Tanques de concreto de uma estação de tratamento vistos de cima
Tanques de uma estação de tratamento, vistos de cima. Foto: Ivan Bandura / Unsplash.

Etapas do tratamento de efluentes industriais: do gradeamento ao reúso

As etapas de tratamento de efluentes industriais seguem uma ordem lógica: primeiro sai o que é grande e pesado, depois o que flutua ou decanta, em seguida bactérias consomem a matéria orgânica dissolvida, e por fim um polimento ajusta o que a lei ou o reúso exigem. Cada etapa tira uma fração da carga, e é a soma delas que leva um efluente de laticínio com 3.487 mg/L de DBO até cerca de 12 mg/L, como mostra um estudo da Embrapa.

Este artigo explica o que é medido, o que a Resolução CONAMA 430 exige, como se calcula a carga de uma fábrica e o que cada etapa remove, com as eficiências das fontes técnicas. Os números servem para entender o processo; o projeto de uma estação de tratamento depende de análises do efluente real e do licenciamento ambiental.

O que se mede: DBO e DQO

A principal medida de poluição orgânica é a DBO, demanda bioquímica de oxigênio: quanto oxigênio as bactérias consomem, em 5 dias a 20 °C, para decompor a matéria orgânica de um litro de efluente. É o oxigênio que o efluente roubaria do rio se fosse lançado sem tratamento, e sem oxigênio os peixes morrem. A DQO, demanda química de oxigênio, mede o mesmo com um oxidante químico forte, e por isso é sempre maior: inclui o que as bactérias não conseguem digerir.

Esgoto doméstico bruto tem DBO de 250 a 350 mg/L, segundo o livro de referência de Marcos von Sperling. Efluentes industriais costumam ser muito mais concentrados:

Gráfico de barras da DBO típica do efluente bruto: esgoto doméstico 300 mg/L, refrigerantes 1.188, abate de suínos 1.250, papel 1.311, abate de bovinos 2.000 e laticínio 3.487 mg/L
Efluentes industriais chegam a dez vezes a carga do esgoto doméstico. Fontes: CETESB, Embrapa e von Sperling.

Os valores vêm dos guias técnicos da CETESB para abate de bovinos e suínos e para cervejas e refrigerantes, do estudo da Embrapa em laticínio e de um caso de fábrica de papel documentado pela Escola Superior da CETESB. Cervejarias ficam entre 1.200 e 3.000 mg/L. No abate, o sangue bruto chega a cerca de 200 gramas de DBO por litro, o que explica por que recolher o sangue antes da lavagem é a primeira medida de qualquer frigorífico. No laticínio, o vilão é o soro, subproduto da fabricação do queijo.

A conta da carga: quantas pessoas vale uma fábrica

A concentração sozinha não diz o tamanho do problema. O que importa é a carga, a massa de DBO por dia:

carga (kg/dia) = vazão (m³/dia) × DBO (mg/L) ÷ 1.000

Uma indústria que lança 500 m³ por dia com DBO de 2.000 mg/L gera 500 × 2.000 ÷ 1.000 = 1.000 kg de DBO por dia. Para comparar com uma cidade, usa-se a carga por habitante, que von Sperling adota como 54 gramas de DBO por pessoa por dia. Então: 1.000.000 g ÷ 54 g ≈ 18.500 habitantes. Um frigorífico médio polui como uma cidade pequena, e por isso precisa de uma estação de tratamento de porte municipal.

O que a lei exige: CONAMA 430

No Brasil, a Resolução CONAMA nº 430, de 2011, fixa no artigo 16 as condições para lançar efluente industrial num rio:

Parâmetro Condição
pH entre 5 e 9
Temperatura abaixo de 40 °C, sem aquecer o rio mais de 3 °C na zona de mistura
Materiais sedimentáveis até 1 mL/L em 1 hora no cone Imhoff
Óleos minerais até 20 mg/L
Óleos vegetais e gorduras animais até 50 mg/L
Materiais flutuantes ausentes
DBO remoção mínima de 60%

Além disso, há limites para metais e substâncias tóxicas, e o órgão ambiental pode exigir mais, conforme a classe do rio. Os 60% são o mínimo da norma federal; na prática, estações industriais bem operadas passam de 90%.

Etapa 1: tratamento preliminar

O preliminar tira o que danificaria bombas e entupiria tubos: sólidos grandes, areia e fibras. Usa grades, peneiras e caixas de areia. Na fábrica de papel estudada pela Escola Superior da CETESB, a sequência era uma grade de 12 mm, uma peneira rotativa de 6 mm e um desarenador do tipo vórtice. O preliminar remove pouca DBO, mas protege todo o resto.

Muitas indústrias têm também um tanque de equalização: como a vazão e a concentração variam ao longo do dia, um volume de espera mistura picos e vales e entrega ao tratamento biológico uma carga constante. Bactérias não gostam de surpresas.

Etapa 2: tratamento primário

O primário separa o que decanta ou flutua. Na decantação, o efluente passa devagar por um tanque e os sólidos assentam no fundo. Segundo von Sperling, citado em material de aula da Universidade Estadual de Maringá, o primário remove de 25% a 35% da DBO e de 60% a 70% dos sólidos em suspensão.

Em efluentes com óleo e gordura, como os de frigoríficos e laticínios, a flotação por ar dissolvido funciona melhor. Água saturada de ar sob pressão é solta no tanque; a queda de pressão forma microbolhas de 20 a 100 micrômetros, que grudam nas gotas de gordura e nas partículas e as levam à superfície, de onde um raspador as retira. Muitas vezes o primário recebe coagulantes, como sulfato de alumínio, cloreto férrico ou policloreto de alumínio, que desestabilizam as cargas elétricas das partículas finas e as fazem se juntar em flocos maiores, mais fáceis de separar.

Vista aérea de uma estação de tratamento de esgoto com tanques circulares
Decantadores circulares, onde os sólidos assentam no fundo. Foto: Patrick Federi / Unsplash.

Etapa 3: tratamento secundário, o biológico

A matéria orgânica dissolvida não decanta; precisa ser comida. O tratamento secundário usa bactérias, e há dois caminhos.

Aeróbio, com oxigênio. No processo de lodos ativados, o efluente fica num tanque com ar soprado, e uma massa de bactérias em flocos consome a matéria orgânica. Depois, um decantador separa as bactérias, e parte delas volta ao tanque. A eficiência de remoção de DBO fica entre 85% e 95%, e na variante de aeração prolongada, de 93% a 98%, segundo von Sperling, no mesmo material da UEM. O custo é a energia dos aeradores, sopradores e misturadores acionados por motores elétricos, um dos maiores gastos de operação da estação.

Anaeróbio, sem oxigênio. No reator UASB e em seus derivados, bactérias que vivem sem oxigênio decompõem a matéria orgânica e produzem biogás, rico em metano. Removem de 60% a 85% da DBO, pela mesma fonte, gastam pouca energia e geram menos lodo, mas raramente atingem sozinhos o padrão de lançamento. Por isso são usados antes de um aeróbio. O metano capturado pode virar energia; liberado, é um gás de efeito estufa forte, tema que entra nas contas de crédito de carbono.

As lagoas de estabilização são a versão de baixo custo, com muita área: segundo uma ficha técnica da agência ambiental dos Estados Unidos, lagoas facultativas podem chegar a 95% de remoção de DBO e efluente com menos de 30 mg/L. Em casas isoladas no campo, sem rede de esgoto, a escala é outra, e uma solução desenvolvida pela Embrapa é a fossa séptica biodigestora, que trata só o esgoto do vaso sanitário.

A soma das etapas é que dá o resultado. Na fábrica de papel citada, um reator anaeróbio projetado para até 80% de remoção, seguido de lodos ativados e de flotação final, levou a remoção total a 99%, com DBO de saída entre 3 e 14 mg/L, a partir de uma entrada média de cerca de 1.300 mg/L.

Etapa 4: tratamento terciário e reúso

O terciário entra quando a lei ou o uso pedem mais: remoção de nitrogênio e fósforo, filtração, desinfecção ou membranas. É a etapa que transforma efluente em água de reúso. O maior exemplo brasileiro é o Aquapolo, que trata esgoto da estação ABC, em São Paulo, e fornece água industrial ao polo petroquímico de Capuava, com capacidade de 1.000 litros por segundo e adutora de 16,5 km, segundo material da ABES.

O lodo: o resíduo que sobra

Todo tratamento gera lodo: os sólidos do primário, as bactérias em excesso do secundário e a espuma da flotação. Ele precisa ser adensado e desidratado, em centrífugas e filtros-prensa, para reduzir volume, e depois ter uma destinação aprovada no licenciamento, como aterro ou aproveitamento. Na fábrica de papel estudada, o lodo passava por um adensador de 330 m³, três prensas e uma centrífuga. Gerir o lodo, como gerir os rejeitos de mineração, é parte do custo real de produzir.

Perguntas frequentes

Quais são as etapas do tratamento de efluentes?

Preliminar (grades e caixa de areia), primário (decantação ou flotação), secundário (biológico, com ou sem oxigênio) e terciário (nutrientes, filtração, desinfecção ou membranas), mais o tratamento do lodo.

O que é DBO?

É o oxigênio que as bactérias consomem em 5 dias para decompor a matéria orgânica de um litro de efluente. Esgoto doméstico tem cerca de 300 mg/L; efluentes industriais chegam a milhares.

Quanto de DBO precisa ser removido pela lei?

A CONAMA 430 exige remoção mínima de 60% para efluentes industriais, além de limites de pH, temperatura, óleos e sólidos. O órgão ambiental pode exigir mais.

Qual a diferença entre tratamento aeróbio e anaeróbio?

O aeróbio usa oxigênio, remove mais DBO e gasta energia com aeração. O anaeróbio dispensa oxigênio, produz biogás e gera menos lodo, mas costuma precisar de um aeróbio depois.

Efluente tratado pode ser reutilizado?

Pode, com tratamento terciário. O Aquapolo, em São Paulo, fornece água de reúso a um polo petroquímico com capacidade de 1.000 litros por segundo.

As etapas de tratamento de efluentes não competem entre si; cada uma prepara a seguinte. A conta da carga mostra por que uma fábrica precisa de uma estação do tamanho da de uma cidade, e a sequência de remoções mostra como 3.487 mg/L viram cerca de 12. Quem projeta escolhe a combinação pelo efluente que tem, pela lei que precisa cumprir e pelo que quer fazer com a água no fim.

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