Ponte Akashi Kaikyo sobre o estreito de Akashi, no Japão
A ponte Akashi Kaikyo. Foto: Zion C / Unsplash.

Ponte Akashi Kaikyo: a engenharia do vão de 1.991 m

A ponte Akashi Kaikyo, no Japão, tem 3.911 m de extensão e um vão central de 1.991 m entre as duas torres. Foi o maior vão de ponte pênsil do mundo de 1998 até 2022, quando a ponte 1915 Çanakkale, na Turquia, abriu com 2.023 m. Ela cruza um estreito com corrente de até 4,5 m/s, numa região de tufões e terremotos, e um terremoto chegou a esticá-la em pouco mais de 1 m durante a obra.

Este artigo mostra como a ponte Akashi Kaikyo foi projetada e construída, com os números da operadora e as contas que dão a escala: quanto aço há nos cabos, quanto a ponte dilata num dia e o que o terremoto de 1995 mudou. As fontes são a Honshu-Shikoku Bridge Expressway (JB Honshi), que opera a ponte, a base Structurae, a Enciclopédia Britânica e a revista Roads & Bridges.

Os números da ponte Akashi Kaikyo

Item Número Fonte
Extensão total 3.911 m JB Honshi
Vãos 960 + 1.991 + 960 m JB Honshi
Altura da pista no centro cerca de 97 m sobre o mar JB Honshi
Vão livre para navios cerca de 65 m JB Honshi
Cabos principais 2, com 1,12 m de diâmetro Structurae
Fios por cabo 290 feixes de 127 fios de 5,23 mm Structurae
Aço da superestrutura 193.200 t JB Honshi
Obra maio de 1988 a abril de 1998 JB Honshi
Abertura 5 de abril de 1998 Britânica

Os dados da operadora estão na página da JB Honshi sobre a ponte, e os dos cabos, na base Structurae. O vão central é 1.991 ÷ 3.911 ≈ 51% da ponte: mais da metade do comprimento fica pendurada entre as duas torres, sem apoio no mar.

A altura das torres aparece com dois números. A Structurae dá 282,8 m; a operadora fala em cerca de 300 m e a Britânica, em 297 m acima da água. A diferença provavelmente está no ponto de onde se mede, mas nenhuma das fontes explica isso, e por isso ficam aqui os três valores.

Esquema em elevação da ponte Akashi Kaikyo, com duas torres, cabo principal e vãos de 960, 1.991 e 960 metros
Os três vãos da ponte, segundo a operadora JB Honshi. Desenho esquemático, fora de escala.

Por que um vão tão grande

O estreito de Akashi tem cerca de 4 km de largura, até 110 m de profundidade e corrente de maré de até 4,5 m/s, segundo a operadora. Passam por ele cerca de 1.400 navios por dia. Cada pilar no meio da água seria uma fundação cara em mar fundo e rápido, além de um obstáculo no canal de navegação. A solução foi pôr só duas torres na água e vencer o resto com cabos.

Numa ponte pênsil, a pista fica pendurada em dois cabos principais, que passam por cima das torres e são presos em terra por blocos de ancoragem. As torres recebem o peso de cima para baixo; as ancoragens seguram o puxão horizontal dos cabos. O mesmo princípio, em escala menor, está na Golden Gate. Outra forma de vencer vales largos, com cabos retos presos direto às torres, está no viaduto de Millau.

Ponte Akashi Kaikyo vista da margem de Kobe, com as duas torres e os cabos principais
A ponte vista da margem de Kobe. Foto: Stingy Scoundrel from Osaka, Japan / Wikimedia Commons, domínio público.

Os cabos: 300 mil km de fio de aço

Cada cabo principal é um feixe de fios paralelos de aço galvanizado. Pela Structurae, são 290 feixes de 127 fios, cada fio com 5,23 mm de diâmetro. A conta: 290 × 127 = 36.830 fios por cabo.

O comprimento total de fio nos dois cabos é de 300.000 km, segundo a mesma base. Dá para conferir: cada cabo tem cerca de 4 km, e 2 × 36.830 × 4,07 km ≈ 300.000 km (conta nossa). A circunferência da Terra no equador é de cerca de 40.075 km; o fio daria 300.000 ÷ 40.075 ≈ 7,5 voltas.

O aço desses fios foi desenvolvido para a obra, com resistência à tração de 180 kgf/mm², segundo a revista Roads & Bridges. As contas (nossas) mostram o que isso significa:

  • área de um fio: π ÷ 4 × 5,23² ≈ 21,5 mm²;
  • carga de ruptura de um fio: 21,5 × 180 ≈ 3.870 kgf, perto de 3,9 toneladas num fio da espessura de um lápis fino;
  • carga de ruptura teórica de um cabo: 36.830 × 3,87 t ≈ 142.500 t.

Esse último número é o limite de ruptura, e não a carga de trabalho: o projeto mantém a força real bem abaixo dele, com um coeficiente de segurança que as fontes consultadas não informam. A área de aço de um cabo, 36.830 × 21,5 mm² ≈ 0,79 m², ocupa cerca de 80% do círculo de 1,12 m de diâmetro (0,99 m²). O resto são os vazios entre fios redondos.

As torres e os amortecedores

As duas torres de aço pesam juntas 46.200 t, segundo a operadora, e é por elas que os cabos descarregam o peso da ponte, da ordem de 100.000 t, segundo a Roads & Bridges. Uma torre tão alta e esbelta balança com o vento. Para conter isso, as torres levam por dentro amortecedores de massa sintonizada: a mesma revista cita 20 unidades de cerca de 10 t cada, distribuídas em três níveis da torre. São pesos que oscilam em sentido contrário ao da torre e absorvem parte do movimento. O princípio é o mesmo da esfera que estabiliza arranha-céus, descrito em maiores obras de engenharia.

As fundações das torres são caixões circulares apoiados no fundo do mar, segundo a Structurae, que dá o apoio da torre do lado de Kobe a 60 m de profundidade e o da outra a 57 m.

Vento, terremoto e o metro que a ponte ganhou

A operadora informa as velocidades de vento de projeto: 60 m/s para o tabuleiro e 67 m/s para as torres, com a ponte projetada para resistir a 80 m/s. Em quilômetros por hora, 80 × 3,6 = 288 km/h. O tabuleiro é uma treliça de aço de 35 m de largura por 14 m de altura, segundo a Roads & Bridges: uma estrutura aberta, que deixa o vento passar e é rígida à torção.

Para terremotos, o projeto considerou magnitude 8,5, segundo a mesma revista. O teste veio antes da inauguração. Em 17 de janeiro de 1995, o terremoto de Kobe, de magnitude 7,2 pelo registro da operadora, atingiu a região com a ponte ainda em obras e sem o tabuleiro. O terreno se deslocou e as torres se afastaram em pouco mais de 1 m, segundo a Britânica. O vão central, que a Structurae registra com 1.990,8 m, é hoje divulgado pela operadora como 1.991 m.

Em proporção, 1 ÷ 1.990 ≈ 0,05% do vão. A obra seguiu, com o tabuleiro ajustado ao novo comprimento. A reação de outras estruturas a terrenos que se movem está em a inclinação da Torre de Pisa.

Torre e tabuleiro em treliça da ponte Akashi Kaikyo
A torre e o tabuleiro em treliça. Foto: 神戸市 / Wikimedia Commons, CC BY 2.1 jp.

Quanto a ponte se mexe num dia

A Britânica registra que a ponte pode se alongar e encolher até 2 m num único dia, por efeito da temperatura. A ordem de grandeza se confere com a fórmula da dilatação: variação = coeficiente × comprimento × variação de temperatura.

Com o coeficiente do aço em 12 milionésimos por grau (valor usual de tabela), os 3.911 m da ponte e uma variação de 40 °C entre o aço frio e o aço ao sol (premissa nossa):

0,000012 × 3.911 × 40 ≈ 1,9 m

O resultado bate com os 2 m da Britânica. Por isso a ponte tem juntas de dilatação nas extremidades, e por isso os cabos sobem e descem ao longo do dia: quando esquentam, ficam mais longos e o meio do vão desce.

Ainda é a maior ponte pênsil do mundo?

Em vão central, deixou de ser em 2022. A ponte 1915 Çanakkale, na Turquia, foi aberta em 2022 com vão de 2.023 m, segundo a Structurae. A diferença é de 2.023 − 1.991 = 32 m, ou 1,6%. A Akashi Kaikyo ficou com o recorde por 24 anos e segue em segundo lugar.

O custo da obra aparece nas fontes como cerca de 500 bilhões de ienes, ou 3,6 bilhões de dólares em valores da época. Não encontramos esse número em página da operadora; ele vem da Structurae e da Roads & Bridges.

Perguntas frequentes

Qual é o comprimento da ponte Akashi Kaikyo?

3.911 m no total, com vão central de 1.991 m, segundo a operadora JB Honshi.

Onde fica a ponte Akashi Kaikyo?

No Japão, sobre o estreito de Akashi. Liga Kobe, na ilha de Honshu, à ilha de Awaji, segundo a Britânica.

Por que o vão tem 1.991 m e não 1.990 m?

Porque o terremoto de Kobe, em 1995, afastou as torres em pouco mais de 1 m, com a ponte ainda em obras.

A ponte Akashi Kaikyo aguenta tufão?

Ela foi projetada para ventos de até 80 m/s, cerca de 288 km/h, segundo a operadora.

Quanto tempo levou a construção?

Dez anos: a obra no local começou em maio de 1988 e a ponte abriu em 5 de abril de 1998.

A ponte Akashi Kaikyo resolve um estreito fundo e movimentado com duas torres e 300 mil km de fio de aço. Cada número dela responde a uma carga: os cabos ao peso, a treliça ao vento, os amortecedores à oscilação e as juntas à temperatura. Outra ponte que precisou vencer o mar, no Brasil, está em como foi projetada a Ponte Rio-Niterói.

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