Navio porta-contêineres carregado num terminal portuário
Navio porta-contêineres num terminal portuário: cada caixa de 20 pés conta como um TEU. Foto: Nathan Cima / Unsplash.

A evolução dos porta-contêineres: de 58 caixas a 24.346 TEUs

Em abril de 1956, o navio Ideal X saiu de Newark, nos Estados Unidos, para Houston com 58 contêineres de 35 pés no convés. Em março de 2023, o MSC Irina foi entregue com capacidade para 24.346 TEUs, a unidade de contêiner de 20 pés. A evolução dos porta-contêineres em capacidade foi de cerca de 240 vezes em 67 anos, e a eficiência veio junto, por uma razão geométrica que dá para calcular.

Este artigo mostra o que é um TEU, como os navios cresceram, a conta de por que navio maior gasta menos por contêiner e onde está o limite: canais, portos e guindastes.

O que é um TEU

TEU vem do inglês twenty-foot equivalent unit: a unidade de capacidade equivalente a um contêiner de 20 pés. Pela norma internacional ISO 668, esse contêiner mede por fora 6,058 m de comprimento e 2,438 m de largura. A altura mais comum é 2,591 m (8 pés e 6 polegadas), e a norma também prevê a de 2,438 m. Na versão mais alta, são uns 38 m³ por fora. Um contêiner de 40 pés conta como 2 TEUs.

Pela mesma régua, os 58 contêineres de 35 pés do Ideal X equivalem a cerca de 58 × 35 ÷ 20 ≈ 100 TEUs (conta nossa, só pelo comprimento). A saída do Ideal X, em 26 de abril de 1956, com o empresário de transporte rodoviário Malcom McLean por trás, é registrada pelo Porto de Houston, onde o navio chegou cinco dias depois. Os contêineres tinham o comprimento das carretas da época, segundo o mesmo registro, porque a ideia era passar a caixa do caminhão para o navio sem mexer na carga.

Por que o contêiner mudou o transporte

Antes, a carga geral era embarcada volume por volume, em sacos, caixas e fardos, o que deixava o navio dias no porto e aumentava custo, atraso e avaria, segundo o mesmo registro do Porto de Houston. Com a caixa padronizada, o guindaste move a carga de uma vez, e a mesma caixa vai do navio para o trem e para o caminhão. A gestão de milhões dessas caixas é hoje um problema de dados, tratado no artigo sobre blockchain na logística, e o armazenamento em terra, no artigo sobre plataformas logísticas automatizadas.

O maior porta-contêineres em operação

O MSC Irina, entregue em março de 2023 pelo estaleiro chinês Jiangsu Yangzi Xinfu, tem 399,99 m de comprimento, 61,3 m de boca (largura) e capacidade de 24.346 TEUs, segundo o The MediTelegraph. O mesmo texto cita os recursos de economia de energia: proa bulbosa pequena, hélices de grande diâmetro, dutos de economia de energia, lubrificação a ar no casco e geradores de eixo, que o estaleiro estima reduzirem o consumo em 3% a 4%.

Com 24.346 TEUs de cerca de 38 m³ cada, o navio leva perto de 930.000 m³ de volume externo de contêineres (conta nossa, supondo todos os espaços ocupados por caixas de 20 pés).

Navio porta-contêineres visto de cima no mar
Porta-contêineres visto de cima: as caixas ficam em fileiras na largura do navio e em pilhas no convés. Foto: Bent Van Aeken / Unsplash.

A conta: por que navio maior gasta menos por contêiner

A capacidade de um navio cresce com o volume do casco, e o volume cresce com o cubo das dimensões. A resistência ao avanço na água, em grande parte atrito, cresce com a área molhada do casco, que cresce com o quadrado das dimensões. Daí (raciocínio simplificado, com a mesma forma de casco e a mesma velocidade):

  • dobrar comprimento, largura e calado multiplica o volume por 2³ = 8;
  • a área molhada, e com ela boa parte da resistência, por 2² = 4;
  • a resistência por contêiner cai para 4 ÷ 8 = metade.

Na prática o ganho é menor que esse, porque os navios grandes não crescem igualmente em todas as direções (o calado é limitado pelos portos) e porque parte da resistência vem das ondas que o casco gera, que seguem outra lei. Mesmo assim, a regra do quadrado contra o cubo é um dos motores da escala no transporte marítimo, ao lado da tripulação e do custo do navio divididos por mais caixas.

Gráfico de barras da capacidade de porta-contêineres em TEUs: cerca de 100 no Ideal X de 1956, 16.285 no CMA CGM Zephyr e 24.346 no MSC Irina de 2023
Em 67 anos, a capacidade do maior porta-contêineres cresceu cerca de 240 vezes. O valor do Ideal X é conta nossa, pelo comprimento dos contêineres.

O limite: canais e portos

Por décadas, o tamanho dos navios esbarrou nas eclusas. As eclusas originais do Canal do Panamá definiram por décadas o navio Panamax; as novas eclusas, abertas em 2016 e descritas no artigo sobre o novo Canal do Panamá, aceitam navios de até cerca de 366 m de comprimento e 51 m de boca, medidas que deixam de fora os de 24.000 TEUs, com 400 m por 61 m. Em 2022, o CMA CGM Zephyr, de 16.285 TEUs, tornou-se o maior navio em capacidade a atravessar as novas eclusas até então, segundo a Maritime Executive, que cita o calado máximo permitido de 15,24 m (50 pés, em água doce tropical). Por isso os maiores navios costumam ficar nas rotas entre a Ásia e a Europa. Normalmente elas passam pelo Canal de Suez, que não tem eclusas, mas desde 2024 muitos navios contornam o Cabo da Boa Esperança por causa dos ataques no Mar Vermelho.

Nos portos, a largura do navio pesa: com 61,3 m de boca, a divisão simples dá 61,3 ÷ 2,44 ≈ 25 contêineres lado a lado (conta nossa). Descontados o costado e as guias entre as pilhas, cabem algumas fileiras a menos, e o guindaste do cais precisa alcançar a mais distante. E o tráfego desses navios influencia até o projeto de pontes e túneis, como mostra o trecho submerso da ponte Hong Kong–Zhuhai–Macau, feito para não limitar a altura dos navios no delta nem invadir o espaço aéreo do aeroporto de Hong Kong.

Perguntas frequentes

Qual o maior navio porta-contêineres do mundo?

A classe do MSC Irina, com 24.346 TEUs, 399,99 m de comprimento e 61,3 m de boca, entregue em 2023. Recordes nesse setor costumam cair em poucos anos, então convém conferir a data da informação.

Quantos contêineres cabem num porta-contêineres?

Nos maiores, mais de 24.000 TEUs, ou cerca de 12.000 contêineres de 40 pés.

O que significa TEU?

Twenty-foot equivalent unit: o equivalente a um contêiner de 20 pés, com 6,058 m × 2,438 m por fora e, na altura mais comum, 2,591 m.

Qual foi o primeiro navio porta-contêineres?

O Ideal X é o marco mais citado: em 26 de abril de 1956, saiu de Newark para Houston com 58 contêineres de 35 pés.

Por que os navios não crescem mais?

Por causa dos canais, da profundidade dos portos, do alcance dos guindastes e do volume de carga que um porto consegue movimentar de uma vez.

A evolução dos porta-contêineres é a conta do quadrado contra o cubo aplicada ao mar: cada salto de tamanho baixa o custo por caixa até esbarrar num canal, num calado ou num guindaste. Para avaliar o próximo recorde, olhe primeiro onde ele vai poder atracar.

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