Inteligência artificial no celular: o que roda no aparelho e o que vai para a nuvem
A inteligência artificial no celular funciona de dois jeitos. As tarefas leves, como transcrever um áudio, resumir uma notificação ou separar o fundo de uma foto, rodam no próprio aparelho, num bloco do processador feito só para isso, a unidade de processamento neural (NPU). As tarefas pesadas, como responder uma pergunta longa ou gerar uma imagem, vão pela internet para servidores. Saber qual é qual explica por que alguns recursos funcionam sem sinal, por que outros pedem conexão e o que acontece com os seus dados.
Este artigo mostra o que é a NPU, faz a conta de quanto espaço um modelo de linguagem ocupa no celular, explica como Apple, Google e Samsung dividem o trabalho entre aparelho e nuvem e como usar esses recursos no dia a dia. As fontes são as páginas técnicas e os comunicados oficiais das três empresas e da Qualcomm.
O chip que faz a inteligência artificial no celular
Um modelo de IA é, no fundo, uma sequência enorme de multiplicações e somas de matrizes. O processador comum (CPU) faz isso, mas devagar e gastando bateria. A NPU é um circuito com milhares de unidades que fazem essas multiplicações em paralelo, com números de baixa precisão, e por isso faz a mesma conta com muito menos energia.
A Apple colocou sua primeira NPU no chip A11 Bionic, em 2017, com capacidade de até 600 bilhões de operações por segundo, segundo o anúncio do iPhone X. Hoje os fabricantes quase não publicam esse número. No iPhone 17 Pro, de setembro de 2025, a Apple descreve um Neural Engine de 16 núcleos e aceleradores neurais dentro de cada núcleo da GPU, sem dar a capacidade total. A Qualcomm, que faz os chips Snapdragon de muitos Android, informa só ganhos relativos: no Snapdragon 8 Elite Gen 6, de setembro de 2026, a NPU é 14% mais rápida que a da geração anterior, segundo a própria fabricante. São números de marketing, e a Qualcomm avisa que o resultado varia.

A conta: quanto um modelo de linguagem ocupa no celular
Um modelo de linguagem é guardado como uma lista de números, os parâmetros. O espaço que ele ocupa é o número de parâmetros vezes o número de bits de cada um, dividido por 8 para virar bytes. O modelo que a Apple roda dentro do iPhone tem cerca de 3 bilhões de parâmetros, segundo o relatório de 2025 da equipe de aprendizado de máquina da Apple. Fazendo a conta para três precisões:
- 16 bits por parâmetro, a precisão usual de treino: 3 bilhões × 16 / 8 = 6 bilhões de bytes, cerca de 6 GB;
- 4 bits: 3 bilhões × 4 / 8 = 1,5 GB;
- 2 bits, o que a Apple diz usar no aparelho desde 2025: 3 bilhões × 2 / 8 = 0,75 GB.

É essa compressão, chamada quantização, que faz o modelo caber. Com 6 GB só de pesos, ele ocuparia boa parte da memória de um celular, que nos iPhones compatíveis vai de 8 a 12 GB. Com 0,75 GB, divide espaço com o sistema e os aplicativos. O preço é alguma perda de qualidade, que a Apple compensa treinando o modelo já sabendo que ele vai ser comprimido. A conta considera só os pesos; o modelo ainda precisa de memória para o texto que está processando.
O Google segue o mesmo caminho. O Gemini Nano, a versão de celular do Gemini, saiu em dois tamanhos, de 1,8 e 3,25 bilhões de parâmetros, comprimidos para 4 bits, segundo o relatório técnico do Gemini. O primeiro celular a rodar o modelo foi o Pixel 8 Pro, em dezembro de 2023.
Aparelho ou nuvem: quem faz o quê
| Empresa | No aparelho | Na nuvem |
|---|---|---|
| Apple | modelo de cerca de 3 bilhões de parâmetros, para resumos, escrita e organização | Private Cloud Compute, servidores próprios com chips da Apple, para pedidos que precisam de modelo maior |
| Gemini Nano, para resumos do Gravador e respostas rápidas do teclado | Gemini, no aplicativo e no Android | |
| Samsung | Intérprete, que funciona sem Wi-Fi nem dados móveis | resumo de notas e de transcrições e edição generativa de fotos |
A Apple diz que, no Private Cloud Compute, os dados pessoais são usados só para aquele pedido e não ficam guardados, e publica o software dos servidores para que pesquisadores possam conferir, segundo o blog de segurança da empresa. Em junho de 2026, a Apple anunciou a extensão desse sistema para a nuvem do Google. A Samsung, no lançamento do Galaxy S24, separou os recursos que rodam no aparelho dos que precisam de internet e criou uma opção para bloquear o processamento em servidor, ao custo de desligar parte dos recursos.
Quando o pedido sai do celular, ele viaja cifrado, com a mesma família de protocolos que protege o Pix e o aplicativo do banco, e é processado em centros de dados que gastam energia e água para resfriar os servidores, assunto do artigo sobre a refrigeração de data centers.
Como usar inteligência artificial no celular
No iPhone
A Apple Intelligence chegou em português do Brasil em 31 de março de 2025, com o iOS 18.4, segundo o comunicado da Apple. Funciona no iPhone 15 Pro, no 15 Pro Max e nos modelos a partir do iPhone 16, incluindo o Air, e pede de 8 a 14 GB livres de armazenamento, segundo a página de suporte da Apple de setembro de 2026. Liga-se em Ajustes, no item Apple Intelligence e Siri. Os usos mais diretos são as Ferramentas de Escrita (selecionar um texto e pedir revisão ou resumo), o resumo de notificações e a limpeza de objetos em fotos.
No Android
Nos aparelhos com Android recente, o aplicativo Gemini substitui o assistente, e o Circule para Pesquisar, lançado em janeiro de 2024 com o Galaxy S24, permite circular qualquer coisa na tela para buscar. Na linha Galaxy, o pacote Galaxy AI inclui tradução de chamadas, intérprete e edição de fotos. Em janeiro de 2026, a Samsung passou a informar em suas páginas do Galaxy AI que os recursos básicos fornecidos por ela são gratuitos e que recursos novos ou avançados podem ser cobrados; recursos de terceiros, como o Circule para Pesquisar, ficam fora dessa garantia.
Sem internet
Para saber o que roda no aparelho, a forma mais simples é testar no modo avião. O que continuar funcionando está usando a NPU. É o caso do Intérprete da Samsung e dos resumos do Gravador nos Pixel. Os sensores do aparelho também alimentam a IA local: o giroscópio do celular estabiliza vídeo junto com o processamento de imagem, e os fones com cancelamento de ruído fazem um processamento parecido em tempo real.
O limite é a bateria
Rodar um modelo no aparelho gasta energia da bateria, enquanto rodar na nuvem gasta energia do servidor e da rede. Nenhuma das empresas publica uma comparação medida entre os dois casos, e por isso este artigo não dá número para isso. O que se sabe é que cada geração de NPU vem com promessa de mais desempenho por watt, e que a capacidade da bateria cresce devagar, assunto do artigo sobre baterias de grafeno.
Perguntas frequentes
Como funciona a inteligência artificial no celular?
Modelos pequenos rodam num bloco do processador chamado NPU, sem internet. Pedidos que exigem modelos maiores vão cifrados para servidores na nuvem.
Como usar a inteligência artificial no celular?
No iPhone compatível, ative a Apple Intelligence em Ajustes. No Android, use o aplicativo Gemini e o Circule para Pesquisar; nos Galaxy, os recursos do Galaxy AI ficam nas configurações de recursos avançados.
A IA do celular funciona sem internet?
Parte dela. Recursos como o Intérprete da Samsung e resumos do Gravador do Pixel funcionam offline. Respostas longas e geração de imagens costumam precisar de conexão.
Por que meu celular não tem Apple Intelligence?
Ela exige iPhone 15 Pro ou mais novo, por causa do chip e da memória, além de espaço livre de 8 a 14 GB.
O que é NPU?
É a unidade de processamento neural, um circuito especializado em multiplicar matrizes com números de baixa precisão, que faz o trabalho da IA gastando menos energia que o processador comum.
A inteligência artificial no celular se divide entre o que cabe no chip e o que precisa da nuvem, e a linha entre os dois é decidida pela memória: um modelo de 3 bilhões de parâmetros só cabe no aparelho comprimido, e a Apple passou de cerca de 3,7 bits por parâmetro em 2024 para 2 bits em 2025. Na hora de escolher um recurso, o teste do modo avião mostra de que lado ele está.
