Ponte estaiada Rion-Antirion sobre o golfo de Corinto, com torres e estais em semileque
A ponte Rion-Antirion, sobre o golfo de Corinto, na Grécia, aberta em 2004. Foto: Konradr / Wikimedia Commons, CC0.

Pontes estaiadas em regiões sísmicas: como a Rion-Antirion resiste a terremotos

Uma ponte estaiada pendura o tabuleiro em cabos retos, os estais, que descem do topo das torres até a pista. Em região sísmica, o desafio é que o chão se move em direções diferentes sob cada torre, e a estrutura precisa acompanhar esse movimento sem quebrar. A resposta mais estudada do mundo é a ponte Rion-Antirion, na Grécia, que cruza um estreito sobre uma falha ativa, em solo sem rocha, e foi projetada para torres que se afastam até 2 metros uma da outra.

Este artigo explica como a carga caminha numa ponte estaiada, faz a conta da força num estai e da força de um terremoto sobre um vão, e mostra as soluções da Rion-Antirion: fundação que pode escorregar, tabuleiro solto das torres e amortecedores que funcionam como fusível.

Como funciona uma ponte estaiada

O caminho da carga é curto: o peso do tabuleiro e dos veículos vai para os estais, os estais levam a carga até a torre, e a torre desce com ela até a fundação. Cada estai puxa o tabuleiro na diagonal, e a componente horizontal dessa força comprime o tabuleiro em direção à torre. Numa ponte simétrica, os puxões dos dois lados se equilibram, e por isso a estaiada dispensa os grandes blocos de ancoragem que uma ponte pênsil exige nas cabeceiras.

Característica Ponte estaiada Ponte pênsil
Como o tabuleiro é preso estais retos ligados direto à torre pendurais verticais presos a dois cabos principais
Ancoragem no terreno não precisa; as forças se equilibram na torre blocos enormes nas duas cabeceiras
Vão recorde mais de 1.100 m (a ponte Russky, na Rússia, tem 1.104 m) cerca de 2.000 m
Arranjo dos cabos leque, semileque ou harpa parábola do cabo principal

No arranjo em leque, todos os estais chegam ao topo da torre; em harpa, ficam paralelos; o semileque, usado na Rion-Antirion, espalha as ancoragens perto do topo. Os conceitos e um exemplo de ponte pênsil em região sísmica estão no artigo sobre a ponte Akashi Kaikyo, no Japão. No Brasil, o caso estaiado mais lembrado é a ponte Octávio Frias de Oliveira, em São Paulo, de 2008, com um mastro de 138 m e 144 estais, segundo a Prefeitura de São Paulo.

A ponte estaiada Rion-Antirion, na Grécia, em 2004, pouco antes da inauguração
A Rion-Antirion em 2004, ano da inauguração. Os estais partem do alto de cada torre e sustentam o tabuleiro sem apoio intermediário. Foto: David Monniaux / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.

A conta: quanta força passa por um estai

A força num estai depende do ângulo dele com o tabuleiro. Se V é o peso que o estai precisa sustentar e θ é o ângulo com a horizontal, a tração vale T = V / sen θ. Quanto mais deitado o estai, maior a força para segurar o mesmo peso.

Premissas, com dados da Rion-Antirion publicados pelo Structurae:

  • o tabuleiro foi montado em módulos pré-fabricados de 12 m, com 270 toneladas cada;
  • supomos um par de estais a cada 12 m, um de cada lado do tabuleiro, o que dá 270 t por par, ou 135 t por estai (premissa nossa, sem revestimento nem tráfego);
  • 135 t × 9,81 ≈ 1,32 MN de carga vertical por estai.
Gráfico de barras da tração num estai que sustenta 1,32 MN: 1,4 MN a 70 graus, 1,9 MN a 45 graus e 3,5 MN a 22 graus
O estai mais deitado precisa de 2,5 vezes a força do estai íngreme para segurar o mesmo peso. Contas nossas com dados da Rion-Antirion.
  • estai íngreme, perto da torre, a 70°: T = 1,32 / 0,94 ≈ 1,4 MN;
  • estai a 45°: T = 1,32 / 0,71 ≈ 1,9 MN;
  • estai mais longo, a cerca de 22° (113 m de altura da torre acima do tabuleiro sobre cerca de 276 m na horizontal): T = 1,32 / 0,38 ≈ 3,5 MN, perto de 355 toneladas-força.

Por isso os estais mais longos, no meio do vão, são os mais grossos. A conta é simplificada: na ponte real, as ancoragens ficam distribuídas abaixo do topo da torre e o ângulo de cada estai é um pouco diferente. O cálculo completo, com todos os estais e as cargas móveis, é feito em programas de análise estrutural.

O que um terremoto faz com uma ponte estaiada

O terremoto empurra a base da ponte de um lado para o outro, e a inércia do tabuleiro resiste a esse movimento. Uma estimativa estática dá a ordem de grandeza da força: F = m × a.

Se a ligação entre tabuleiro e torre fosse rígida, a torre receberia essa força inteira a mais de 100 m de altura. A estratégia da Rion-Antirion foi a oposta: deixar o tabuleiro se mover e controlar o movimento. A conta estática exagera a força real justamente porque a ponte foi projetada para não reagir de forma rígida.

O risco de uma ligação rígida aparece no caso da ponte Chi-Lu, em Taiwan. Quase pronta, ela passou pelo terremoto de Chi-Chi, de magnitude 7,3, em 1999, com aceleração registrada perto de 1,0 g a cerca de 15 km. Uma ancoragem de estai falhou junto ao tabuleiro, e o concreto esmagou onde o tabuleiro era engastado na torre, segundo um estudo sobre os danos. A ponte foi reparada e aberta em 2004.

A ponte Rion-Antirion: o projeto para o pior caso

A ponte liga o Peloponeso ao continente grego sobre o golfo de Corinto, uma das regiões sísmicas mais ativas da Europa. Foi inaugurada em agosto de 2004, com 2.252 m de trecho estaiado em cinco vãos (286 + 3 × 560 + 286 m) e cerca de 2.880 m no total com os acessos, segundo a Vinci, que a construiu. O projeto precisou resolver quatro problemas ao mesmo tempo:

Problema Número Solução
Água profunda até 65 m caixões de concreto de 90 m de diâmetro, construídos em doca seca e afundados no lugar
Solo sem rocha nenhuma rocha até 100 m de profundidade cerca de 250 tubos de aço cravados sob cada um de três dos quatro pilares, com 25 a 30 m de comprimento e 2 m de diâmetro, para reforçar o solo
Falha ativa até 2 m de movimento entre torres tabuleiro contínuo pendurado só nos estais, com juntas de dilatação largas nas pontas
Terremoto e choque de navio 0,48 g; petroleiro de 180.000 toneladas fundação apoiada sem ligação ao solo e amortecedores no tabuleiro

A fundação que pode escorregar

O ponto mais original está embaixo d’água. Os caixões não são presos aos tubos de aço: apoiam-se sobre uma camada nivelada de cascalho de 3 m. Num terremoto muito forte, a fundação pode deslizar ou girar levemente sobre o cascalho, que funciona como um fusível e limita a força que sobe para a torre. Os tubos de aço reforçam o solo sem se ligar à estrutura, segundo o estudo de resposta estrutural da ponte, de Combault, Morand e Pecker.

O tabuleiro solto das torres

O tabuleiro de 27,2 m de largura passa pelas torres sem apoio vertical: fica inteiro pendurado nos 368 estais. Num terremoto de projeto, ele pode se deslocar cerca de 1,30 m em relação a cada torre. Na direção transversal, quatro amortecedores viscosos por torre, de cerca de 3.500 kN cada, dissipam a energia do movimento, e peças de contenção projetadas para romper num sismo forte seguram o tabuleiro no dia a dia, contra o vento.

A comparação com a conta anterior ajuda: os quatro amortecedores de uma torre somam cerca de 14 MN, menos de um quarto dos 59 MN da estimativa rígida. O resto do esforço é absorvido pelo próprio deslocamento do tabuleiro.

Vista distante da ponte Rion-Antirion cruzando o estreito entre o Peloponeso e o continente grego
A Rion-Antirion vista de longe: quatro torres e cinco vãos estaiados num tabuleiro contínuo de 2.252 m. Foto: Bekuletz / Wikimedia Commons, domínio público.

O arranjo de vários vãos estaiados seguidos, como na Rion-Antirion, também aparece no viaduto de Millau, na França, onde o problema a vencer era a altura sobre o vale, sem exigência sísmica comparável. A ponte Sheikh Jaber, no Kuwait, usa um trecho estaiado no meio de uma travessia longa sobre o mar.

E no Brasil, terremoto importa?

O risco é baixo na maior parte do país, e existe norma para ele. A NBR 15421, escrita para edificações e usada como referência no projeto de pontes, divide o país em cinco zonas sísmicas, com aceleração de projeto de 0,025 g na zona 0 a 0,15 g na zona 4, segundo um trabalho da Universidade Federal do Ceará que reproduz a tabela da norma. Na zona 0, a norma não exige verificação sísmica.

Refazendo a conta do vão de 560 m com 0,15 g: 12.600.000 × 0,15 × 9,81 ≈ 18,5 MN, menos de um terço da força na Grécia. Nas pontes brasileiras, vento e cargas de tráfego costumam decidir o projeto antes do terremoto. A ponte Rio-Niterói é um exemplo de obra grande em que o desafio foi outro: vencer o vão central sobre o canal de navegação.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre ponte estaiada e ponte pênsil?

Na estaiada, cabos retos ligam o tabuleiro direto à torre. Na pênsil, o tabuleiro pende de dois cabos principais curvos, ancorados no terreno nas duas cabeceiras.

Por que os estais mais longos são mais grossos?

Porque ficam mais deitados. Pela fórmula T = V / sen θ, um estai a 22° precisa de cerca de 2,5 vezes a força de um estai a 70° para sustentar o mesmo peso.

Como a ponte Rion-Antirion resiste a terremotos?

Com uma fundação apoiada sobre cascalho, que pode escorregar num sismo extremo, um tabuleiro inteiro pendurado nos estais, solto das torres, e amortecedores que controlam o deslocamento lateral.

Quanto a ponte Rion-Antirion pode se mover?

Foi projetada para que as torres se afastem até 2 m uma da outra por movimento da falha, e para que o tabuleiro se desloque cerca de 1,30 m em relação a cada torre num terremoto de projeto.

Existe norma sísmica no Brasil?

A norma sísmica brasileira, a NBR 15421, foi escrita para edificações e serve de referência para pontes. Ela define cinco zonas, com aceleração de projeto de 0,025 g a 0,15 g. Em grande parte do país, os valores são baixos e outras cargas decidem o dimensionamento.

O princípio que organiza o projeto de uma ponte estaiada em região sísmica é deixar a estrutura se mover onde o movimento é inofensivo e só resistir onde é preciso. Ao ler sobre uma ponte em zona de terremoto, a pergunta que separa um projeto do outro é onde ficam os pontos que podem deslizar, e qual peça foi feita para ceder primeiro.

Imagem de destaque: A ponte Rion-Antirion, sobre o golfo de Corinto, na Grécia, aberta em 2004. Foto: Konradr / Wikimedia Commons, CC0.

Posts Similares