Turbinas de um grande parque eólico offshore no Mar do Norte
Turbinas de um dos grandes parques eólicos offshore do Mar do Norte. Foto: dom fellowes from UK / Wikimedia Commons, CC BY 2.0.

Como funciona o maior parque eólico offshore do mundo, do vento ao cabo

Um parque eólico offshore reúne de dezenas a mais de uma centena de turbinas fincadas no fundo do mar, ligadas por cabos submarinos a uma subestação que eleva a tensão e manda a energia para a costa. O maior parque eólico offshore do mundo é um título disputado: o Hornsea 2, no Mar do Norte britânico, com 1,32 GW, levou o posto de maior projeto único quando entrou em operação completa em 2022, e projetos ainda maiores, como o Dogger Bank, de 3,6 GW, estão em montagem.

Este artigo mostra como funciona um parque desses, do vento ao cabo de exportação, com a conta da potência de uma turbina, a energia que o parque gera no ano e por que o ranking dos maiores muda conforme a forma de contar.

Hornsea 2 em números

Item Valor
Potência 1.320 MW
Turbinas 165 Siemens Gamesa SG 8.0-167 DD, de 8 MW
Diâmetro do rotor 167 m
Distância da costa cerca de 89 km, na costa leste da Inglaterra
Área cerca de 462 km²
Profundidade 30 a 40 m
Fundações monopilares
Operação completa agosto de 2022

Os dados são da ficha do projeto no Tethys, base de dados do Laboratório Nacional do Noroeste do Pacífico, do Departamento de Energia dos EUA.

Como funciona um parque eólico offshore

A turbina

O vento gira as pás, as pás giram o eixo e o eixo gira o gerador. No modelo do Hornsea 2, o gerador é de acionamento direto (o DD do nome), sem caixa multiplicadora: o rotor lento gira um gerador grande, de ímãs permanentes. Cada turbina fica sobre um monopilar, um tubo de aço cravado no fundo do mar, numa lâmina d’água de 30 a 40 m. O funcionamento básico da turbina eólica, com os tipos de rotor e a curva de potência, está no artigo sobre turbinas eólicas.

Os cabos e a subestação

As turbinas são ligadas em grupos por cabos submarinos de 66 kV até uma subestação no mar, que eleva a tensão para 220 kV. Tensão mais alta significa corrente menor para a mesma potência, e a perda nos cabos cresce com o quadrado da corrente, a mesma razão que leva as linhas de transmissão em terra a usar transformadores. Do Hornsea 2 saem três cabos de exportação enterrados no leito, que chegam à costa de Lincolnshire, segundo o Tethys. A tecnologia de lançar e proteger cabos no fundo do mar é parente da usada nos cabos submarinos de fibra óptica.

Em distâncias muito longas, o cabo de corrente alternada perde eficiência e os projetos passam a usar corrente contínua em alta tensão. O Hornsea 2, a cerca de 89 km da costa, ficou na corrente alternada, mas precisou de uma estação de compensação de reativos instalada no mar, no caminho dos cabos de exportação, para compensar a energia reativa que cabos longos de corrente alternada geram, segundo a Ørsted.

Fileira de turbinas eólicas offshore no Mar do Norte, na costa da Bélgica
Turbinas eólicas offshore no Mar do Norte, na costa da Bélgica: fincadas no fundo do mar, como as dos grandes parques britânicos. Foto: Jesse De Meulenaere / Unsplash.

A conta: quanto uma turbina tira do vento

A potência que o vento carrega ao atravessar a área varrida pelas pás é:

P = ½ × ρ × A × v³

com ρ a densidade do ar (1,225 kg/m³), A a área do rotor e v a velocidade do vento. Para o rotor de 167 m do Hornsea 2:

  • área: π × 83,5² ≈ 21.900 m²;
  • com vento de 13 m/s, perto da velocidade em que o modelo atinge a potência nominal: P = 0,5 × 1,225 × 21.900 × 13³ ≈ 29,5 MW no vento;
  • o limite de Betz diz que nenhuma turbina tira mais de 59,3% disso: 17,5 MW;
  • a turbina entrega no máximo 8 MW, cerca de 27% do vento que passa.

As contas são nossas. Os 13 m/s de vento nominal vêm de uma ficha técnica de terceiros, a wind-turbine-models.com, e não da brochura do fabricante. Acima dessa velocidade, a turbina gira as pás para jogar fora o excesso e não passa de 8 MW, porque gerador, conversor e estrutura são dimensionados para esse teto. A mesma fórmula, com o coeficiente de potência, aparece no artigo sobre as turbinas WhalePower.

Gráfico de barras: 29,5 MW de potência no vento a 13 m/s no rotor de 167 m, 17,5 MW pelo limite de Betz e 8 MW de potência nominal da turbina
Na velocidade nominal, a turbina entrega cerca de 27% da potência do vento que atravessa o rotor e corta o excesso para não passar de 8 MW. Contas nossas.

O expoente 3 explica por que vale ir para o mar, longe da costa: lá o vento é mais forte e mais constante, e 10% a mais de velocidade dá 1,1³ ≈ 1,33, ou 33% a mais de potência.

Quanta energia o parque gera no ano

A potência nominal só é atingida com vento forte. A energia do ano sai da potência vezes as horas vezes o fator de capacidade:

1,32 GW × 8.760 h × 40% ≈ 4,6 TWh por ano

Os 40% são premissa nossa, para ilustrar; o fator real do Hornsea 2 depende do vento de cada ano e não foi publicado na fonte que usamos. A cada 10 pontos de fator de capacidade, o parque ganha ou perde cerca de 1,2 TWh por ano.

Para dar escala: o CERN, o laboratório europeu de física de partículas que faz colisões de partículas no maior acelerador do mundo, consumiu 1,25 TWh de eletricidade em 2018, segundo o relatório ambiental do CERN. Um parque como o Hornsea 2 geraria cerca de 3,7 vezes isso na premissa acima. E o reator experimental ITER, em construção na França, foi projetado para produzir 500 MW de potência de fusão a partir de 50 MW de aquecimento, sem gerar eletricidade, segundo a organização do ITER. A comparação mostra a diferença entre uma tecnologia que já entrega gigawatts e outra que ainda prova o princípio.

Qual é o maior parque eólico offshore do mundo

Depende de como se conta, e a resposta muda depressa:

  • Hornsea 2 (Reino Unido, 1,32 GW): foi o maior parque offshore em projeto único do mundo ao entrar em operação completa, em agosto de 2022, segundo o Tethys e a Ørsted.
  • Hollandse Kust Zuid (Países Baixos, 1,5 GW): 139 turbinas de 11 MW a 18 a 36 km da costa, inaugurado em 29 de setembro de 2023, com potência acima da do Hornsea 2; a Vattenfall o descreve como um dos maiores do mundo e como o primeiro parque eólico do mundo concedido sem subsídio, em 2018.
  • Dogger Bank (Reino Unido, 3,6 GW em três fases de 1,2 GW): a fase A teve todas as turbinas instaladas em fevereiro de 2026, e a fase B deve terminar a instalação por volta do segundo trimestre de 2027, segundo a offshoreWIND.biz. Quando completo, deve se tornar o maior parque eólico do mundo, segundo a mesma publicação.

Na China, o Yangjiang Shapa, da China Three Gorges, soma 1,7 GW em cinco fases e foi todo ligado à rede em dezembro de 2021, antes do Hornsea 2, segundo a offshoreWIND.biz. Como cada fase conta como um projeto, ele costuma ficar fora dos rankings de parque único. Por isso o título de maior vem sempre acompanhado de uma regra de contagem, e convém desconfiar de quem o anuncia sem dizer qual.

Perguntas frequentes

Como a energia do parque chega à terra?

Por cabos submarinos. As turbinas se ligam a uma subestação no mar, que eleva a tensão, e de lá cabos de exportação levam a energia até uma subestação em terra.

Por que construir no mar e não em terra?

Porque o vento no mar é mais forte e constante, e a potência cresce com o cubo da velocidade. O custo é a fundação, os cabos e a manutenção com navios.

Quanto produz uma turbina offshore?

As do Hornsea 2 têm 8 MW de potência nominal. Com fator de capacidade de 40%, cada uma geraria cerca de 28 GWh por ano (8 MW × 8.760 h × 0,4).

O Brasil tem parque eólico offshore?

Até a data deste artigo, não. Havia pedidos de licenciamento no Ibama somando mais de 134 GW, mas o primeiro leilão de áreas ainda dependia de um decreto de regulamentação, segundo a eixos.

Um parque eólico offshore é, no fim, uma conta de cubo do vento e de perda nos cabos: vai-se longe da costa atrás de vento mais forte e se paga isso com subestação no mar e cabos de alta tensão. Ao ler que um parque é o maior do mundo, pergunte se a conta é de potência instalada, de projeto completo ou de fases somadas.

Imagem de destaque: Turbinas de um dos grandes parques eólicos offshore do Mar do Norte. Foto: dom fellowes from UK / Wikimedia Commons, CC BY 2.0.

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