Veículo submarino operado remotamente, um ROV, usado em águas profundas
Um ROV de pesquisa em águas profundas. Os ROVs de inspeção de dutos funcionam do mesmo jeito, ligados ao navio por cabo. Foto: NOAA Research / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

Robôs submarinos de inspeção de dutos: como ROV, AUV e pig encontram corrosão e danos

A inspeção de dutos submarinos usa três tipos de equipamento: o ROV, um robô submarino ligado ao navio por cabo e pilotado da superfície; o AUV, que navega sozinho seguindo uma rota programada; e o pig instrumentado, uma ferramenta que viaja por dentro do duto, empurrada pelo próprio óleo ou gás. Os dois robôs olham o duto por fora, procurando corrosão, trechos sem apoio no fundo e danos de âncora; o pig mede, por dentro, a perda de metal da parede. No pré-sal brasileiro, os gasodutos chegam a 2.300 metros de profundidade, onde a pressão da água passa de 220 vezes a da atmosfera.

Este artigo explica o que cada robô faz, faz a conta da pressão no fundo e do tempo de inspeção de um gasoduto, e mostra o que eles medem e o que já encontraram.

Veículo submarino operado remotamente usado em grande profundidade
ROV de grande profundidade, o mesmo tipo de veículo que inspeciona dutos submarinos ligado ao navio por cabo. Foto: Kestrel / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

Três robôs, três trabalhos

Tipo Como se move Velocidade típica Para que serve
ROV de inspeção ou de trabalho preso ao navio por um cabo que leva energia e dados 1 a 2 nós em levantamento olhar de perto, medir proteção catódica, operar válvulas, limpar e reparar
AUV sozinho, com bateria, seguindo rota programada 3 a 4 nós levantamento rápido de longas distâncias com sonar, câmera e laser
Pig instrumentado por dentro do duto, empurrado pelo fluxo até 3 m/s medir perda de metal e espessura da parede

Os ROVs são classificados pelo porte. Os pequenos, de observação, levam câmera e pouco mais; os de classe de trabalho são máquinas grandes, com braços manipuladores e ferramentas, e operam a 3.000 metros ou mais, segundo um guia da fabricante Unique Group, que segue a classificação da associação do setor, a IMCA. Entre o navio e o ROV costuma haver um sistema de gerenciamento do cabo, o TMS, em forma de gaiola ou de chapéu sobre o robô, que guarda e solta o cabo para que o balanço do navio não chegue ao robô, segundo a fabricante Forum Energy Technologies.

O AUV mais conhecido em inspeção de dutos é o HUGIN, da norueguesa Kongsberg. A versão Superior chega a 6.000 metros, navega normalmente a 3 ou 4 nós, aguenta 62 horas com todos os sensores ligados e leva sonar multifeixe, sonar de abertura sintética, perfilador a laser e câmera, segundo a ficha técnica do fabricante. Em 2011, um HUGIN inspecionou cerca de 30 km de duto numa missão de 8 horas, em duas passadas, a 4 nós e entre 180 e 560 m de profundidade, em dutos que levam à refinaria de Mongstad, na Noruega, segundo a Kongsberg.

A conta da pressão no fundo

A pressão da água cresce com a profundidade:

P = ρ × g × h

com ρ a densidade da água do mar, cerca de 1.025 kg/m³, g a gravidade, 9,81 m/s², e h a profundidade. Para o ponto mais fundo da Rota 3, o gasoduto do pré-sal que chega a 2.300 m, segundo uma apresentação da Petrobras no IBP:

  • P = 1.025 × 9,81 × 2.300 ≈ 23,1 milhões de Pa, ou 23,1 MPa;
  • em atmosferas: 23,1 / 0,1013 ≈ 228 vezes a pressão ao nível do mar, além da atmosfera que já pesa sobre a superfície;
  • numa janela de câmera de 10 × 10 cm (0,01 m²), a força é 23,1 MPa × 0,01 m² = 231 kN, o peso de cerca de 23,5 toneladas.

É por isso que câmeras, baterias e eletrônicos de um ROV ficam em cilindros de paredes grossas ou mergulhados em óleo dentro de caixas compensadas: uma membrana ou pistão transmite a pressão do mar ao óleo, que é quase incompressível, e a pressão de dentro fica igual à de fora. O pré-sal tem lâmina d’água acima de 2.000 m: o poço que descobriu o campo de Tupi foi perfurado sob 2.126 m de água, segundo o Oil & Gas Journal. A estrutura que fica na superfície, sobre esses poços, está no artigo sobre estabilidade de plataformas de petróleo, e a técnica de chegar ao reservatório, no de perfuração horizontal offshore.

A conta do tempo de inspeção

A Rota 3 tem 355 km. Premissas nossas: uma passada só, sem paradas para investigar achados, 1 nó igual a 1,852 km/h, e velocidades da tabela acima.

  • AUV a 4 nós (7,4 km/h): 355 / 7,4 ≈ 48 horas;
  • ROV a 1,5 nó (2,78 km/h): 355 / 2,78 ≈ 128 horas, mais de 5 dias;
  • ROV a 1 nó (1,85 km/h): 355 / 1,85 ≈ 192 horas, 8 dias.
Gráfico de barras do tempo para inspecionar os 355 km da Rota 3: 48 horas com AUV a 4 nós, 128 horas com ROV a 1,5 nó e 192 horas com ROV a 1 nó
O AUV percorre o gasoduto inteiro em dois dias; o ROV leva de 5 a 8. Contas nossas, sem tempo de navio, ida ou mau tempo.

A diferença de velocidade aparece também nos números da Kongsberg, que descreve o AUV como duas vezes mais rápido que um ROV em levantamento de dutos, segundo um artigo da empresa. Como o tempo de navio pesa muito no custo de uma campanha no mar, faz sentido o AUV cobrir a distância e o ROV ir aos pontos que o AUV marcou. Na prática, a campanha leva mais que a conta, por causa do tempo de ida, do mau tempo e das paradas.

O que eles medem

Proteção catódica

Um duto de aço no mar é protegido contra corrosão por anodos de sacrifício, blocos de metal mais reativo que corroem no lugar do aço. A proteção funciona enquanto o potencial elétrico do aço fica mais negativo que −0,80 V, medido contra um eletrodo de referência de prata e cloreto de prata, segundo a prática recomendada DNV-RP-B401, na edição de 2010. O ROV mede esse potencial encostando uma ponta de prova no aço ou no anodo, ou sem contato, com sensores de gradiente de campo elétrico; um deles, o FiGS, da FORCE Technology, funciona até em duto enterrado, segundo a Offshore Engineer.

Vãos livres

Quando o fundo é irregular ou a correnteza escava a areia, um trecho do duto fica suspenso. A corrente que passa por baixo solta vórtices que fazem o tubo vibrar, e a vibração repetida leva à fadiga. O cálculo de quanto vão é aceitável segue a prática recomendada DNV-RP-F105, e o sonar e o perfilador a laser do AUV medem o comprimento e a altura de cada vão.

Perda de metal, por dentro

O pig mais usado para corrosão é o de fuga de fluxo magnético: ímãs fortes magnetizam a parede, e onde falta metal o campo vaza e é detectado. Um modelo da ROSEN corre a até 3 m/s e dimensiona a profundidade da corrosão com tolerância de 10% da espessura da parede, com 80% de certeza, segundo a ficha do fabricante. As soldas entre tubos são pontos de atenção nessa leitura, e os processos estão no guia de métodos de soldagem.

O robô que mora no fundo

A próxima etapa é o robô residente, que fica no fundo do mar e dispensa o navio. O Eelume, um robô em forma de cobra com 20 cm de diâmetro, foi desenvolvido para ficar permanentemente no fundo, recarregar numa estação desenvolvida pela Equinor e girar válvulas com uma ferramenta de torque; os testes no campo de Åsgard, a 330 metros, estavam previstos para 2021, segundo a Kongsberg. Não encontramos confirmação pública de operação comercial contínua. Outras formas de robô marinho inspiradas em animais aparecem no artigo sobre as águas-vivas cibernéticas.

O que já encontraram

  • Nord Stream, 2022: depois das explosões no Mar Báltico, um pequeno ROV, um drone submarino com cabo, filmou a 80 m de profundidade um trecho de cerca de 50 m de tubo destruído ou enterrado, segundo a Seatrade Maritime.
  • Balticconnector, 2023: o gasoduto de 77 km submersos entre Finlândia e Estônia perdeu pressão na madrugada de 8 de outubro; a investigação apontou uma âncora de seis toneladas arrastada pelo fundo, e o duto voltou a operar em 22 de abril de 2024, segundo a operadora Elering e a Offshore Magazine. Cabos de telecomunicação foram danificados no mesmo episódio; como eles funcionam está no artigo sobre fibras ópticas submarinas.

No Brasil, a segurança dos sistemas submarinos de produção segue o regulamento técnico SGSS, aprovado pela Resolução ANP nº 41/2015, que a ANP colocou em consulta pública para revisão em 2026.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre ROV e AUV?

O ROV é ligado ao navio por cabo e pilotado da superfície; o AUV navega sozinho, com bateria, seguindo uma rota programada. O AUV é mais rápido em levantamento, e o ROV é o que consegue trabalhar com ferramentas.

O que é um pig de inspeção?

Uma ferramenta que viaja por dentro do duto, empurrada pelo fluxo. A versão instrumentada usa ímãs para achar perda de metal ou ultrassom para medir a espessura da parede.

Qual a pressão a 2.000 metros de profundidade no mar?

Cerca de 20 MPa, ou perto de 200 vezes a pressão atmosférica, pela conta P = ρ × g × h com densidade de 1.025 kg/m³.

Como se mede a corrosão de um duto submarino por fora?

Medindo o potencial da proteção catódica com uma ponta de prova ou com sensores sem contato levados pelo ROV. Se o potencial estiver mais negativo que −0,80 V em relação ao eletrodo de prata e cloreto de prata, o aço está protegido.

Quanto tempo leva para inspecionar um gasoduto?

Na nossa conta, um AUV a 4 nós percorre os 355 km da Rota 3 em cerca de 48 horas, e um ROV a 1,5 nó leva mais de 5 dias, sem contar paradas e tempo de navio.

A inspeção de um duto submarino é uma divisão de trabalho: o AUV cobre a distância depressa, o ROV vai aos pontos marcados e o pig olha a parede por dentro. Para avaliar uma campanha de inspeção, a pergunta útil é qual dos três mediu cada defeito, porque cada um enxerga uma parte diferente do problema.

Imagem de destaque: Um ROV de pesquisa em águas profundas. Os ROVs de inspeção de dutos funcionam do mesmo jeito, ligados ao navio por cabo. Foto: NOAA Research / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

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