Ponte estaiada Russky sobre o estreito do Bósforo Oriental, em Vladivostok
Ponte Russky, em Vladivostok: vão central de 1.104 m entre duas torres de quase 321 m. Foto: Vyacheslav Bukharov / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

Ponte Russky: como foi construído o vão estaiado de 1.104 m em Vladivostok

A ponte Russky liga Vladivostok, no extremo leste da Rússia, à ilha Russky, atravessando o estreito do Bósforo Oriental com um vão central de 1.104 m. Quando foi inaugurada, em 2 de julho de 2012, tinha o maior vão estaiado do mundo, e as torres de quase 321 m estão entre as mais altas já usadas numa ponte (no viaduto de Millau, pilar e mastro somam 343 m acima do solo). Foi construída em menos de quatro anos para a cúpula da APEC de setembro de 2012, num lugar com mar congelado no inverno e ventos de tempestade.

Aqui estão os números da ponte Russky, por que o projeto escolheu a ponte estaiada, a conta da força no estai mais longo e o que o clima de Vladivostok exigiu da obra.

A ponte Russky em números

Item Valor
Vão central 1.104 m
Ponte principal / travessia completa cerca de 1,9 km / 3,1 km com os viadutos de acesso
Largura do estreito na travessia 1.460 m
Altura livre para navegação 70 m
Torres duas, em forma de A, com quase 321 m
Estais 168, de 136 m a 580 m
Tabuleiro caixão de aço ortotrópico, 4 faixas
Obra fim de 2008 a julho de 2012

Os números vêm da reportagem técnica da revista Bridge Design & Engineering de 2011, da ENR e do comunicado da Freyssinet, que forneceu e instalou os estais. As fontes divergem em detalhes, como a largura do tabuleiro (21 m na BD&E, 24 m na ENR, 28 m na Freyssinet) e o comprimento do maior estai (580 m e 582 m); a tabela usa os valores em que duas fontes concordam ou a fonte mais técnica.

Por que uma ponte estaiada

O obstáculo era o próprio estreito: 1.460 m de mar com tráfego de navios, onde não convinha pôr pilares no meio, e 70 m de altura livre para a navegação. Até os anos 2000, vãos acima de 1 km eram quase exclusivos das pontes pênseis, como a Akashi Kaikyo, com vão de 1.991 m. A ponte de Sutong, na China, levou o estaiado a 1.088 m em 2008, e a Russky passou desse recorde por 16 m, segundo a BD&E.

Na ponte pênsil, dois cabos principais passam por cima das torres e precisam ser ancorados em blocos enormes nas margens. Na estaiada, cada estai vai direto da torre a um ponto do tabuleiro, e a componente horizontal da força comprime o próprio tabuleiro, que trabalha como uma viga apoiada nos cabos. Não há bloco de ancoragem, e a ponte pode ser montada em balanço a partir das torres, segmento por segmento. O preço é que os estais do meio do vão ficam muito longos e muito deitados, e é aí que a conta pesa.

A conta do estai mais longo

Num estai reto, a força de tração T se divide em uma parte vertical V, que sustenta o tabuleiro, e uma horizontal H, que comprime o tabuleiro. Com o ângulo θ entre o cabo e a horizontal:

T = V ÷ sen θ e H = V ÷ tg θ

O estai mais longo da Russky tem cerca de 580 m e chega perto do meio do vão. Se ele terminasse exatamente no meio, a 552 m da torre (metade de 1.104 m), o teorema de Pitágoras colocaria a ancoragem na torre cerca de √(580² − 552²) ≈ 178 m acima do tabuleiro, com o cabo a 18° da horizontal. A ancoragem real fica mais alta (a ENR fala em estais saindo de quase 200 m de altura nas torres) e o cabo para um pouco antes do meio, então o ângulo verdadeiro deve ficar entre 18° e 23° (contas nossas, com o cabo tratado como reto).

  • a 18°, T ≈ 3,2 × V; a 23°, T ≈ 2,6 × V: para segurar cada tonelada de tabuleiro, o estai mais longo puxa de 2,6 a 3,2 toneladas;
  • a 18°, H ≈ 3,1 × V: o tabuleiro é comprimido com uma força de cerca de três vezes a carga vertical que o cabo segura;
  • para comparação, um estai a 45° puxaria 1,41 × V, e um a 60°, 1,15 × V.
Gráfico de barras da força no estai por tonelada sustentada: 3,2 t no estai mais longo a 18°, 2,6 t a 23°, 1,4 t num cabo a 45° e 1,2 t a 60°
O estai mais longo, quase deitado, puxa de 2,6 a 3,2 vezes a carga que sustenta. Contas nossas com T = V ÷ sen θ e o cabo tratado como reto.

É por isso que vãos estaiados recordes pedem torres muito altas: subir a ancoragem aumenta o ângulo dos cabos do meio e reduz a força em cada um. A mesma relação T = V ÷ sen θ aparece no artigo sobre pontes estaiadas em regiões sísmicas, com os números da ponte Rio-Antírio.

Os estais da Russky são feixes de cordoalhas paralelas de aço de alta resistência, protegidas individualmente com cera e bainha de polietileno, segundo a ENR, que fala em cerca de 2.800 km de cordoalha no total. A bainha externa tem nervuras em hélice para reduzir a vibração causada por chuva com vento, e os cabos mais longos receberam amortecedores magnetorreológicos, cuja viscosidade é ajustada eletricamente conforme a frequência da vibração, segundo a Freyssinet.

Ponte Russky, em Vladivostok, com os estais em leque ligando as torres ao tabuleiro
Ponte Russky, em Vladivostok: 168 estais ligam as duas torres ao tabuleiro de aço. Foto: Svetlov Artem / Wikimedia Commons, CC0.

O clima que entrou no projeto

A BD&E lista as cargas ambientais de projeto: vento de até 36 m/s, ondas de tempestade de até 6 m, gelo de até 70 cm de espessura no inverno e temperaturas de −30 °C a +37 °C. Em abril de 2010, um alerta de tempestade, com rajadas de 25 m/s e ondas de 5 m, durou três dias e interrompeu as balsas para o continente, mas a central de concreto da ilha manteve a concretagem.

A variação de temperatura mexe com o comprimento do tabuleiro de aço. Com coeficiente de dilatação de 12 × 10⁻⁶ por °C, só o vão de 1.104 m varia 1.104 × 67 × 12 × 10⁻⁶ ≈ 0,89 m entre o dia mais frio e o mais quente; se os 1.872 m da ponte principal citados pela Freyssinet trabalharem como um tabuleiro contínuo, a variação passa de 1,5 m (contas nossas, supondo a temperatura do aço igual à do ar). Esse movimento precisa ser absorvido por juntas de dilatação.

Para proteger as torres do gelo, da erosão e do choque de navios, a obra criou penínsulas artificiais de enrocamento em volta das bases. As estacas escavadas da torre do continente chegam a 77 m de profundidade, em siltito de 90 MPa intercalado com arenito de até 180 MPa, e a concretagem de estacas a partir de um barco foi apresentada como a primeira desse tipo na Rússia.

Ponte Russky, que liga Vladivostok à ilha Russky
A ponte Russky, que liga Vladivostok à ilha Russky. Foto: Alexxx1979 / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

Como a ponte foi montada

As obras começaram no fim de 2008, e a primeira estaca foi escavada em maio de 2009. O tabuleiro foi fabricado em Omsk e montado em segmentos de 12 m em Vladivostok e Nakhodka; cada segmento era içado cerca de 80 m até o nível do tabuleiro e preso aos estais, num balanço que avançava a partir das duas torres até o fecho no meio do vão, segundo a ENR. O primeiro par de estais foi instalado em julho de 2011, e a ponte foi inaugurada em 2 de julho de 2012.

O custo é citado em torno de US$ 1,1 bilhão, valor estimado pelo Moscow Times em 2012; não encontramos um número final em documento oficial do governo russo, então trate o valor como estimativa.

O recorde que caiu em 2025

A Russky ficou 13 anos com o maior vão estaiado do mundo. Em setembro de 2025 abriu na China a ponte de Changtai, sobre o rio Yangtzé, com vão de cerca de 1.208 m, segundo a Roads & Bridges. A Russky passou ao segundo lugar, e outras pontes estaiadas chinesas com vão acima de 1.104 m estavam em obra quando este texto foi escrito, então a posição dela no ranking pode já ser outra.

O vão de 1.104 m responde a um obstáculo específico, a impossibilidade de apoiar pilares no meio de um estreito com tráfego de navios, e outras travessias mostram respostas diferentes quando o obstáculo muda. Na ponte suspensa de Yusufeli, na Turquia, o vale foi tomado pelo reservatório de uma barragem, e as torres tiveram de nascer nas encostas, acima da linha d’água. O túnel de Laerdal, na Noruega, mostra a terceira saída: quando o relevo não oferece nem vão curto nem encosta aproveitável, a estrada atravessa a montanha por dentro, em 24,51 km de rocha. Vencer o vão, apoiar nas encostas e furar a rocha são três das respostas possíveis, cada uma escolhida pelo obstáculo do lugar.

Perguntas frequentes

Qual o tamanho da ponte Russky?

O vão central tem 1.104 m. A ponte principal tem cerca de 1,9 km, e a travessia completa, com os viadutos de acesso, cerca de 3,1 km.

A ponte Russky é pênsil ou estaiada?

Estaiada: 168 cabos ligam as duas torres diretamente ao tabuleiro. Reportagens às vezes a chamam de pênsil, o que está errado.

Por que construíram a ponte Russky?

Para ligar Vladivostok à ilha Russky, onde foi realizada a cúpula da APEC em setembro de 2012 e onde hoje funciona o campus da Universidade Federal do Extremo Oriente.

A ponte Russky ainda é a maior ponte estaiada do mundo?

Não. Desde setembro de 2025, a ponte de Changtai, na China, tem um vão maior, de cerca de 1.208 m, e outras pontes chinesas em obra também passam de 1.104 m.

Qual a altura das torres da ponte Russky?

Quase 321 m, segundo a ENR e a BD&E. Outras fontes citam 320 m ou 324 m, conforme o ponto de medição.

A ponte Russky resolve a travessia com cabos cada vez mais deitados até o meio do vão, e a conta T = V ÷ sen θ mostra o custo disso: o estai mais longo puxa de duas vezes e meia a três vezes o peso que segura. Ao comparar pontes estaiadas, olhe a altura das torres em relação ao vão, porque é ela que define o ângulo dos cabos do meio.

Imagem de destaque: Ponte Russky, em Vladivostok: vão central de 1.104 m entre duas torres de quase 321 m. Foto: Vyacheslav Bukharov / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

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