Fone de ouvido com cancelamento de ruído ao lado de um notebook
Fone de ouvido com cancelamento de ruído. Foto: Pedro Sanz / Unsplash.

Cancelamento de ruído: como funciona nos fones

O cancelamento de ruído de um fone de ouvido combate som com som. Microfones captam o barulho de fora, um circuito calcula uma onda igual e invertida, e o alto-falante a toca junto com a música. Onde a onda do ruído sobe, a do fone desce, e as duas se anulam antes de chegar ao tímpano.

Este artigo explica como funciona o cancelamento de ruído, com a física da interferência, a conta que mostra por que ele funciona bem para o ronco de um avião e mal para uma voz, e o que isso tem a ver com a saúde dos ouvidos. As fontes são a patente original de 1936, a linha do tempo da Bose, páginas da Sony e da Apple, o instituto americano de segurança do trabalho (NIOSH) e a Organização Mundial da Saúde.

O princípio: uma onda contra a outra

O som é uma variação de pressão do ar, que sobe e desce muitas vezes por segundo. Se duas ondas iguais chegam ao mesmo ponto com os picos desencontrados, uma no alto quando a outra está embaixo, as pressões se somam e dão zero. É a interferência destrutiva.

A ideia é antiga. A patente do alemão Paul Lueg, pedida nos Estados Unidos em 1934 e concedida em 9 de junho de 1936, descreve o processo: as oscilações sonoras a serem silenciadas são captadas por um receptor e reproduzidas por um aparelho na forma de sons com fase oposta (patente US 2.043.416). Faltava a eletrônica rápida o bastante para fazer isso na prática.

Três ondas: o ruído de fora, a onda inversa gerada pelo fone e a soma das duas, que é uma linha reta
A onda do ruído somada a uma onda igual e invertida dá zero. Na prática sobra um resíduo, que cresce com o erro de amplitude e de fase.

Do avião ao fone de bolso

A versão para fones nasceu de um voo. Em 19 de abril de 1978, numa viagem de Zurique a Boston, o engenheiro Amar Bose se incomodou com o ruído da cabine, pegou um lápis e começou a procurar uma solução. Ao chegar, oito horas depois, tinha um conceito de cancelamento de ruído que achava que poderia funcionar, segundo a linha do tempo da empresa. A técnica ainda levaria anos para chegar aos fones vendidos ao público.

Como o fone faz isso

Um fone com cancelamento ativo tem três partes além do alto-falante. A descrição a seguir é a usual na literatura de engenharia de áudio; não a tiramos de uma fonte única.

  • Microfones externos captam o ruído antes de ele entrar na concha. É o arranjo de alimentação direta: o circuito tem um instante de antecedência para preparar a onda inversa.
  • Microfones internos, perto do ouvido, escutam o que sobrou e corrigem o erro. É o arranjo de realimentação.
  • Um processador ajusta continuamente o filtro que gera a onda inversa, porque o ruído muda e o encaixe do fone na cabeça também.

Os melhores fones atuais combinam os dois arranjos. O Sony WH-1000XM5, por exemplo, tem quatro microfones em cada concha, oito no total, e dois processadores dedicados, segundo a página do produto. A Apple anunciou que a segunda geração dos AirPods Pro cancela até o dobro do ruído da anterior, segundo o comunicado da empresa. Os sensores que esses aparelhos carregam são parentes dos de como funciona o giroscópio do celular.

Fone de ouvido do tipo que cobre toda a orelha, com almofadas
Fone do tipo que cobre a orelha: a almofada faz o isolamento passivo. Foto: Ravi Palwe / Unsplash.

Por que funciona melhor para sons graves

Quem usa esses fones nota: o ronco do motor some, mas a voz do vizinho continua. A razão está em duas contas.

O tamanho da onda

O comprimento de onda é a velocidade do som dividida pela frequência. Com o som a 343 m/s (ar a 20 °C):

  • 100 Hz, um ronco grave: 343 ÷ 100 = 3,43 m;
  • 1.000 Hz, faixa da voz: 34,3 cm;
  • 10.000 Hz, um chiado agudo: 3,4 cm.

Uma onda de 3,43 m é enorme perto de uma concha de fone. A pressão sobe e desce praticamente igual em todo o espaço entre o alto-falante e o tímpano, e uma única onda inversa serve para o ouvido inteiro. Já uma onda de 3,4 cm é da ordem do tamanho do canal do ouvido e da concha: a pressão varia de um ponto para outro, e a onda inversa que anula num ponto reforça em outro.

A precisão necessária

A redução de ruído é medida em decibéis (dB). Cada 10 dB a menos significam 10 vezes menos potência sonora; 20 dB, 100 vezes menos.

Para cancelar 20 dB, o que sobra precisa ter um décimo da amplitude original. Isso exige que a onda inversa acerte a amplitude com erro menor que 10%, se a fase for perfeita, ou a fase com erro menor que cerca de 5,7 graus, se a amplitude for perfeita. Com os dois erros juntos, o resultado cai para uns 17 dB (contas nossas, pela soma de duas ondas senoidais). Em tempo, 5,7 graus valem:

  • a 100 Hz: 5,7 ÷ 360 ÷ 100 ≈ 158 milionésimos de segundo;
  • a 1.000 Hz: ≈ 16 milionésimos de segundo;
  • a 5.000 Hz: ≈ 3 milionésimos de segundo.

A tolerância encolhe com a frequência. Para comparar: o som leva cerca de 50 milionésimos de segundo para andar 1,7 cm, uma distância típica dentro da concha, e é mais ou menos esse o tempo que o circuito tem para captar, calcular e tocar. Nos agudos, o atraso da própria eletrônica já consome a tolerância, e a correção feita pelo microfone interno fica instável se tentar agir em frequências altas.

Com erro de fase de 30 graus, o cancelamento cai para menos de 6 dB. Com 60 graus, é zero: a onda “inversa” não tira nada, mesmo com a amplitude exata. Acima disso, ela soma ruído.

Faixa Exemplo Quem resolve
Graves, constantes motor de avião, ar-condicionado, ônibus cancelamento ativo
Médios vozes, televisão um pouco de cada
Agudos e sons repentinos talheres, teclado, buzina isolamento passivo: a almofada e a concha

Por isso um bom fone com cancelamento também veda bem. A espuma barra os agudos, e a eletrônica cuida dos graves, que a almofada barra pouco. A barreira física segue a mesma lógica do isolamento acústico em estúdios.

Cancelar ruído protege a audição?

Indiretamente, pode ajudar. Em ambiente barulhento, a tendência é aumentar o volume para cobrir o ruído. Com menos ruído chegando ao ouvido, dá para ouvir a mesma música mais baixo. Essa é uma inferência nossa; o que as fontes dão são os limites de exposição.

O NIOSH recomenda, para ruído no trabalho, o limite de 85 decibéis ponderados ao longo de um turno de oito horas, e a cada 3 dB a mais o tempo de exposição deve cair pela metade. A tabela que sai dessa regra:

Nível (dBA) Tempo recomendado por dia, pela regra do NIOSH para o trabalho
85 dB 8 horas
88 dB 4 horas
91 dB 2 horas
94 dB 1 hora
100 dB 15 minutos

Para fones de uso pessoal, o padrão da Organização Mundial da Saúde com a União Internacional de Telecomunicações é mais conservador: 80 dB para adultos e 75 dB para crianças, nos dois casos por até 40 horas por semana. Baixar o volume em 9 dB, de 94 para 85, multiplica por oito o tempo recomendado pela regra do NIOSH, que foi pensada para o trabalho e não para o lazer.

O que o cancelamento não faz

  • Não cria silêncio total. Sobra sempre um resíduo, maior nos médios e agudos.
  • Não lida bem com sons repentinos, que mudam mais rápido do que o filtro se adapta.
  • Com vento, os microfones externos captam turbulência que não é som ambiente, e o fone pode gerar ruído em vez de tirar.
  • Gasta bateria: os microfones e o processador ficam ligados o tempo todo.

O modo de transparência, comum nesses fones, usa os mesmos microfones ao contrário: em vez de anular o som de fora, reproduz parte dele, para o usuário ouvir um aviso ou uma conversa. O processamento de som dentro de aparelhos pequenos é assunto de inteligência artificial em celulares.

Perguntas frequentes

Como funciona o cancelamento de ruído?

Microfones captam o ruído, um processador gera uma onda sonora igual e invertida, e o alto-falante a reproduz. As duas ondas se anulam.

Cancelamento de ruído faz mal ao ouvido?

Na faixa em que funciona, a onda inversa reduz a pressão sonora que chega ao tímpano. Fora dela, pode acrescentar um pouco de ruído, em nível baixo. Algumas pessoas relatam sensação de pressão no ouvido; não encontramos fonte primária que a explique.

Por que ainda ouço vozes com o cancelamento ligado?

Porque o cancelamento ativo é mais eficaz nos sons graves e constantes. A voz está nos médios e muda o tempo todo.

Qual a diferença entre cancelamento ativo e isolamento passivo?

O passivo é a barreira física da concha e da almofada, que barra melhor os agudos. O ativo usa eletrônica para anular os graves.

Quem inventou o cancelamento de ruído?

O princípio foi patenteado por Paul Lueg, com patente americana concedida em 1936. A aplicação em fones foi desenvolvida a partir de 1978 por Amar Bose.

O cancelamento de ruído é uma soma que dá zero, e a dificuldade toda está em acertar a onda inversa a tempo. Ele vence os graves, em que a onda é longa e lenta, e deixa os agudos para a almofada. Outros mecanismos explicados com a conta estão em como funciona a engenharia.

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