Equipamento de física de partículas do CERN
Equipamento do CERN, o laboratório europeu de física de partículas. Foto: Brandon Style / Unsplash.

O que é o múon: a partícula que prova a relatividade e radiografa pirâmides

O múon é uma partícula elementar parecida com o elétron, com a mesma carga negativa e cerca de 207 vezes mais massa, que vive em média 2,2 milionésimos de segundo antes de se desintegrar. Ele chega a todo momento do céu: raios cósmicos batem na alta atmosfera e produzem múons, que atravessam o ar, o corpo humano e até camadas grossas de rocha. Só chegam ao chão em quantidade porque viajam perto da velocidade da luz e o tempo deles passa mais devagar, como prevê a relatividade. Essa mesma capacidade de atravessar matéria permitiu achar um vazio de pelo menos 30 metros dentro da Grande Pirâmide de Gizé, em 2017.

Este artigo explica o que é o múon, faz a conta que mostra a dilatação do tempo, conta o que aconteceu com a medição do momento magnético que prometia nova física e mostra como os múons viraram ferramenta de engenharia.

O que é o múon

O múon faz parte da família dos léptons, a mesma do elétron. A massa é de 105,66 MeV e a vida média, de 2,197 microssegundos, segundo a tabela do Particle Data Group, referência mundial de dados de partículas. Dividindo pela massa do elétron, de 0,511 MeV, dá 105,66 / 0,511 ≈ 207 vezes. Quando decai, o múon vira um elétron e dois neutrinos.

Ele foi descoberto em 1936 por Carl Anderson e Seth Neddermeyer, que levaram uma câmara de nuvens ao alto do Pikes Peak, no Colorado, e viram rastros de uma partícula com massa entre a do elétron e a do próton, segundo uma resenha publicada na Physics Today. O múon tem antipartícula, o antimúon, de carga positiva, e os dois chegam do céu. Como as partículas se comportam em colisões de alta energia está no artigo sobre colisões de partículas subatômicas.

A conta da relatividade

Os múons do céu nascem perto de 15 km de altitude, segundo um artigo do projeto CosmicWatch. Premissa nossa: múon a 99,8% da velocidade da luz.

  • sem relatividade, a distância média antes de decair seria v × τ = 0,998 × 300.000.000 m/s × 0,000002197 s ≈ 658 m;
  • a fração que chegaria ao chão, depois de 15 km, seria e−15.000/658 ≈ 1 em 8 bilhões;
  • com a relatividade, o tempo do múon passa γ vezes mais devagar, com γ = 1 / √(1 − 0,998²) ≈ 15,8;
  • a distância média vira 658 × 15,8 ≈ 10,4 km, e a fração que chega ao chão, e−15.000/10.400 ≈ 24%.
Gráfico de barras da distância média de um múon a 99,8% da velocidade da luz: 0,66 km sem relatividade, 10,4 km com relatividade, contra 15 km de altitude onde ele nasce
Sem a dilatação do tempo, quase nenhum múon chegaria ao chão; com ela, cerca de um em quatro chega. Contas nossas com dados do PDG.

Uma medição real confirmou o efeito. Num experimento publicado em 1963, David Frisch e James Smith contaram cerca de 563 múons por hora no alto do Monte Washington, nos Estados Unidos, a 1.917 m. Sem dilatação do tempo, esperariam cerca de 27 por hora ao nível do mar, e mediram cerca de 412, um fator de dilatação de cerca de 8,8, segundo o resumo dos testes de dilatação do tempo na Wikipédia, que cita o artigo original no American Journal of Physics. A Sociedade Americana de Física registra o local como sítio histórico, segundo a APS. Um efeito da mesma família, junto com o efeito da gravidade, precisa ser corrigido nos relógios dos satélites de posicionamento, como mostra o artigo sobre navegação por satélite.

Na superfície, chega cerca de 0,4 múon por centímetro quadrado por minuto por esterradiano, segundo o mesmo artigo do CosmicWatch. Integrando sobre o céu, com a distribuição em cosseno ao quadrado do ângulo, isso dá cerca de 0,6 múon por centímetro quadrado por minuto numa superfície horizontal, conta nossa: uma palma de mão, com uns 100 cm², recebe perto de 4 mil por hora.

O momento magnético: a anomalia que se desfez

O múon se comporta como um pequeno ímã, e o fator magnético dele, chamado g, é um pouco maior que 2. Esse excesso, o g−2, é previsto pela teoria e medido em laboratório, e uma diferença entre os dois valores era uma das grandes esperanças de nova física fora das colisões de alta energia.

  • 2021: o experimento Muon g−2, do laboratório Fermilab, nos Estados Unidos, divulgou uma diferença de 4,2 desvios-padrão em relação à teoria, segundo a Universidade de Chicago.
  • Junho de 2025: o resultado final chegou a uma precisão de 127 partes por bilhão, melhor que a meta de 140, e a nova previsão teórica ficou mais perto do valor medido, segundo o laboratório Brookhaven.
  • A teoria de 2025: calculada com simulações em supercomputador da força forte, a previsão difere da medição por menos de um desvio-padrão; o erro teórico ainda é cerca de quatro vezes o experimental, e as medições de colisores usadas no método alternativo discordam entre si, por isso ficaram fora da previsão de 2025, segundo o CERN Courier.

A anomalia que apontava para partículas ou forças desconhecidas deixou, por ora, de contradizer o Modelo Padrão, mas a precisão da teoria ainda fica atrás da do experimento. O caso mostra que um desvio de 4 sigmas só vale depois que a teoria também foi conferida.

Muografia: radiografia com raios cósmicos

Como os múons atravessam rocha e perdem parte deles no caminho, um detector que conta quantos chegam de cada direção mostra onde a matéria é mais densa ou mais rala, como uma radiografia feita com a luz do céu.

  • Grande Pirâmide, 2017: o projeto ScanPyramids encontrou, com três tecnologias de detecção de múons diferentes, um grande vazio com seção parecida com a da Grande Galeria e pelo menos 30 m de comprimento, entre 40 e 50 m acima do piso da Câmara da Rainha, segundo o artigo de Morishima e colegas, publicado na Nature.
  • Grande Pirâmide, 2023: o mesmo método achou um corredor de cerca de 9 m de comprimento e 2 por 2 m de seção atrás da fachada norte, segundo o artigo na Nature Communications. A engenharia do monumento está no artigo sobre as pirâmides do Egito.
  • Vulcão Sakurajima, Japão: a muografia detectou a formação de um tampão de magma no conduto da cratera Showa, segundo a Universidade de Tóquio.
  • Fukushima Daiichi: a Toshiba e o instituto japonês IRID desenvolveram, com uma técnica de espalhamento de múons criada no laboratório de Los Alamos, um sistema para localizar o combustível derretido no reator 2, capaz de enxergar, segundo simulações, detritos de cerca de 30 cm, segundo o Phys.org. O funcionamento dos reatores menores, de nova geração, está no artigo sobre reatores nucleares modulares.
Pirâmides de Gizé, no Egito, sob céu azul
Pirâmides de Gizé, no Egito. A muografia achou um vazio dentro da maior delas, a de Quéops. Foto: Osama Elsayed / Unsplash.

A técnica é lenta, porque depende do fluxo natural de múons: os detectores costumam ficar semanas ou meses no lugar para juntar contagens suficientes. A vantagem é olhar dentro de estruturas enormes sem furar nada e sem fonte de radiação artificial.

Perguntas frequentes

O que é um múon?

Uma partícula elementar da família do elétron, com a mesma carga negativa e cerca de 207 vezes mais massa; a antipartícula, o antimúon, tem carga positiva. Vive em média 2,2 microssegundos.

De onde vêm os múons?

Dos raios cósmicos. Prótons e núcleos vindos do espaço batem em átomos da alta atmosfera, perto de 15 km de altitude, e a cascata de partículas produz múons que chegam até o chão.

Por que o múon prova a relatividade?

Porque, sem a dilatação do tempo, quase nenhum múon chegaria ao nível do mar antes de decair. Os experimentos contam muito mais múons do que a física clássica permite, no número que a relatividade prevê.

O múon indica uma força nova ou partículas desconhecidas?

Não, pelo que se sabe hoje. A diferença anunciada em 2021 praticamente sumiu porque a previsão teórica mudou: o valor medido se manteve no resultado final de 2025, e a nova previsão, calculada em supercomputador, difere dele por menos de um desvio-padrão.

O que é muografia?

Uma técnica que usa os múons do céu para enxergar dentro de estruturas grandes, como pirâmides, vulcões e reatores, contando quantos atravessam cada direção.

O múon é uma partícula que dura dois milionésimos de segundo e mesmo assim serve de régua para a relatividade, de teste para o Modelo Padrão e de raio X para pirâmides. Diante de notícias de nova física, a lição do g−2 é esperar que a medição e a teoria tenham sido conferidas por mais de um método.

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