Navio porta-contêineres sendo carregado por guindastes em um porto, ao entardecer
Navio sendo carregado em um porto de contêineres, em Hong Kong. Foto: Timelab / Unsplash.

Blockchain na logística: como funciona, o que deu certo e o que foi desligado

O blockchain na logística é um registro compartilhado entre empresas que não confiam umas nas outras: cada evento da carga, do embarque à entrega, é gravado numa cadeia de blocos que nenhuma delas controla sozinha e que denuncia qualquer alteração. A promessa era acabar com a papelada do comércio internacional. O maior projeto do setor, criado pela Maersk e pela IBM, processou 2,2 bilhões de eventos e foi desligado em 2023.

Este artigo explica como o blockchain é usado na logística, o que ele garante e o que não garante, e o que os casos mais citados mostraram, com os números. As fontes são o instituto americano de padrões NIST, a IBM, a fundação que mantém a tecnologia usada nos projetos, a consultoria Gartner e a imprensa do setor marítimo.

O que é um blockchain

O NIST define blockchains como livros-razão digitais que evidenciam e resistem a adulterações, implementados de forma distribuída, sem um repositório central e, em geral, sem uma autoridade central. Em operação normal, uma transação publicada não pode mais ser alterada.

O termo que importa é evidenciar. Cada bloco de registros carrega uma espécie de impressão digital do bloco anterior, um código calculado a partir do conteúdo. Mudar um registro antigo muda a impressão digital dele, que deixa de bater com a guardada no bloco seguinte, e a quebra aparece para todos os participantes. Esse código, o hash, é o mesmo recurso descrito em criptografia em transações bancárias. No algoritmo SHA-256, ele tem 256 bits, escritos como 64 caracteres hexadecimais.

Três blocos encadeados; cada um guarda os registros da carga, a impressão digital do bloco anterior e a sua própria
Cada bloco guarda a impressão digital do anterior. Alterar um registro antigo quebra o encadeamento, e a quebra fica visível.

Público ou com permissão

No blockchain do bitcoin, qualquer pessoa participa, e a segurança vem de um processo que gasta muita energia. Na logística, o modelo é outro: redes com permissão, em que só empresas identificadas entram. Os casos que encontramos usam redes desse tipo; o do Walmart, por exemplo, roda na plataforma de código aberto Hyperledger Fabric. Como os participantes são conhecidos, não há mineração, e a crítica do consumo de energia do bitcoin não se aplica.

O problema que ele promete resolver

Um contêiner que cruza o oceano a bordo de um porta-contêineres passa por exportador, transportadora, porto, alfândega, armador, outro porto, outra alfândega e importador. Cada um mantém o seu sistema e troca documentos com os outros, muitos ainda em papel. Ninguém tem a história completa, e nenhuma das partes aceitaria que o banco de dados de uma concorrente fosse a versão oficial.

O blockchain oferece um registro único que não pertence a ninguém. O ganho é de governança mais do que de tecnologia: um banco de dados comum, com registro de quem alterou o quê, faria o mesmo serviço se todos confiassem em quem o opera.

Contêineres de carga vermelhos e azuis empilhados
Cada contêiner passa por várias empresas, e cada uma mantém o seu registro. Foto: Barrett Ward / Unsplash.

O que ele não garante

O blockchain garante que o registro não foi alterado depois de gravado. Não garante que o registro era verdadeiro quando foi gravado. Se alguém digita que a caixa contém mangas orgânicas e ela contém outra coisa, a cadeia preserva a informação errada com toda a segurança. O elo entre o mundo físico e o registro continua dependendo de pessoas, etiquetas e sensores. Na literatura da área, isso é chamado de problema do oráculo; descrevemos o argumento em termos gerais, sem citar um estudo específico. A leitura automática de etiquetas, que alimenta esses registros, está em como funciona o pedágio eletrônico.

O caso que deu certo: as mangas do Walmart

O resultado mais citado é o do Walmart com a IBM. Segundo o estudo de caso da fundação que mantém a Hyperledger, o tempo para rastrear a origem de um lote de mangas nos Estados Unidos caiu de 7 dias para 2,2 segundos. A conta: 7 dias são 604.800 segundos, e 604.800 ÷ 2,2 ≈ 275.000 vezes mais rápido.

O número pede leitura cuidadosa. Ele compara uma consulta num sistema digital com um processo manual de telefonemas e papéis. Qualquer banco de dados comum a toda a cadeia daria uma resposta em segundos. O mérito do projeto foi conseguir que os fornecedores registrassem os dados no mesmo lugar, e o estudo é material de divulgação, sem auditoria independente. Ele informa que o Walmart passou a rastrear mais de 25 produtos de 5 fornecedores.

O caso que foi desligado: TradeLens

A TradeLens foi lançada em 2018, segundo a imprensa do setor, pela Maersk, a maior transportadora de contêineres da época, com a IBM. Em junho de 2021, a IBM divulgou a escala da plataforma:

Indicador Número divulgado
Organizações participantes mais de 300
Transportadoras marítimas 10
Portos e terminais mais de 600
Embarques de contêineres registrados 42 milhões
Eventos registrados quase 2,2 bilhões
Documentos publicados cerca de 20 milhões

As contas (nossas) dão uma ideia do uso: 2,2 bilhões ÷ 42 milhões ≈ 52 eventos por embarque, e 20 ÷ 42 ≈ 0,5 documento por embarque. Cada contêiner gerava dezenas de registros de movimentação, mas, em média, menos de um documento por embarque. A papelada, que era o alvo, entrou bem menos que os eventos.

No fim de novembro de 2022, a Maersk anunciou o fim do projeto, com desligamento até o primeiro trimestre de 2023. A justificativa, registrada pela imprensa do setor: a plataforma funcionava, mas a colaboração de toda a indústria não foi alcançada, e o projeto não chegou ao nível de viabilidade comercial necessário, segundo a Seatrade Maritime.

A nossa leitura: a tecnologia cumpriu o papel, e o obstáculo foi o mesmo que o blockchain prometia contornar. A plataforma pertencia à líder do mercado, e os concorrentes relutaram em depender dela. Um registro sem dono precisa também de uma organização sem dono.

A previsão que se confirmou em parte

Em maio de 2019, a consultoria Gartner previu que, até 2023, 90% das iniciativas de blockchain em cadeias de suprimentos sofreriam de fadiga, por falta de casos de uso fortes. A mesma nota trazia uma pesquisa com 303 participantes, feita entre novembro de 2017 e fevereiro de 2018: 19% consideravam a tecnologia muito importante e 9% tinham investido nela. A consultoria atribuiu o quadro a tecnologia imatura, falta de padrões, escopo ambicioso demais e incompreensão de como o blockchain poderia ajudar.

Trata-se de uma previsão, sem medição posterior: não encontramos um balanço da própria Gartner. O fim da TradeLens, no prazo previsto, é o exemplo mais visível.

No Brasil

  • Alfândega. A Receita Federal, com o Serpro, desenvolveu a rede bConnect para compartilhar entre as aduanas do Mercosul os dados de empresas certificadas como operadores confiáveis, segundo o Tecnoblog. Na data da reportagem, de 2019, era um protótipo só com dados brasileiros. Não conferimos a situação atual.
  • Alimentos. Em novembro de 2017, BRF, Carrefour e IBM fizeram um piloto de oito semanas com um lote de lombo suíno congelado, vendido num hipermercado de São Paulo com um código na embalagem, segundo o portal DataCenterDynamics. Não encontramos resultados publicados.

Quando faz sentido

Pelos casos acima, três condições aparecem juntas onde houve resultado:

  • várias empresas precisam do mesmo registro e nenhuma aceita que outra o controle;
  • existe uma parte com força para fazer todas registrarem, como o Walmart fez com os fornecedores;
  • a entrada dos dados é confiável, por etiqueta, sensor ou conferência.

Faltando a primeira, um banco de dados resolve; faltando a segunda, ninguém entra; faltando a terceira, o registro fica imutável e errado. O percurso dos contêineres que esses sistemas tentam acompanhar passa por obras como o novo Canal do Panamá.

Perguntas frequentes

Como o blockchain é usado na logística?

Como um registro compartilhado dos eventos e documentos de uma carga, mantido em conjunto por empresas diferentes, em que alterações posteriores ficam evidentes.

Blockchain na logística gasta tanta energia quanto o bitcoin?

Não. As redes usadas na logística são de participantes identificados e não têm mineração.

O blockchain impede fraude na carga?

Ele impede que o registro seja alterado sem deixar rastro. Não verifica se o que foi registrado corresponde à carga real.

O que aconteceu com a TradeLens?

A plataforma da Maersk e da IBM, lançada em 2018, foi encerrada no começo de 2023 por não ter alcançado a adesão de toda a indústria.

Qual a diferença para um banco de dados comum?

Tecnicamente, pouca, quando os participantes são poucos e conhecidos. A diferença está em ninguém ser o dono do registro.

O blockchain na logística resolve um problema de confiança entre empresas, e os casos mostram que a parte difícil nunca foi a técnica: foi convencer concorrentes a escrever no mesmo livro. Onde alguém teve força para isso, funcionou; onde não teve, 2,2 bilhões de registros não bastaram. Outras tecnologias avaliadas pelo que já entregam estão em inovações tecnológicas na engenharia.

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