Vista aérea de uma barragem de concreto liberando água para o rio entre florestas de pinheiros
A barragem de Detroit, no Oregon, Estados Unidos, uma barragem de gravidade de concreto. Foto: Dan Meyers / Unsplash.

Como funciona uma barragem hidrelétrica: a conta da potência e da área alagada

Uma barragem hidrelétrica represa um rio para criar desnível e acumular água. A água desce por um conduto até uma turbina, a turbina gira um gerador, e a energia que sai depende de duas grandezas que dá para medir: quanta água passa por segundo e de que altura ela cai. Em 2024, as hidrelétricas responderam por 55,3% da oferta interna de energia elétrica do Brasil, segundo a síntese do Balanço Energético Nacional 2025, da Empresa de Pesquisa Energética.

Este artigo mostra o caminho da água dentro da usina, faz a conta da potência de uma unidade de Itaipu, compara os tipos de turbina e explica por que uma usina de 11.233 MW entrega, em média, menos da metade disso. No fim, a comparação que mais pesa no debate ambiental: quanta área cada usina alaga por megawatt.

Como funciona uma barragem hidrelétrica

O caminho da água numa usina de reservatório tem seis etapas:

  1. Reservatório. A barragem eleva o nível do rio e guarda água para os meses secos.
  2. Tomada d’água. Uma estrutura com grades e comportas capta a água perto da barragem.
  3. Conduto forçado. Um tubo de aço ou concreto leva a água sob pressão até a casa de força.
  4. Turbina. A água empurra as pás e faz girar o eixo.
  5. Gerador. No mesmo eixo, um rotor com eletroímãs gira dentro de bobinas e induz corrente. É o princípio dos motores elétricos aplicado no sentido inverso: o giro do eixo induz corrente nas bobinas.
  6. Canal de fuga. A água sai pela parte de baixo e volta ao rio.

Além dessa linha principal, toda barragem tem vertedouro, por onde passa o excesso de água nas cheias sem atravessar as turbinas. E toda passagem entre água sob pressão e partes móveis, do eixo da turbina às comportas, depende de sistemas de vedação que seguram vazamentos por décadas.

A conta da potência: P = ρ × g × Q × H × η

A potência de uma turbina hidráulica sai de uma fórmula de física básica:

  • ρ é a densidade da água, 1.000 kg/m³;
  • g é a gravidade, 9,81 m/s²;
  • Q é a vazão turbinada, em m³/s;
  • H é a queda líquida, o desnível descontadas as perdas no conduto, em metros;
  • η é o rendimento da turbina.

Itaipu publica os dados de projeto de cada unidade: vazão nominal de 645 m³/s e queda líquida de 118,4 m, com potência nominal da turbina de 715 MW. Sem perdas, a água entregaria 1.000 × 9,81 × 645 × 118,4 ≈ 749 milhões de watts, ou 749 MW. A relação entre o que a turbina entrega e o que a água oferece dá o rendimento: 715 / 749 ≈ 0,95. Turbinas grandes convertem cerca de 95% da energia da água em trabalho no eixo; o gerador, de 700 MW, perde mais um pouco, um dos rendimentos mais altos entre as máquinas de conversão de energia.

A fórmula também mostra por que vazão e queda se compensam. Uma usina de rio de planície, com queda de 20 m, precisa de cerca de seis vezes a vazão de Itaipu para a mesma potência (118,4 / 20 ≈ 5,9). Uma usina de montanha, com 600 m de queda, faz o mesmo com um quinto da água de uma unidade de Itaipu.

Tipos de turbina: a queda escolhe

Turbina Faixa típica de queda Como a água age Exemplo
Kaplan e bulbo baixa, até algumas dezenas de metros atravessa um rotor em forma de hélice, com pás que podem mudar de ângulo casa de força de Pimental, em Belo Monte
Francis de 40 a 600 m, segundo o Departamento de Energia dos Estados Unidos entra pela lateral e sai pelo centro, preenchendo o rotor Itaipu e a casa de força principal de Belo Monte
Pelton alta, centenas de metros jatos batem em conchas na borda de uma roda usinas de montanha, com pouca vazão

A Francis domina as grandes usinas brasileiras porque cobre a faixa de queda dos rios de planalto. Belo Monte usa as duas soluções: 18 turbinas Francis de 611 MW na casa de força principal e 6 turbinas bulbo de cerca de 39 MW em Pimental, onde a queda é pequena.

Potência instalada e energia entregue

A potência instalada diz quanto a usina gera com todas as máquinas no máximo. A energia entregue depende de quanta água o rio traz ao longo do ano. A razão entre as duas é o fator de capacidade:

  • Itaipu. São 20 unidades, 14.000 MW. Em 2016, produziu 103,1 TWh. Com todas as máquinas ligadas o ano inteiro, seriam 14.000 MW × 8.784 h (2016 foi bissexto) ≈ 123 TWh. O fator de capacidade foi 103,1 / 123 ≈ 0,84.
  • Belo Monte. São 11.233 MW instalados e garantia física de 4.571 MW médios, a energia que a usina pode vender com segurança. A razão é 4.571 / 11.233 ≈ 0,41.

A diferença vem do tipo de usina. Belo Monte é praticamente a fio d’água: seus reservatórios são pequenos para o porte, e no período seco o Xingu leva uma fração da vazão da cheia. As máquinas existem para aproveitar a cheia, e ficam paradas em boa parte do ano. Itaipu tem um rio mais regular e reservatórios a montante, no Paraná, que guardam água.

Área alagada: o custo que não aparece na conta

A fórmula da potência não tem área. O impacto mais visível de uma barragem hidrelétrica, porém, é o reservatório. Dividindo a potência instalada pela área alagada:

Gráfico de barras de megawatts instalados por km² de reservatório: Belo Monte 23,5, Itaipu cerca de 10 e Balbina 0,1
Balbina alaga mais de 200 vezes a área de Belo Monte por megawatt instalado. Contas nossas com dados da Norte Energia, de Itaipu e da NASA.

Os números de cada usina: Belo Monte tem 478 km² de reservatórios, segundo o relatório da Norte Energia, o que dá 11.233 / 478 ≈ 23,5 MW por km². Itaipu tem cerca de 1.350 km² de reservatório para 14.000 MW, cerca de 10 MW por km². Balbina, no Amazonas, alagou cerca de 2.360 km² de floresta para 250 MW, segundo a NASA: 250 / 2.360 ≈ 0,1 MW por km². Em energia média, a diferença é parecida: segundo o pesquisador Philip Fearnside, do INPA, Balbina gera em média cerca de 110 MW, ou 0,05 MW médio por km², contra 4.571 / 478 ≈ 9,6 de Belo Monte.

Barragem hidrelétrica de concreto de Srisailam sob céu azul
A barragem de Srisailam, no rio Krishna, na Índia, também abastece uma usina hidrelétrica. Foto: Tejj / Unsplash.

A área alagada pesa por dois motivos. O primeiro é a perda de floresta, terra e moradia. O segundo é o clima: a matéria orgânica submersa se decompõe sem oxigênio e libera metano, um gás de efeito estufa mais potente que o CO₂. Em reservatórios rasos e grandes na Amazônia, como Balbina, estudos de Fearnside estimam emissões maiores que as de térmicas a combustível fóssil que gerassem a mesma energia. Esse tipo de conta é o que pesa quando um projeto pede crédito de carbono como energia limpa.

Reservatório também tem outros usos. O Lago Gatún, formado por uma barragem no rio Chagres, é a água que enche as eclusas do Canal do Panamá, e a ampliação de 2016 incluiu bacias para reaproveitar parte dela. E uma barragem de usina não deve ser confundida com as barragens de contenção de rejeitos da mineração, que guardam resíduo sólido e seguem outra lógica de projeto e de risco.

Perguntas frequentes

Como uma barragem hidrelétrica gera energia?

A barragem cria desnível. A água desce pelo conduto forçado, gira a turbina, e o gerador no mesmo eixo transforma o giro em eletricidade. A potência é ρ × g × Q × H × η.

Qual a maior hidrelétrica do Brasil?

Em potência instalada, Itaipu, com 14.000 MW, dividida com o Paraguai. A maior inteiramente brasileira é Belo Monte, com 11.233 MW. No mundo, a maior em potência é a de Três Gargantas, na China, com 22.500 MW.

Por que Belo Monte gera menos do que a potência instalada?

Porque é quase a fio d’água e o Xingu tem vazão muito menor na seca. A garantia física, 4.571 MW médios, é cerca de 41% da potência instalada.

Qual a diferença entre usina a fio d’água e de reservatório?

A fio d’água turbina a vazão do dia, com pouca reserva. A de reservatório acumula água na cheia para gerar na seca, ao custo de alagar mais área.

Hidrelétrica é energia limpa?

Não emite na operação como uma térmica, mas o reservatório pode emitir metano e alagar grandes áreas. O impacto varia muito com a relação entre potência e área, de 0,1 a mais de 20 MW por km² nos exemplos do artigo.

O funcionamento de uma barragem hidrelétrica se resume a uma fórmula com vazão e queda, e por ela qualquer usina pode ser avaliada. Para comparar projetos, porém, olhe dois números que a fórmula não mostra: o fator de capacidade, que diz quanto da potência vira energia, e os megawatts por km² alagado, que dizem quanto custou em território.

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