Células de baterias de íons de lítio vistas de cima
Baterias de íons de lítio. Foto: Vardan Papikyan / Unsplash.

Baterias de grafeno: o que já existe e o que é promessa

Não existe hoje, à venda, uma bateria feita de grafeno. O que existe são baterias de íons de lítio que levam uma pequena quantidade de grafeno em algum componente, supercapacitores com eletrodos de carbono e protótipos de laboratório. A expressão “bateria de grafeno” costuma ser usada para os três, e por isso confunde.

Este artigo separa o que é medido do que é promessa nas baterias de grafeno, com os números de artigos científicos e de fichas técnicas e três contas: a capacidade teórica do grafite, o peso de uma bateria de carro em cada tecnologia e a potência de uma recarga em 8 minutos. As fontes são a Fundação Nobel, a Nature Communications, fichas da Skeleton e da Molicel, comunicados de fabricantes e o Serviço Geológico dos EUA.

O que é grafeno

Grafeno é uma única camada de átomos de carbono, cada um ligado a três vizinhos numa estrutura de favo de mel. Essa é a definição da norma ISO/TS 80004-13, reproduzida num guia do laboratório nacional de metrologia do Reino Unido. A mesma norma chama de grafeno de poucas camadas o empilhamento de três a dez camadas. O grafite do lápis é o empilhamento de muitíssimas delas.

Andre Geim e Konstantin Novoselov receberam o Nobel de Física de 2010 pelos experimentos com o material. O comunicado do prêmio o descreve como uma lâmina de carbono com um átomo de espessura, que conduz eletricidade tão bem quanto o cobre e conduz calor melhor que qualquer outro material conhecido.

Os números medidos em laboratório são altos:

Esses valores são de uma folha perfeita, com poucos micrômetros, medida em condições controladas. O material que entra numa fábrica de baterias é um pó de flocos, e aí a história muda.

Modelo da estrutura do grafeno, com átomos de carbono em favo de mel
Modelo da estrutura do grafeno: átomos de carbono em favo de mel. Foto: AlexanderAlUS / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.

Como o grafite guarda carga, e a conta dos 372 mAh/g

O polo negativo de quase toda bateria de íons de lítio é de grafite. Na carga, os íons de lítio se alojam entre as camadas de carbono, até o limite de um lítio para cada seis carbonos (LiC₆). Desse limite sai a capacidade teórica do material.

Um mol de elétrons carrega 96.485 coulombs (a constante de Faraday). Um miliampere-hora equivale a 3,6 coulombs. Seis mols de carbono pesam 6 × 12,011 = 72,07 g. A capacidade é:

96.485 ÷ 3,6 ÷ 72,07 ≈ 372 mAh por grama (conta nossa).

Esse é o teto do grafite. Em laboratório, polos negativos de grafeno já mostraram capacidade acima desse teto, mas com grande perda irreversível no primeiro ciclo e baixa densidade, o que anula o ganho numa célula real. Por isso o ganho que se busca com o grafeno é de outra natureza: conduzir melhor a corrente e o calor dentro do eletrodo e proteger materiais mais frágeis.

Onde o grafeno entra de verdade

O caso mais bem documentado é o da Samsung. Em 2017, pesquisadores da empresa publicaram na Nature Communications um material chamado bola de grafeno, usado como revestimento do polo positivo e como material do polo negativo. O artigo relata aumento de 27,6% na densidade de energia por volume e 78,6% da capacidade mantida depois de 500 ciclos a 5C (carga em cerca de 12 minutos) e 60 °C.

O comunicado de imprensa da mesma pesquisa fala em 45% de aumento de capacidade e, em teoria, carga completa em 12 minutos. Os dois textos tratam do mesmo trabalho, mas medem coisas diferentes: o artigo fala em densidade de energia por volume e o comunicado, em capacidade. Em nenhum dos dois o grafeno é a bateria inteira: ele é um revestimento dentro de uma célula de íons de lítio.

Uma revisão publicada na Nature Materials em 2015 já fazia o alerta. Segundo o Instituto Helmholtz de Ulm, onde trabalha Stefano Passerini, um dos autores, grande parte das publicações sobre grafeno em baterias superestimou o potencial do material, e o trabalho que falta é fechar a distância entre a pesquisa de laboratório e a aplicação prática.

Os produtos que dizem usar grafeno

Produto O que é Número informado Situação
Molicel P50B (referência, sem grafeno anunciado) célula de íons de lítio 21700 260 Wh/kg, 5.000 mAh à venda
Skeleton SkelCap SCX5000 supercapacitor 11,1 Wh/kg com ficha técnica publicada
Skeleton SuperBattery híbrido de supercapacitor e bateria, com carbono chamado de “grafeno curvo” 65 Wh/kg, carga em 60 s, 50.000 ciclos com ficha técnica publicada
GMG, alumínio-íon com grafeno bateria experimental 49 Wh/kg com carga em 6 min; 101 Wh/kg com carga em 1 h protótipo; meta da empresa de produção comercial pequena em 2027
GAC Aion V bateria de carro “à base de grafeno” 80% da carga em 8 min, com carregador de 600 A anunciada em 2021; o papel do grafeno não é detalhado

As fontes são as fichas da Molicel, do SkelCap e da SuperBattery, o comunicado da GMG de abril de 2026 e a nota da GAC.

Gráfico de energia por quilo: supercapacitor 11,1 Wh/kg, híbrido com carbono 65, alumínio-íon com grafeno 101 e íons de lítio 260
Densidade de energia informada por Skeleton, GMG e Molicel. O valor da GMG é de protótipo, com carga em 1 hora.

A conta do peso

Densidade de energia é quanta energia cabe em cada quilo. Para guardar 60 kWh, o tamanho de uma bateria de carro elétrico médio (premissa nossa), que alimenta o motor elétrico, só em células:

  • a 260 Wh/kg (íons de lítio): 60.000 ÷ 260 ≈ 231 kg;
  • a 65 Wh/kg (SuperBattery): 60.000 ÷ 65 ≈ 923 kg;
  • a 11,1 Wh/kg (supercapacitor): 60.000 ÷ 11,1 ≈ 5.400 kg.

Os produtos de carbono que carregam em segundos guardam de 4 a 23 vezes menos energia por quilo. Eles servem para entregar e receber potência em rajadas, como na frenagem de trens e ônibus e em guindastes, e não substituem a bateria que dá autonomia. A recuperação de energia na frenagem está em como os carros elétricos reciclam energia ao frear.

A conta da recarga em 8 minutos

Carregar 80% de uma bateria de 70 kWh (premissa nossa; a nota da GAC não informa a capacidade) em 8 minutos significa pôr 56 kWh em 8 ÷ 60 = 0,133 hora. A potência média é 56 ÷ 0,133 ≈ 420 kW. A velocidade de recarga depende do carregador, dos cabos e do resfriamento tanto quanto da química da célula, e o grafeno, quando ajuda, ajuda por conduzir calor e corrente dentro do eletrodo.

Células cilíndricas de íons de lítio nos formatos 18650 e 21700
Células cilíndricas de íons de lítio nos formatos 18650 e 21700. Foto: Sevenethics / Wikimedia Commons, CC0.

O problema da matéria-prima

Parte da confusão começa no pó. Um estudo de 2018 publicado na Advanced Materials por pesquisadores da Universidade Nacional de Singapura analisou o material vendido como grafeno por 60 produtores e concluiu que quase não havia no mercado grafeno de alta qualidade conforme a definição da ISO. Há um resumo em português no Laboratório de Química do Estado Sólido da Unicamp. Segundo o estudo, muito do que se vende com esse nome é grafite em flocos finos. Para uma bateria isso pode até servir, mas não é o material dos números de laboratório.

E o Brasil?

O Brasil tem a segunda maior reserva de grafite natural do mundo: 74 milhões de toneladas, atrás da China, com 100 milhões, num total mundial de 310 milhões, segundo o Serviço Geológico dos EUA. São 74 ÷ 310 ≈ 24% das reservas. A produção é pequena perto disso: 65 mil toneladas estimadas para 2025.

Em grafeno, as plantas brasileiras ainda são de escala piloto. A UCSGraphene, da Universidade de Caxias do Sul, opera desde março de 2020 com capacidade de 500 kg por ano e potencial de chegar a 5 toneladas, segundo um boletim do Ministério da Ciência e Tecnologia. O projeto MGgrafeno, em Minas Gerais, ampliou a sua para 1,25 tonelada por ano, segundo a Agência Minas.

Perguntas frequentes

Bateria de grafeno já existe?

Como bateria feita só de grafeno, não. Existem baterias de íons de lítio com grafeno como aditivo ou revestimento, supercapacitores de carbono e protótipos.

Bateria de grafeno carrega mais rápido?

O grafeno pode ajudar a carga rápida por conduzir bem corrente e calor dentro do eletrodo. Os produtos que carregam em segundos são supercapacitores ou híbridos, que guardam muito menos energia por quilo.

Qual a diferença entre grafeno e grafite?

O grafeno é uma camada única de átomos de carbono. O grafite é o empilhamento de muitas dessas camadas.

Power bank de grafeno é de grafeno mesmo?

Não encontramos ficha técnica independente desses produtos. Pelo que os fabricantes de células publicam, o mais provável é uma bateria de íons de lítio com grafeno como aditivo.

Carro elétrico já usa bateria de grafeno?

A GAC anunciou em 2021 uma bateria “à base de grafeno” para o Aion V, sem detalhar o papel do material. Células com outras químicas alternativas, como as dos carros a hidrogênio, seguem caminho próprio.

As baterias de grafeno de hoje são, na prática, baterias de íons de lítio melhoradas com um pouco de grafeno, e os números de laboratório do material ainda não chegaram à prateleira. Para avaliar qualquer anúncio, procure dois números na ficha técnica: os Wh por quilo e o tempo de carga. Outras tecnologias na mesma fase estão em inovações tecnológicas na engenharia.

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