Cava de uma mina a céu aberto
Mina a céu aberto. Foto: Aedrian Salazar / Unsplash.

Barragens de contenção de rejeitos: como funcionam e por que rompem

Barragens de contenção de rejeitos são diques que seguram a lama que sobra do beneficiamento do minério. Diferentemente de uma barragem de água, elas crescem junto com a mina: são alteadas em etapas, durante décadas. O modo de fazer esse alteamento é o que separa uma estrutura estável de uma que pode romper. As duas maiores tragédias do Brasil, Mariana em 2015 e Brumadinho em 2019, aconteceram em barragens do mesmo tipo, hoje proibido.

Este artigo explica como essas barragens funcionam, os três métodos de construção, o que os painéis de especialistas concluíram sobre os dois rompimentos e quantas barragens o país tem hoje. As fontes são a Agência Nacional de Mineração (ANM), a lei de segurança de barragens, o relatório do painel de Brumadinho, o Ministério Público Federal e um levantamento mundial de 2020.

O que é rejeito e por que ele precisa de barragem

Para separar o minério da rocha, a mineradora mói o material e usa água no processo. O que sobra é o rejeito: uma polpa de partículas finas e água. O destino tradicional é um vale fechado por um dique, onde os sólidos assentam e a água é recuperada.

A escala é grande. O Global Tailings Review, de 2020, estimou cerca de 8.500 estruturas de rejeitos no mundo, entre ativas e fechadas, e projetou 11,1 bilhões de metros cúbicos de rejeitos novos por ano a armazenar nos cinco anos seguintes.

Os três métodos de alteamento

Toda barragem de rejeitos começa com um dique de partida. Quando o reservatório enche, constrói-se um novo dique por cima. A diferença está em onde esse novo dique se apoia.

Esquema em corte dos três métodos de alteamento: a montante, com os novos diques sobre o rejeito; linha de centro, com a crista subindo na vertical; e a jusante, com os novos diques sobre o anterior e o terreno
Os três métodos de alteamento, em corte. No método a montante, proibido no Brasil, os novos diques se apoiam no rejeito.
Método Onde o novo dique se apoia Consequência
A montante Sobre o próprio rejeito já depositado, para dentro do reservatório Usa menos material e é o mais barato; a estabilidade depende da resistência do rejeito
Linha de centro Parte sobre o dique anterior, parte sobre o rejeito, mantendo o eixo Solução intermediária
A jusante Sobre o dique anterior e o terreno, para fora do reservatório Usa mais material e ocupa mais área; não depende do rejeito
A definição do método a montante é a da Lei 12.334. As descrições dos outros dois são as correntes na literatura técnica; não as conferimos em uma fonte única.

Uma dissertação da PUC-Rio descreve o método a montante como simples e de baixo custo quando comparado aos outros. Por isso foi o mais usado no Brasil. No levantamento mundial, 37% das estruturas informadas eram desse tipo; ele respondia por 85% das construídas na década de 1920 e caiu para 19% na de 2010.

O problema está no apoio. No método a montante, a barragem inteira passa a depender de um material que foi depositado como lama. Se esse material perder resistência, o dique vai junto. É a mesma lição da Torre de Pisa, em escala muito pior: o que decide é o que está por baixo.

Liquefação: quando o sólido vira líquido

O rejeito fino e encharcado tem um comportamento perigoso. Os grãos se apoiam uns nos outros, com água nos vazios. Se a pressão dessa água sobe, ela passa a sustentar os grãos, que perdem o contato, e o material deixa de se comportar como solo. Num rejeito fofo e encharcado, qualquer perturbação que faça os grãos se acomodarem joga a carga para a água, que não escoa a tempo. A dissertação da PUC-Rio aponta a liquefação estática como causa principal da ruptura de várias barragens.

O nome “estática” indica que não é preciso terremoto. Basta uma mudança lenta que leve o material ao limite. A noção de resistência de um material está em resistência dos materiais.

O que os painéis concluíram

Fundão, Mariana, 5 de novembro de 2015. O painel de especialistas contratado para investigar concluiu que a barragem rompeu por um deslizamento com liquefação, iniciado na ombreira esquerda. O Ministério Público Federal registra mais de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos liberados, 19 mortos e 663 km atingidos, de Bento Rodrigues até o mar.

Barragem I, Brumadinho, 25 de janeiro de 2019. O painel de especialistas concluiu por liquefação estática. A barragem tinha sido construída a montante, em dez alteamentos, de 1976 a 2013. Foram liberados 9,7 milhões de metros cúbicos, cerca de 75% do que estava armazenado; o talude desabou em menos de dez segundos e o reservatório esvaziou em menos de cinco minutos. O relatório fala em mais de 250 mortos; a contagem divulgada depois pela imprensa é de 270.

Uma conta dá a dimensão da velocidade: 9,7 milhões de metros cúbicos em cinco minutos são 9.700.000 ÷ 300 = cerca de 32.000 metros cúbicos por segundo, em média.

O painel de Brumadinho listou os fatores que se somaram: talude íngreme construído a montante, água acumulada perto da crista, um recuo no eixo que apoiou o talude sobre rejeitos finos e fracos, falta de drenagem interna, rejeito pesado e frágil pelo alto teor de ferro e as chuvas da estação. Como gatilho, apontou deformações internas lentas combinadas com a perda de resistência causada pela chuva. Não houve sismo nem detonação.

Um ponto do relatório interessa a quem confia em instrumentos. A barragem tinha marcos topográficos, inclinômetros, radar e piezômetros, e nenhum deles detectou deformação ou mudança significativa antes da ruptura. Esse tipo de rompimento pode não avisar.

Montanha escavada em degraus em uma mina de ferro a céu aberto
Mina de ferro a céu aberto em Erzberg, na Áustria. Cada tonelada de minério beneficiado deixa rejeito para armazenar. Foto: Chris / Unsplash.

O que mudou na lei

Depois de Brumadinho, a ANM proibiu novos alteamentos a montante, em 2019, e a Lei 14.066, de 2020, pôs a proibição na Política Nacional de Segurança de Barragens: “Fica proibida a construção ou o alteamento de barragem de mineração pelo método a montante”. As existentes deveriam ser descaracterizadas, isto é, deixar de funcionar como barragem, até 25 de fevereiro de 2022, com prorrogação possível em caso de inviabilidade técnica.

O prazo não foi cumprido pela maioria. Segundo o relatório da ANM de julho de 2026, das 74 barragens a montante cadastradas em 2019, 25 foram descaracterizadas e 42 continuam no cadastro, em processo de descaracterização, cerca de 60% delas em Minas Gerais. As demais saíram da lista por outros motivos. Há conclusões previstas de 2027 a 2029 e algumas só em 2035. A lei também proíbe construir barragem de mineração com comunidade na zona de autossalvamento, o trecho abaixo da barragem em que não há tempo para socorro.

Quantas barragens o Brasil tem

O boletim da ANM de agosto de 2026 registra:

  • 909 barragens de mineração cadastradas;
  • 467 enquadradas na política nacional de segurança;
  • 82 em situação de alerta ou emergência, sendo 13 em alerta, 61 em nível 1, 7 em nível 2 e 1 em nível 3, o mais grave.

As 82 correspondem a 82 ÷ 909 = 9% do cadastro. A classificação de cada barragem combina dois critérios: a categoria de risco, que reflete as características técnicas e o estado de conservação, e o dano potencial associado, que mede o estrago que um rompimento causaria.

A alternativa: não ter barragem

A saída mais segura é não guardar lama. No empilhamento a seco, o rejeito passa por filtros, perde a maior parte da água e é empilhado como solo compactado. Depois de 2015, a Samarco voltou a operar filtrando 80% do rejeito e pondo o restante numa cava, segundo a imprensa. A Vale informou, conforme o Diário do Comércio, que 78% da produção de 2023 não gerou rejeitos e que investiu R$ 7 bilhões desde 2019 para eliminar barragens a montante.

O custo é maior, e a água recuperada precisa de tratamento, tema de tratamento de efluentes industriais. Barragens de outro tipo, feitas para segurar água e gerar energia, estão em barragem hidrelétrica.

Perguntas frequentes

O que são barragens de contenção de rejeitos?

São diques que retêm a polpa de partículas finas e água que sobra do beneficiamento do minério.

Por que a barragem a montante é perigosa?

Porque cada novo dique se apoia sobre o rejeito já depositado. Se esse material perde resistência, a barragem perde o apoio.

O que é liquefação?

É a perda repentina de resistência de um material encharcado, que passa a se comportar como líquido quando a pressão da água nos poros sobe.

Barragens a montante ainda existem no Brasil?

Sim. Em julho de 2026, a ANM contava 42 ainda no cadastro, em processo de descaracterização.

Quantas barragens de mineração há no Brasil?

909 cadastradas na ANM em agosto de 2026, das quais 82 em alerta ou emergência.

As barragens de contenção falham menos por um defeito isolado do que por uma escolha de projeto: apoiar a estrutura no material que ela deveria conter. A proibição do método resolve as novas; as antigas vão ocupar a engenharia brasileira até a próxima década. Os princípios físicos por trás, com as contas, estão em como funciona a engenharia.

Posts Similares