Cúpula de concreto do Panteão, em Roma, com o óculo aberto no topo
Cúpula do Panteão, em Roma: concreto sem armadura de aço, de pé há mais de 1.900 anos. Foto: Jason Steele / Unsplash.

A história do concreto: da receita romana ao cimento Portland e à conta do CO2

A história do concreto começa há mais de 2.000 anos, quando os romanos misturaram cal, cinza vulcânica, água e pedra e obtiveram um material que endurece até debaixo do mar. A cúpula do Panteão, em Roma, terminada por volta do ano 125, tem cerca de 43 m de diâmetro, nenhuma barra de aço e segue sendo a maior cúpula de concreto sem armadura do mundo. O concreto moderno nasceu bem depois, com a patente do cimento Portland em 1824 e a armadura de ferro em 1867, e hoje é o material mais usado da construção, com uma conta de carbono que a química explica.

Este artigo percorre as três fases: a receita romana e por que ela dura tanto, o cimento Portland e o concreto armado, e a conta do CO2 que pesa sobre o cimento hoje.

A receita romana

O concreto romano, o opus caementicium, juntava cal, uma cinza vulcânica da região de Pozzuoli, perto de Nápoles, e pedaços de pedra ou tijolo. O arquiteto Vitrúvio, no século I a.C., descreve no livro 2 do tratado De Architectura esse pó que, misturado à cal, endurece em obras comuns e também sob a água do mar, segundo a tradução do texto. Plínio, o Velho, registrou no século seguinte, na História Natural, que as obras marinhas feitas com esse pó viravam uma única massa de pedra que ficava mais forte a cada dia.

A química dá razão aos dois. A cinza vulcânica reage com a cal e forma compostos que dão liga, a chamada reação pozolânica, a mesma usada hoje em cimentos com adições. Nas obras marinhas há um passo a mais: a água do mar que atravessa o concreto dissolve parte da cinza e faz crescer, ao longo de séculos, cristais de tobermorita aluminosa e de filipsita nos poros, que reforçam a matriz, segundo o estudo de Marie Jackson e colegas publicado em 2017 na American Mineralogist.

Em 2023, uma equipe do MIT liderada por Admir Masic mostrou outra peça do mecanismo. Os pequenos grãos brancos de cal que aparecem no concreto romano seriam resultado da mistura feita a quente, com cal virgem. Quando uma fissura deixa a água entrar, esses grãos se dissolvem e o carbonato de cálcio formado fecha a trinca. No ensaio, amostras com a receita romana tiveram as fissuras fechadas em duas semanas, segundo o MIT News.

A durabilidade não significa resistência alta. O concreto romano aguenta bem menos compressão que um concreto estrutural de hoje e não tinha armadura, por isso só funcionava onde a estrutura trabalha comprimida: arcos, abóbadas, cúpulas e paredes grossas. Foi a lógica que os romanos aplicaram também nos aquedutos.

O Panteão: uma cúpula sem aço

O Panteão foi reconstruído sob o imperador Adriano e terminado por volta de 125. A cúpula tem 43,2 m de diâmetro, a mesma medida da altura do piso ao topo, e uma abertura no alto, o óculo, com 8,8 m, segundo a World History Encyclopedia.

Interior do Panteão, em Roma, com os caixotões da cúpula de concreto
Interior do Panteão: os caixotões, rebaixos quadrados do teto, tiram peso da cúpula de concreto. Foto: Nicholas Martinelli / Unsplash.

Dois truques de projeto fazem a cúpula ficar de pé sem tração:

  • Agregado mais leve no alto: nas fundações, o concreto leva travertino, uma pedra pesada; na cúpula, camadas de tufo e, perto do topo, pedra-pomes, uma rocha vulcânica cheia de poros. O peso que a cúpula descarrega nas paredes cai.
  • Espessura que diminui: a casca é grossa perto da base e fina perto do óculo, que tira o trecho do topo, onde a carga seria mais difícil de equilibrar. Os caixotões, os rebaixos quadrados do teto, retiram ainda mais peso.

Sem aço, não há armadura para enferrujar, e é a corrosão do aço que limita a vida de muitas estruturas modernas. Uma cúpula que só trabalha em compressão consegue durar mais de 1.900 anos com um material de resistência modesta.

O cimento Portland

Depois do fim do Império Romano, a técnica do concreto quase sumiu da Europa por séculos. O passo seguinte foi industrial. Em 21 de outubro de 1824, o pedreiro inglês Joseph Aspdin patenteou o cimento Portland, nome escolhido pela semelhança de cor com a pedra da ilha de Portland. O passo decisivo para o cimento atual veio do filho, William Aspdin, que por volta de 1843 aumentou o teor de calcário, queimou a mistura a temperatura mais alta e passou a aproveitar o clínquer duro, rico em silicatos de cálcio, segundo o Science History Institute.

O processo segue o mesmo em essência. Calcário e argila são moídos e aquecidos a cerca de 1.450 °C num forno rotativo. O calcário perde CO2 e vira cal, que se combina com a sílica e a alumina da argila formando o clínquer. Moído com um pouco de gesso, o clínquer vira o cimento.

O concreto armado

O concreto resiste bem à compressão e mal à tração: uma viga só de concreto racha na face de baixo com pouca carga. A solução foi pôr ferro onde a peça é tracionada. O jardineiro francês Joseph Monier patenteou em 1867 vasos e tinas de concreto reforçados com tela de ferro, segundo a Encyclopaedia Britannica, e depois estendeu a ideia a tubos, painéis, pontes e vigas. Na década de 1890, François Hennebique difundiu um sistema completo de vigas, pilares e lajes ligados entre si, patenteado em 1892, que se espalhou pelo mundo.

A divisão de trabalho é a base do cálculo estrutural até hoje: o concreto absorve a compressão, o aço absorve a tração, como mostra a conta do artigo sobre esforços em vigas de concreto. Os dois materiais se dilatam quase igual com o calor, e o concreto alcalino protege o aço da ferrugem enquanto o cobrimento fica íntegro. As regras de projeto estão na NBR 6118, uma das normas da ABNT mais usadas na engenharia civil.

Data Marco
Século I a.C. Vitrúvio descreve a mistura de cal e cinza vulcânica
c. 125 Panteão terminado em Roma, cúpula de cerca de 43 m
1824 Joseph Aspdin patenteia o cimento Portland
c. 1843 William Aspdin produz o clínquer a alta temperatura
1867 Joseph Monier patenteia o concreto reforçado com ferro
1892 François Hennebique patenteia o sistema de concreto armado

A conta do CO2

O cimento responde por cerca de 8% das emissões mundiais de CO2, e mais da metade vem da própria química do processo, a calcinação do calcário, segundo o relatório Making Concrete Change, do instituto britânico Chatham House, de 2018. A conta pode ser refeita com a tabela periódica.

  • reação: CaCO3 → CaO + CO2;
  • massas molares: CaCO3 = 100 g/mol, CaO = 56 g/mol, CO2 = 44 g/mol;
  • CO2 por tonelada de cal: 44 / 56 = 0,79 t;
  • com o clínquer contendo cerca de 65% de CaO (premissa nossa, valor típico): 0,65 × 0,79 = 0,51 t de CO2 por tonelada de clínquer, só da calcinação.

A queima do combustível que aquece o forno vem por cima. Somadas as duas partes, a mediana das fábricas dos Estados Unidos com monitoramento contínuo, em 2019, ficou em 0,84 t de CO2 por tonelada de clínquer, segundo a agência ambiental americana (EPA).

Gráfico de barras do CO2 emitido por tonelada de clínquer: 0,51 t só da calcinação do calcário, pela nossa conta, e 0,84 t somando o combustível, mediana de fábricas dos Estados Unidos segundo a EPA
A calcinação do calcário responde pela maior parte do CO2 e não some com combustível limpo, por isso as saídas atacam o teor de clínquer. Conta nossa; total da EPA.

A parte da calcinação não some com combustível limpo, porque é a reação do calcário. Por isso as saídas atacam o teor de clínquer no cimento. O cimento LC3, que troca parte do clínquer por argila calcinada e calcário moído, reduz as emissões em até 40%, segundo a EPFL, a universidade suíça que lidera o projeto. É a volta, com outra química, da ideia romana de pôr um material reativo para fazer parte do trabalho da cal. Outras opções de menor impacto aparecem no guia de materiais sustentáveis para construção.

No Brasil, as vendas de cimento somaram 64,7 milhões de toneladas em 2024, segundo dados preliminares do Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (SNIC), e o consumo ficou em cerca de 306 kg por habitante, segundo o relatório estatístico da Federação Interamericana do Cimento (FICEM). Cada tonelada de clínquer evitada é carbono que deixa de ir à atmosfera, conta que entra nos mercados descritos no artigo sobre crédito de carbono.

Perguntas frequentes

Por que o concreto romano dura mais que o moderno?

Em parte pela química: a reação com a cinza vulcânica e, no mar, o crescimento de novos cristais nos poros. Em parte pela estrutura: sem aço, não há armadura para enferrujar e estourar o concreto. Ele é menos resistente; dura porque trabalha só comprimido.

Dá para fazer concreto romano hoje?

Os pesquisadores reproduzem a receita em laboratório, e a pesquisa do MIT busca aplicações comerciais. A receita ainda não é usada em larga escala, e as normas atuais foram escritas para o cimento Portland.

Qual a diferença entre cimento e concreto?

O cimento é o pó que dá liga. O concreto é a mistura de cimento, água, areia e brita, que endurece formando pedra artificial. A argamassa leva cimento, água e areia, sem brita.

O Panteão tem alguma armadura?

Não há barras de aço no concreto da cúpula. A estabilidade vem da forma, do agregado mais leve no alto e das paredes grossas que recebem o empuxo.

De onde vem o nome Portland?

De Portland, uma ilha do sul da Inglaterra famosa pela pedra de construção. Aspdin achou que o cimento endurecido tinha a mesma cor.

Em 2.000 anos, o concreto passou de mistura de cal e cinza a material industrial armado com aço, e a conta do carbono agora empurra a receita de volta a adições minerais. Para julgar um concreto, olhe três coisas: o esforço a que ele vai ser submetido, o que pode corroê-lo e quanto clínquer ele leva.

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