 1,5 mm por ano, segundo o artigo. Parece pouco, mas o ritmo vinha acelerando.

Uma obra de dois séculos, com duas pausas

A construção começou em 9 de agosto de 1173, segundo a administração do monumento. A cronologia de Burland:

  • Por volta de 1178, com a obra a um quarto do quarto andar, o trabalho parou.
  • Por volta de 1272, foi retomado, e em 1278 chegou ao sétimo nível. Parou de novo.
  • Por volta de 1360 começou a câmara dos sinos, terminada perto de 1370.

As pausas somam 1272 − 1178 = 94 anos e 1360 − 1278 = 82 anos, dentro de uma obra de 1370 − 1173 = 197 anos (contas nossas).

Foram essas pausas que salvaram a torre. Argila mole ganha resistência devagar, à medida que o peso expulsa a água dos poros, processo chamado adensamento. Segundo Burland, se a obra tivesse seguido sem interrupção, o solo da camada B não teria resistência para a carga e a torre teria tombado.

A torre é curva

Os construtores perceberam a inclinação e tentaram corrigir enquanto subiam. Em cada retomada, usaram pedras um pouco mais altas no lado para onde a torre pendia, para trazer os andares novos de volta ao prumo. O resultado é um eixo levemente curvo, em forma de banana, registrado por Burland e explicado por Carlo Viggiani num documentário da emissora americana PBS.

A estabilização: de 1990 a 2001

Uma intervenção anterior havia piorado a situação. Em 1838, a escavação de uma vala em torno da base, para deixar à mostra a parte enterrada da torre, deixou entrar água pelo lado sul, e o topo se deslocou cerca de meio metro, segundo Burland.

A torre foi fechada ao público no início de 1990. O trabalho da comissão internacional teve três momentos, descritos no artigo de 2009.

Contrapeso de chumbo. No segundo semestre de 1993, 600 toneladas de lingotes de chumbo foram colocadas sobre o lado norte da fundação, o lado alto, e a inclinação parou de aumentar. Em setembro de 1995 a carga subiu para 900 toneladas, 900 ÷ 14.500 ≈ 6% da massa da torre.

Um susto. Em 1995, uma tentativa de congelar o solo, para instalar tirantes de ancoragem que substituiriam o chumbo, fez a torre se mover para o lado errado. Nas palavras de Burland à PBS, em uma noite ela andou o que normalmente andava em um ano. O método foi abandonado.

Retirada de solo. A solução definitiva foi tirar terra de baixo do lado norte, aos poucos, para a torre assentar desse lado e girar de volta. A primeira extração foi em 9 de fevereiro de 1999. A fase completa usou 41 furos inclinados, espaçados de 0,5 m, e a última extração foi em 6 de junho de 2001. Os 41 furos cobriam 41 × 0,5 ≈ 20 m ao longo da borda norte.

O resultado foi uma redução de cerca de 1.800 segundos de arco, ou 1.800 ÷ 3.600 = 0,5 grau, perto de 10% da inclinação. No sétimo andar, isso significou 44 a 46 cm a menos de desaprumo, conforme a fonte. A torre voltou à inclinação que tinha em 1838 e reabriu em dezembro de 2001. A correção foi pequena de propósito: o objetivo era tirar a torre da faixa de risco sem mudar a aparência que a tornou famosa.

Lingotes de chumbo usados como contrapeso na base da Torre de Pisa em 1998
Os contrapesos de chumbo na base da torre, em 1998. Foto: Rolf Gebhardt / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.

E hoje?

Depois da obra, a torre continuou a se endireitar um pouco sozinha, cada vez mais devagar: entre 2006 e 2008, o movimento para o norte caiu para menos de 0,2 segundo de arco por ano, segundo o artigo de 2009. No cenário pessimista dos autores, a torre levaria pelo menos 200 anos para voltar à inclinação de 1993, e a mesma técnica poderia ser repetida.

Por que os terremotos não a derrubaram

A região de Pisa teve pelo menos quatro terremotos fortes desde 1280, e a torre, alta, pesada e inclinada, resistiu a todos. Um estudo liderado pela Universidade Roma Tre, com participação da Universidade de Bristol, atribui isso à interação entre a torre e o solo. Por estar sobre terreno mole, o período natural de vibração da torre passa de cerca de 0,35 segundo para mais de 1 segundo, um aumento de três vezes, segundo o artigo publicado na revista Earthquake Spectra. Com período longo, a torre não entra em ressonância com o tremor do chão.

Na frase de um dos autores, o mesmo solo que causou a inclinação pode receber o crédito por ajudá-la a sobreviver aos terremotos, segundo o comunicado da universidade. O princípio de mudar o período de vibração para proteger uma estrutura aparece, de outra forma, em edifícios com amortecedores de massa.

Galileu jogou mesmo objetos da torre?

Provavelmente não. A história de que Galileu soltou dois pesos do alto da torre para mostrar que caem juntos vem só da biografia escrita por seu aluno Vincenzo Viviani. A maioria dos historiadores duvida que tenha acontecido, e os escritos do próprio Galileu não mencionam a torre, segundo um artigo da revista Physics World.

Perguntas frequentes

Por que a Torre de Pisa é inclinada?

Porque foi construída sobre argila mole, que cedeu mais do lado sul. A inclinação apareceu ainda durante a obra, e a torre foi sendo corrigida enquanto subia.

A Torre de Pisa vai cair?

Não num futuro previsível. Depois da estabilização de 1999 a 2001, os engenheiros responsáveis estimam que, no pior cenário, ela levaria pelo menos 200 anos para voltar à inclinação de 1993.

Quanto a torre foi endireitada?

Cerca de meio grau, o que equivale a uns 45 cm a menos de desaprumo no sétimo andar.

Como endireitaram a torre?

Retirando solo de baixo do lado mais alto, por 41 furos inclinados, para a torre assentar desse lado.

Quanto tempo levou a construção?

Quase 200 anos, de 1173 a cerca de 1370, com duas pausas longas.

Por que não endireitaram de vez?

Porque a inclinação faz parte do monumento. A meta foi reduzir o risco, mantendo a torre visivelmente inclinada.

A inclinação da Torre de Pisa é um problema de fundação: muito peso em pouca área, sobre argila que cede e demora a ganhar resistência. A solução que funcionou foi a mais delicada, tirar solo em vez de pôr reforço. Recalque de fundação também explica a inclinação dos minaretes em quando o Taj Mahal foi construído. A escolha da fundação certa para cada terreno está em como escolher o tipo de fundação e em construções em solos arenosos, e há mais histórias assim em curiosidades da engenharia.

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