Cabos submarinos de fibra óptica: como a internet atravessa o oceano
Os cabos submarinos de fibra óptica são fios da grossura de uma mangueira de jardim, deitados no fundo do oceano, que carregam quase toda a comunicação entre continentes. Há mais de 1,5 milhão de quilômetros deles em serviço. Um único cabo recente entre os Estados Unidos e a França foi projetado para 250 terabits por segundo, quase um milhão de vezes a capacidade do primeiro cabo de fibra que cruzou o Atlântico, em 1988.
Este artigo mostra do que o cabo é feito, como o sinal atravessa milhares de quilômetros, como o cabo é lançado e consertado e quais chegam ao Brasil. As fontes são a consultoria TeleGeography, o comitê internacional de proteção de cabos (ICPC), as empresas donas dos sistemas e o registro histórico do instituto de engenheiros IEEE.
Quanto da internet passa pelo fundo do mar
A TeleGeography contava, no início de 2026, mais de 600 cabos ativos e planejados e mais de 1,5 milhão de quilômetros em serviço. O número de “99% do tráfego internacional”, muito repetido, não aparece assim na fonte. O dado que ela cita é do órgão regulador americano: os satélites respondem por 0,37% da capacidade internacional dos Estados Unidos. O resto vai por cabo.
O satélite perde por dois motivos, capacidade e atraso. O cabo leva muito mais dados e por um caminho mais curto.
Do que é feito o cabo
Em águas profundas, o cabo tem tipicamente de 17 a 20 mm de diâmetro, segundo o guia do ICPC. Perto da costa, onde há âncoras e redes de pesca, ele ganha uma armadura de fios de aço e pode chegar a 50 mm.
No centro ficam as fibras, cada uma com espessura próxima à de um fio de cabelo. Em volta delas, de dentro para fora, vão camadas de proteção e resistência, um condutor metálico que leva energia elétrica e uma capa plástica isolante. Não encontramos a sequência exata em fonte que pudéssemos ler, e por isso ficamos na descrição geral.
O que mudou nos últimos anos foi a quantidade de fibras. Os cabos transatlânticos costumavam ter 6 ou 8 pares. O Dunant, do Google, tem 12, e o 2Africa, que contorna a África e chega à Ásia com 45.000 km, tem 16. A luz que viaja nessas fibras e as pesquisas para guiá-la melhor são assunto de fotônica topológica.
Como o sinal atravessa um oceano
A luz enfraquece ao longo da fibra, e nenhum sinal chegaria ao outro lado sem ajuda. Por isso o cabo tem, a intervalos regulares, repetidores: cilindros com amplificadores ópticos, feitos de fibra com o elemento érbio, que reforçam a luz sem convertê-la em eletricidade. Eles são alimentados pelo condutor metálico do próprio cabo, com energia enviada das estações em terra. Não trazemos o espaçamento nem a tensão de alimentação porque não os confirmamos em fonte aberta.
Os sistemas são projetados para durar pelo menos 25 anos, segundo a TeleGeography, sem que ninguém toque nos repetidores.
A velocidade tem um limite físico. Na fibra, a luz anda a cerca de 204.000 km/s, dois terços da velocidade no vácuo. A conta do atraso para o cabo MAREA, de 6.600 km entre os Estados Unidos e a Espanha:
6.600 km ÷ 204.000 km/s = 0,032 s, ou 32 milissegundos só de ida
Ida e volta dão cerca de 65 ms, antes de contar os equipamentos em terra. A conta bate com um dado real: a Angola Cables mediu 63 ms entre Fortaleza e Luanda pelo cabo SACS, de 6.165 km, para o qual o cálculo dá 60 ms. Antes do cabo direto, o mesmo trajeto levava 350 ms, porque os dados davam a volta por outros continentes.
De 280 megabits a 250 terabits

O primeiro cabo de fibra a cruzar um oceano foi o TAT-8, que entrou em serviço em 14 de dezembro de 1988. Segundo o registro do IEEE, tinha 5.846 km, levava 280 megabits por segundo, o suficiente para 40.000 ligações telefônicas ao mesmo tempo, e tinha dez vezes a capacidade do último cabo de cobre.
| Cabo | Ano | Capacidade de projeto | Pares de fibra |
|---|---|---|---|
| TAT-8 | 1988 | 280 Mbit/s | não informado |
| MAREA | 2017 (em operação em 2018) | 160 Tbit/s | 8 |
| Dunant | 2021 | 250 Tbit/s | 12 |
Do TAT-8 ao Dunant, a conta é 250.000.000 ÷ 280 = cerca de 890.000 vezes, em 33 anos. No Dunant, isso dá 250 ÷ 12 = perto de 21 terabits por par de fibra.
Para ter a medida do salto anterior: o primeiro cabo telegráfico transatlântico, de 1858, levou 16 horas para transmitir uma mensagem de 98 palavras da rainha Vitória e parou de funcionar em três semanas, conta a Ciena.
Como o cabo vai parar no fundo do mar
Um navio lançador carrega o cabo inteiro em tanques e o solta pela popa enquanto navega. Segundo o guia do ICPC, o cabo sem armadura pode ser lançado a até 12 km/h em boas condições; o cabo armado, perto de 0,2 km/h. Uma conta de ordem de grandeza: a 12 km/h sem parar, os 6.600 km do MAREA levariam 550 horas, ou 23 dias. Na prática leva mais, porque há trechos lentos e emendas.
Perto da costa, o cabo é enterrado por um arado puxado pelo navio. O guia do ICPC registra enterramento típico de 1 m a 3,5 m, da costa até cerca de 2.000 m de profundidade de água; outro documento do comitê fala em 0,5 m a 1 m. A profundidade varia com o risco de âncoras e redes em cada trecho. No oceano aberto, ele fica simplesmente pousado no leito. Trabalhos no fundo do mar, como a inspeção de rota, usam os equipamentos descritos em robôs submarinos de inspeção. A obra submarina mais conhecida de outro tipo, a do túnel, está em Canal da Mancha.
O que quebra um cabo, e como se conserta
Há cerca de 200 falhas por ano no mundo, segundo a TeleGeography. Dois terços vêm de barcos de pesca e de âncoras arrastadas; o guia do ICPC fala em cerca de 70%, e atribui cerca de 12% a causas naturais, como deslizamentos submarinos. Com 1,5 milhão de quilômetros em serviço, 200 falhas equivalem a uma por ano a cada 7.500 km de cabo.
O conserto é feito por navios dedicados. A TeleGeography descreve o método: o navio fisga o cabo no fundo com um gancho, puxa até o convés, retira o trecho danificado e emenda uma seção nova. O prazo depende do lugar e de haver navio disponível; o exemplo citado é de um cabo rompido no fim de janeiro e religado no início de março.
O usuário raramente percebe, porque as rotas têm mais de um cabo e o tráfego é desviado. O problema é grave para ilhas e países com uma só ligação.
Os cabos que chegam ao Brasil
Fortaleza é o ponto do Brasil mais próximo da Europa, da África e da América do Norte, e por isso concentra as chegadas. Três exemplos com dados conferidos:
- EllaLink: Fortaleza a Sines, em Portugal, com 6.200 km, inaugurado em 1º de junho de 2021, segundo o Teletime. É uma ligação de alta capacidade entre a América do Sul e a Europa que não passa pelos Estados Unidos.
- SACS: Fortaleza a Luanda, em Angola, com 6.165 km, 4 pares de fibra e 40 terabits por segundo de capacidade de projeto.
- Firmina: do Google, da costa leste dos Estados Unidos à Argentina, com 12 pares e chegada em Praia Grande, no litoral paulista. Segundo a empresa, é o cabo mais longo capaz de funcionar alimentado por uma só ponta, caso a outra fonte de energia fique indisponível.
Do cabo, os dados seguem para os centros de processamento descritos em refrigeração em data centers.
Perguntas frequentes
Como funcionam os cabos submarinos de fibra óptica?
Pulsos de luz viajam por fibras de vidro dentro do cabo e são reforçados por amplificadores a intervalos regulares, alimentados por um condutor elétrico no próprio cabo.
Qual a espessura de um cabo submarino?
De 17 a 20 mm em águas profundas e até 50 mm perto da costa, onde recebe armadura de aço.
Quantos cabos submarinos existem?
Mais de 600, entre ativos e planejados, somando mais de 1,5 milhão de quilômetros em serviço, segundo a TeleGeography.
Tubarões cortam cabos submarinos?
Não. Segundo a TeleGeography, mordidas de peixes, categoria que inclui tubarões, não causaram nenhuma falha entre 2007 e 2014. Dois terços das falhas vêm de pesca e de âncoras.
Quanto tempo dura um cabo submarino?
O projeto prevê pelo menos 25 anos de vida útil.
Os cabos submarinos de fibra óptica são a parte menos visível da internet e a que menos mudou de forma: um fio no fundo do mar, como em 1858. O que mudou foi o que cabe nele. Outras tecnologias avaliadas pelo que já entregam estão em inovações tecnológicas na engenharia.
