Ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau sobre o delta do rio das Pérolas
Ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau: 55 km de travessia no delta do rio das Pérolas. Foto: N509FZ / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

Ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau: como foi construída a travessia de 55 km

A ponte Hong Kong–Zhuhai–Macau liga três cidades do delta do rio das Pérolas, no sul da China, com 55 km de travessia. A parte principal tem 29,6 km: 22,9 km de ponte e 6,7 km de túnel submerso, unidos por duas ilhas artificiais construídas no meio do mar. A obra começou em 2011 e abriu ao tráfego em outubro de 2018, com vida útil de projeto de 120 anos.

Aqui está como ela foi construída: por que um trecho vira túnel, como blocos de concreto de 76.000 t foram levados flutuando e afundados no lugar certo, e como as ilhas foram erguidas em sete meses.

A ponte em números

Item Valor
Travessia completa 55 km
Parte principal 29,6 km
Trecho de ponte 22,9 km
Túnel submerso 6,7 km, em 33 elementos
Elemento típico do túnel 180 m × 37,95 m × 11,4 m, cerca de 76.000 t
Ilhas artificiais 2, com cerca de 100.000 m² cada
Aço na superestrutura da ponte cerca de 400.000 t
Faixas e velocidade de projeto 6 faixas, 100 km/h
Obra janeiro de 2011 a fevereiro de 2018; tráfego desde outubro de 2018

Os números são do artigo de apresentação da obra na revista Engineering, da Academia Chinesa de Engenharia.

Por que um trecho é túnel

O tráfego marítimo no local é intenso: o artigo da Engineering fala em mais de 4.000 embarcações por dia passando pela área da obra, e o canal precisa dar passagem a petroleiros da classe de 300.000 t. Uma ponte sobre esse canal teria de ser altíssima para deixar os navios passarem por baixo.

Só que perto dali fica o aeroporto internacional de Hong Kong, que limita a altura das estruturas. Um documento do Conselho Legislativo de Hong Kong de 2005, que comparou três traçados, registra esse conflito: no traçado sul, que exigiria ponte em toda a extensão, a altura máxima seria limitada pelas restrições do aeroporto, e a ponte baixa restringiria navios grandes e plataformas de perfuração de petróleo. O traçado norte, de ponte com túnel, que acabou adotado, não impõe limite de altura aos navios que vão aos portos de Shenzhen e Cantão, segundo o mesmo documento.

Esse mesmo raciocínio aparece em outras travessias longas. No Kuwait, a ponte Sheikh Jaber soma cerca de 48,5 km em dois trechos sobre a baía, quase todos em vigas repetidas, com um único vão estaiado que abre um canal de navegação de 23 m de altura, porque ali não passam navios do porte dos que cruzam o delta do rio das Pérolas. Na Europa, a travessia do Øresund resolve 16 km em três peças diferentes (ponte estaiada, ilha artificial e túnel) pelo mesmo motivo que levou Hong Kong a mergulhar: havia navegação e aviação disputando o espaço. Em travessias desse tamanho, quem decide entre subir e descer costuma ser o tráfego que precisa passar pelo lugar.

O túnel submerso: blocos que flutuam

Um túnel submerso é montado com blocos pré-fabricados em terra, levados pela água e afundados numa vala aberta no fundo do mar. Na Hong Kong–Zhuhai–Macau são 33 elementos, quase todos com 180 m de comprimento, 37,95 m de largura e 11,4 m de altura, e paredes de 1,5 m de espessura. Eles foram concretados num pátio de 560.000 m², em duas linhas de produção, a um ritmo de dois elementos a cada dois meses.

A conta da flutuação

Um bloco de concreto de 76.000 t flutua porque é oco. O empuxo é o peso da água que o volume externo desloca:

  • volume externo: 180 × 37,95 × 11,4 ≈ 77.900 m³;
  • água do mar a 1,025 t/m³: empuxo ≈ 79.800 t;
  • massa do elemento: cerca de 76.000 t.

Sobram cerca de 3.800 t de empuxo, uns 5% do total (contas nossas, com as dimensões e a massa do artigo da Engineering e a densidade típica da água do mar). Por isso o elemento sai do pátio boiando, com as pontas fechadas por anteparas, como é padrão nesse tipo de túnel, e é rebocado por 12 rebocadores, 4 presos ao elemento e 8 ao lado, segundo a Engineering. No lugar, tanques internos recebem água de lastro, o peso passa do empuxo e o bloco desce até a base de cascalho preparada na vala.

Gráfico de barras do empuxo de 79.800 t contra a massa de 76.000 t de um elemento do túnel submerso da ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau
Cada elemento de 180 m desloca mais água do que pesa, por isso viaja boiando e só desce com lastro. Contas nossas com as dimensões publicadas na revista Engineering.

A margem pequena ajuda no controle: com pouca sobra de empuxo, basta um volume modesto de lastro para o bloco descer de forma gradual. A vala tem cerca de 30 m de profundidade, o eixo do túnel fica uns 20 m abaixo do leito, e a camada de sedimento sobre o teto em alguns trechos passa de 20 m, o que fez do projeto um caso de túnel submerso profundo, segundo a Engineering. A dragagem do fundo da vala tinha tolerância vertical de ±50 cm.

O primeiro elemento foi assentado em maio de 2013. A junta final, que fecha o túnel entre os dois últimos blocos, teve o trabalho no mar reduzido de mais de seis meses para três dias com uma peça pré-fabricada, segundo o mesmo artigo. Túneis urbanos cavados em terra seguem outra lógica, descrita no artigo sobre túneis urbanos.

Trecho da ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau sobre o mar
Ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau sobre o mar: 22,9 km de ponte na parte principal da travessia. Foto: Pauloleong2002 / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

As ilhas artificiais em sete meses

As duas pontas do túnel saem em ilhas artificiais, onde a estrada sobe para a ponte. Cada uma tem cerca de 100.000 m², sobre uma camada de solo mole com mais de 30 m de espessura.

Em vez de trocar o solo mole por areia e pedra, como no método convencional, os engenheiros cravaram anéis de cilindros de aço gigantes: 60 cilindros por ilha, cada um com 22 m de diâmetro, 50 m de altura e parede de 1,6 cm, enfiados cerca de 30 m no fundo. Os cilindros formam uma parede contínua, e o miolo é aterrado depois. A Engineering registra que a formação das ilhas levou sete meses, contra três anos previstos com o método convencional.

A ponte

O trecho de ponte tem 22,9 km de vigas sobre pilares, com vãos maiores e estaiados nos canais de navegação. A obra usou cerca de 400.000 t de aço na superestrutura. As torres em forma de golfinho da ponte Jianghai, um dos vãos estaiados, têm cerca de 100 m e 2.600 t cada, segundo o artigo da Engineering. Os pilares do trecho sem navegação foram pré-fabricados, e cada torre-golfinho foi instalada numa peça só, uma lógica de levar o trabalho para a fábrica que também aparece na construção modular.

A forma de prender cabos a torres e tabuleiros nos vãos estaiados segue a mesma física explicada no artigo sobre pontes estaiadas, onde a força em cada cabo depende do ângulo em que ele chega ao tabuleiro.

Perguntas frequentes

Qual o tamanho da ponte Hong Kong–Zhuhai–Macau?

A travessia completa tem 55 km. A parte principal tem 29,6 km, sendo 22,9 km de ponte e 6,7 km de túnel submerso.

Por que a ponte tem um túnel no meio?

Para não limitar a altura dos navios que usam o canal de navegação, num lugar onde a altura de uma ponte também é limitada pela proximidade do aeroporto de Hong Kong.

Como um túnel é construído debaixo do mar?

Os blocos são concretados em terra, fechados nas pontas, rebocados flutuando e afundados com água de lastro numa vala aberta no leito. Depois são ligados uns aos outros e cobertos.

Quanto tempo levou a obra?

De janeiro de 2011 a fevereiro de 2018, com abertura ao tráfego em outubro de 2018.

Qual a vida útil da ponte?

A vida útil de projeto é de 120 anos, segundo a Engineering.

A ponte Hong Kong–Zhuhai–Macau resolve 55 km de mar combinando três soluções, cada uma onde ela funciona melhor: ponte onde a água permite, ilhas para a transição e túnel onde navios e aviões disputam o espaço. A conta do empuxo mostra o detalhe que torna o túnel possível: blocos de 76.000 t que flutuam com 5% de folga.

Imagem de destaque: Ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau: 55 km de travessia no delta do rio das Pérolas. Foto: N509FZ / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

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