Viaduto de Millau sobre o vale do rio Tarn, no sul da França
Viaduto de Millau, no sul da França. Foto: Vladan Raznatovic / Unsplash.

Viaduto de Millau: a engenharia da ponte de 343 m

O Viaduto de Millau cruza o vale do rio Tarn, no sul da França, com a pista a 270 m do fundo do vale e o topo do mastro mais alto a 343 m. São 2.460 m de tabuleiro de aço apoiados em sete pilares de concreto, e o mais alto deles tem 245 m. Quem passa de carro pela autoestrada A75 atravessa o vale em poucos minutos, muitas vezes acima das nuvens.

Este artigo mostra a engenharia do Viaduto de Millau com os números da obra e quatro contas: a soma dos vãos, o peso do tabuleiro por metro, a velocidade com que ele foi empurrado sobre os pilares e quanto o aço se dilata com o calor. As fontes são a concessionária do viaduto, a base Structurae, um boletim técnico do órgão rodoviário francês (Sétra, hoje Cerema), a Freyssinet e o Guinness.

Os números do Viaduto de Millau

Item Número Fonte
Comprimento 2.460 m concessionária
Vãos 204 m + 6 × 342 m + 204 m concessionária
Pilares 7, de 77,56 m a 244,96 m Structurae
Altura da pista sobre o Tarn 270 m concessionária
Ponto mais alto (topo do mastro) 343 m concessionária
Tabuleiro aço, 32 m de largura, 4,20 m de altura, 36.000 t concessionária e Structurae
Estais 154, em um único plano central concessionária
Concreto 206.000 t concessionária
Inclinação e curva 3,025% de rampa, raio de 20 km concessionária
Garantia da obra 120 anos concessionária

Os dados da concessionária estão na página de números-chave do viaduto, e os da Structurae, na ficha da obra. A soma dos vãos fecha com o comprimento: 204 + 6 × 342 + 204 = 204 + 2.052 + 204 = 2.460 m.

O peso do tabuleiro também dá uma conta simples: 36.000 t ÷ 2.460 m ≈ 14,6 toneladas de aço por metro de ponte (conta nossa). Já as 206.000 t de concreto, a 2,4 t por metro cúbico (premissa nossa, valor usual para concreto), equivalem a 206.000 ÷ 2,4 ≈ 86.000 m³.

O projeto estrutural é do engenheiro Michel Virlogeux, e o desenho, do arquiteto Norman Foster, segundo a apresentação do viaduto pela concessionária. A construção foi do grupo Eiffage, que financiou a obra e a explora em concessão de 78 anos (3 de obra e 75 de operação). O custo informado pela concessionária é de 400 milhões de euros (o boletim do Sétra, da época da obra, fala em 320 milhões).

Vista geral do Viaduto de Millau com os sete mastros e os estais
O Viaduto de Millau, com os sete mastros e os estais em plano único. Foto: Vincent / Wikimedia Commons, domínio público.

É mesmo a ponte mais alta do mundo?

Depende do que se mede. Há dois recordes diferentes, e eles costumam ser confundidos.

O primeiro é a altura da estrutura, do ponto mais baixo do terreno ao topo. Nesse critério, o Guinness registra o Viaduto de Millau como a ponte mais alta do mundo, com 336,4 m, desde a abertura ao tráfego, em 16 de dezembro de 2004. A concessionária usa 343 m para o ponto mais alto. O Guinness mede a partir do ponto mais baixo do vale entre os pilares P2 e P3; a concessionária não detalha a referência dos 343 m. Para comparar, a Torre Eiffel tem 330 m, segundo a administração do monumento; as histórias dela estão em curiosidades sobre a Torre Eiffel.

O segundo recorde é a altura da pista sobre o vale. Aqui Millau, com 270 m, está longe do primeiro lugar: o Guinness registra a ponte do Grande Cânion de Huajiang, na China, aberta em 2025, com a pista a 626 m do rio.

Uma ressalva sobre o primeiro recorde: listas não oficiais já apontam uma ponte chinesa inaugurada em 2025 com torres mais altas que os 343 m de Millau. Não encontramos fonte primária que confirme essa medida, e o Guinness, consultado em outubro de 2026, seguia com Millau. O título do viaduto pode mudar de dono em breve, se é que já não mudou.

Por que sete pilares tão altos e um tabuleiro de aço

O vale tem cerca de 3 km de largura entre as bordas dos dois planaltos, segundo o boletim técnico do Sétra citado adiante, e o viaduto vence 2.460 m dele. A solução foi uma ponte estaiada de vãos múltiplos: em cada pilar, um mastro de 87 a 89 m acima da pista (a concessionária e a Structurae dão valores um pouco diferentes) sustenta o tabuleiro por 11 pares de estais. São 7 mastros × 11 pares × 2 = 154 estais, todos num único plano, no eixo da pista. O estai mais longo tem 180 m, segundo a Freyssinet, que os instalou. O princípio é o mesmo de outras pontes estaiadas, com a diferença de que aqui há sete torres em sequência.

O tabuleiro é um caixão de aço fechado, com perfil aerodinâmico, de 32 m de largura e 4,20 m de altura. O aço deixou o tabuleiro leve o bastante para ser montado em terra e empurrado sobre os pilares, como se vê adiante.

Esquema do Viaduto de Millau com a altura dos sete pilares, de 78 a 245 metros, e a soma dos vãos de 2.460 metros
Altura dos sete pilares, segundo a base Structurae, com valores arredondados. O desenho é esquemático e não está em escala na horizontal.

O pilar que se divide em dois

O pilar P2, o mais alto, tem 244,96 m. Na direção transversal, a largura dos pilares varia de 10 m no topo a 27 m na base, e o fuste se divide em dois nos 90 m superiores, logo abaixo do tabuleiro, segundo o boletim técnico nº 47 do Sétra. As duas lâminas finas são mais flexíveis que um fuste único e acompanham o movimento do tabuleiro quando ele se dilata e se contrai. A base larga e única dá a rigidez de que um pilar de 245 m precisa contra o vento.

Quanto o tabuleiro cresce com o calor

O aço se dilata 12 milionésimos do comprimento a cada grau, valor adotado pela norma europeia de estruturas de aço (EN 1993-1-1). A conta é ΔL = α × L × ΔT:

0,000012 × 2.460 m × 1 °C ≈ 0,0295 m, ou 29,5 mm por grau.

Entre um dia de inverno e um de verão com 40 °C de diferença no aço (premissa nossa), o tabuleiro varia 29,5 × 40 ≈ 1,18 m. Se a dilatação se reparte igualmente pelas duas extremidades, são cerca de 0,59 m em cada encontro. Essa é uma conta nossa, que mostra a ordem de grandeza. Não encontramos em fonte primária o curso real das juntas de dilatação do viaduto.

Como o tabuleiro foi colocado no lugar

Os pilares começaram a subir em março de 2002 e avançaram 4 m a cada 3 dias, segundo a página da concessionária sobre as etapas da construção. Nesse ritmo, os 245 m do P2 pedem 245 ÷ 4 × 3 ≈ 184 dias de concretagem (conta nossa). O último pilar ficou pronto em 9 de dezembro de 2003.

O tabuleiro foi montado nos dois planaltos, atrás dos encontros, e empurrado sobre os pilares pelas duas pontas. Foram 1.752 m lançados a partir do sul, segundo a revista Roads & Bridges; o restante, 2.460 − 1.752 = 708 m, veio do norte. Sete apoios provisórios, erguidos no meio dos vãos, reduziram a distância que o tabuleiro tinha de vencer em balanço de 342 m para 171 m, segundo o boletim do Sétra.

O empurrão era dado por 64 transladadores hidráulicos, cada um com vários macacos, comandados ao mesmo tempo e instalados no topo dos pilares e dos apoios provisórios, segundo a concessionária. Cada ciclo avançava o tabuleiro 600 mm e levava quatro minutos, segundo a Roads & Bridges. Em uma hora cabem 60 ÷ 4 = 15 ciclos, ou 15 × 0,6 = 9 m por hora, o mesmo valor que a concessionária informa (o boletim do Sétra fala em 10 m/h em média). Os 1.752 m do lado sul pediram 1.752 ÷ 9 ≈ 195 horas de movimento (conta nossa), divididas entre os 18 lançamentos da obra, cada um com até 48 horas e um intervalo de cerca de quatro semanas para montar o trecho seguinte.

Viaduto de Millau em construção, com o tabuleiro sendo lançado sobre os pilares
O viaduto em construção, com o tabuleiro avançando sobre os pilares. Foto: Mammique at French Wikipedia / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.

As duas metades se encontraram sobre o Tarn em 28 de maio de 2004. Depois vieram os mastros, os estais e o asfalto. O viaduto foi inaugurado em 14 de dezembro de 2004, três anos depois da pedra fundamental, e abriu ao tráfego no dia 16. Um método de montagem bem diferente aparece em como foi projetada a Ponte Rio-Niterói.

O vento a 270 m de altura

O projeto considerou ventos médios de 34 a 42 m/s, conforme a direção, com período de retorno de 50 anos, segundo o boletim do Sétra. Em quilômetros por hora: 34 × 3,6 ≈ 122 e 42 × 3,6 ≈ 151 km/h. Circulam na internet valores acima de 200 km/h, que não encontramos em fonte primária.

Para os carros, a proteção são telas transparentes de 3 m de altura nas duas bordas do tabuleiro. Segundo o mesmo boletim, elas servem para reduzir a velocidade do vento sobre a pista. Em pontes pênseis de vão único, como a Akashi Kaikyo, o vento é ainda mais determinante para a forma do tabuleiro.

Quanto custa atravessar

O pedágio para carros de passeio é de 11,30 euros fora da temporada e de 13,80 euros no verão (15 de junho a 15 de setembro), na tabela em vigor desde 1º de fevereiro de 2026. Motos pagam 6,80 euros. O viaduto recebe de 3 a 5 milhões de veículos por ano, segundo a Eiffage.

Perguntas frequentes

Qual é a altura do Viaduto de Millau?

O ponto mais alto, no topo de um dos mastros, fica a 343 m do terreno, segundo a concessionária (o Guinness registra 336,4 m). A pista passa a 270 m do rio Tarn, e o pilar mais alto tem 245 m.

Onde fica o Viaduto de Millau?

No sul da França, perto da cidade de Millau, sobre o vale do rio Tarn. Ele faz parte da autoestrada A75.

Quanto tempo levou a construção?

Três anos: a pedra fundamental é de 14 de dezembro de 2001 e a inauguração, de 14 de dezembro de 2004.

Quem projetou o Viaduto de Millau?

O engenheiro Michel Virlogeux concebeu a estrutura e o arquiteto Norman Foster a desenhou. A construção foi do grupo Eiffage.

O viaduto é a ponte mais alta do mundo?

Em altura da estrutura, é o recordista registrado pelo Guinness desde 2004. Em altura da pista sobre o vale, o recorde é de uma ponte chinesa com 626 m.

Dá para atravessar a pé?

No dia a dia, não: o viaduto é um trecho de autoestrada, sem passagem para pedestres. A exceção são eventos pontuais, como a Course Eiffage du Viaduc de Millau, corrida que fecha a pista aos carros.

O Viaduto de Millau resolve uma travessia de quase 2,5 km com poucas peças repetidas: sete pilares, sete mastros e um tabuleiro de aço leve o bastante para ser empurrado a 9 m por hora. As contas deste artigo podem ser refeitas com os dados da tabela. Outras obras do mesmo porte estão em maiores obras de engenharia.

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