Ponte Rio-Niterói sobre a Baía de Guanabara
Ponte Rio-Niterói, sobre a Baía de Guanabara. Foto: Rodrigo Soldon from Rio de Janeiro, Brazil / Wikimedia Commons, CC BY 2.0.

Ponte Rio-Niterói: a engenharia do vão central

A Ponte Rio-Niterói tem 13,2 km de extensão e liga as duas cidades por cima da Baía de Guanabara desde 4 de março de 1974. O trecho mais conhecido é o vão central, de 300 m de comprimento e 72 m de altura, feito de aço para deixar os navios passarem. Por ela circulam, em média, 150 mil veículos por dia.

Este artigo mostra a engenharia da Ponte Rio-Niterói com os números da obra: o tamanho, as fundações, o vão central e o problema que ele teve com o vento, resolvido em 2004 com 32 peças de duas toneladas. As fontes são a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), a concessionária, o Instituto Brasileiro do Concreto (IBRACON) e a COPPE, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Os números da Ponte Rio-Niterói

Item Número Fonte
Extensão 13,2 km ANTT e IBRACON
Vão central 300 m de comprimento, 72 m de altura concessionária
Trecho em aço três vãos principais de 200 m, 300 m e 200 m (700 m); 848 m com os trechos das extremidades IBRACON e publicações técnicas
Vãos típicos em concreto 80 m IBRACON
Fundações 1.138 tubulões (soma nossa dos três tipos) IBRACON
Inauguração 4 de março de 1974 IBRACON
Tráfego 150 mil veículos por dia, em média, somando os dois sentidos concessionária
Pedágio para carro R$ 6,60 desde 18 de março de 2026 concessionária

A extensão de 13,2 km está na nota da ANTT sobre a concessão e num artigo da revista do IBRACON, que a descreve como a maior ponte do Hemisfério Sul. Circula também o número 13,29 km, que não encontramos em fonte oficial. Os dados do vão central e do tráfego são da página da concessionária.

Duas contas dão a escala. O tráfego: 150.000 × 365 ≈ 54,7 milhões de veículos por ano. E o aço: a estrutura metálica do trecho central, citada com 848 m, representa 848 ÷ 13.200 ≈ 6,4% do comprimento. Os outros 94% são de concreto.

Vista da Ponte Rio-Niterói com o vão central elevado
Vista da Ponte Rio-Niterói. Foto: Rodrigo Soldon / Wikimedia Commons, CC BY 2.0.

Como a ponte foi construída

A obra começou no fim da década de 1960 e teve dois construtores. O contrato com o primeiro consórcio foi encerrado no meio do caminho, e um segundo grupo, formado por Camargo Corrêa, Mendes Júnior e Construtora Rabello, assumiu e terminou a ponte, pelo dobro do preço inicialmente estabelecido, segundo o artigo do IBRACON. O projeto da parte de concreto é da Noronha Engenharia, e o dos vãos de aço, da americana Howard Needles Tammen & Bergendoff.

As fundações na baía

Os pilares precisaram descer pelo fundo da Baía de Guanabara até o terreno firme. As fundações são tubulões, grandes estacas escavadas de concreto, de três tipos, segundo o IBRACON: 462 a ar comprimido, com base alargada, apoiados em solo sedimentar resistente a até 30 m de profundidade; 199 mistos, com estacas de aço dentro de camisas de aço; e 477 do tipo Bade-Wirth, perfurados por máquina e engastados na rocha. A soma dá 462 + 199 + 477 = 1.138 tubulões (conta nossa).

A fundação também foi o cenário do pior acidente registrado pelo artigo. Em março de 1970, um reservatório usado numa prova de carga sobre um tubulão desabou e matou oito profissionais. Não encontramos um número oficial para o total de mortes na obra.

Os vãos de concreto

A maior parte da ponte é uma sequência de vãos de 80 m em concreto protendido, com alguns vãos maiores, de 92 m e 114 m. No concreto protendido, cabos de aço esticados dentro da peça a comprimem antes de ela receber carga, o que permite vãos longos com vigas esbeltas. A lógica de repetir muitas vezes o mesmo vão é a mesma de outras travessias longas, como a maior ponte marítima do mundo, em Hong Kong.

O vão central: por que ele é de aço

No canal de navegação, a ponte precisava de uma abertura larga e alta para os navios que entram na baía. A solução foi um trecho em viga de aço, com três vãos principais de 200 m, 300 m e 200 m. O aço pesa menos que o concreto para a mesma resistência, e numa viga de 300 m o maior esforço é sustentar o próprio peso.

O IBRACON registra o vão de 300 m como o maior do mundo em viga reta contínua. O título é histórico: há registro de um vão de 330 m do mesmo tipo na ponte Shibanpo, na China, de 2006, dado que não conferimos em fonte primária. O que distingue esse tipo de ponte é não ter torres nem cabos: a viga vence o vão sozinha, apoiada só nos pilares. Em pontes como a Akashi Kaikyo, pênsil, ou o Viaduto de Millau, estaiado, são os cabos que carregam o tabuleiro.

Esquema do vão central da Ponte Rio-Niterói, com vãos de 200, 300 e 200 metros, 72 metros de altura e os 32 atenuadores dentro da viga
Os três vãos principais do trecho em aço e os atenuadores instalados dentro das vigas. Desenho esquemático, fora de escala; dados da concessionária, do IBRACON e da COPPE/UFRJ.

O aço também se move com a temperatura. Com dilatação de 12 milionésimos por grau (valor usual para o aço) e uma variação de 40 °C (premissa nossa), 848 m de estrutura metálica variam 0,000012 × 848 × 40 ≈ 0,41 m (conta nossa). Juntas de dilatação absorvem esse movimento.

O vão que balançava com o vento

O vão central tinha um problema conhecido. Com vento em torno de 55 km/h, as vigas de aço entravam em oscilação vertical, com deslocamento de até 1,20 m de pico a pico, e a ponte era fechada ao tráfego, em geral duas vezes por ano, segundo a COPPE/UFRJ.

A causa é o desprendimento de vórtices. O vento que contorna a viga solta redemoinhos alternados, ora por cima, ora por baixo, e cada um dá um pequeno empurrão. Numa certa velocidade de vento, o ritmo desses empurrões coincide com o ritmo em que o vão oscila naturalmente, e o movimento cresce, como num balanço empurrado na hora certa. Por isso o problema aparecia com vento moderado e sumia com vento mais forte ou mais fraco.

A solução, projetada pela equipe do professor Ronaldo Battista, da COPPE, com instalação prevista para abril de 2004, foram 32 atenuadores dinâmicos de duas toneladas cada, colocados dentro das vigas do vão central. São 32 × 2 = 64 toneladas de massa penduradas em molas e ajustadas para oscilar no mesmo ritmo do vão, em sentido contrário ao dele. Quando a viga sobe, a massa desce, e a energia do movimento vai para o atenuador.

A COPPE estimou redução superior a 80%, com a oscilação caindo para cerca de 10 cm de pico a pico. Pelos dois números, a conta dá (1,20 − 0,10) ÷ 1,20 ≈ 92%. O mesmo princípio, com uma única esfera de 660 toneladas, está em o amortecedor do Taipei 101 e em edifícios com amortecedores de massa.

Ponte Rio-Niterói vista de baixo, com os pilares e as vigas
A Ponte Rio-Niterói vista de baixo. Foto: Sergio Ricardo Ribeiro / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

O nome, a concessão e o pedágio

O nome oficial é Ponte Presidente Costa e Silva, dado pela Lei 5.595, de 28 de julho de 1970, quando a obra ainda estava em andamento. A lei é citada numa ação do Ministério Público Federal que contesta a homenagem.

A ponte faz parte da BR-101 e é operada por concessão. O contrato atual foi assinado em maio de 2015, por 30 anos, com cerca de R$ 1,3 bilhão em investimentos previstos, segundo a ANTT; a concessionária hoje usa a marca Ecovias Ponte. A tarifa para carros de passeio é de R$ 6,60 desde 18 de março de 2026, e a de motos, R$ 3,30, segundo o comunicado da concessionária.

Perguntas frequentes

Qual é o tamanho da Ponte Rio-Niterói?

13,2 km de extensão, segundo a ANTT. O vão central tem 300 m de comprimento e 72 m de altura.

Quando a Ponte Rio-Niterói foi inaugurada?

Em 4 de março de 1974.

Qual é o nome oficial da ponte?

Ponte Presidente Costa e Silva, pela Lei 5.595, de 1970.

Por que o vão central é diferente do resto?

Porque precisa deixar passar os navios. Ele é uma viga de aço de 300 m, mais leve que uma de concreto do mesmo tamanho. O restante da ponte é de concreto protendido, em vãos de 80 m.

A ponte ainda fecha por causa do vento?

O balanço do vão central com vento de cerca de 55 km/h foi tratado em 2004, com 32 atenuadores de duas toneladas dentro das vigas. Fechamentos por vento muito forte ou por acidente seguem critérios da concessionária.

Quanto custa o pedágio?

R$ 6,60 para carros de passeio e R$ 3,30 para motos, desde 18 de março de 2026.

A Ponte Rio-Niterói combina duas soluções: cerca de 12 km em concreto, a maior parte em vãos de 80 m, e um trecho de aço no ponto em que os navios passam. O vão central, que por 30 anos balançou com vento moderado, mostra que uma estrutura pode ser resistente e ainda assim precisar de ajuste no modo como vibra. Outras travessias e recordes estão em maiores obras de engenharia.

Imagem de destaque: Ponte Rio-Niterói, sobre a Baía de Guanabara. Foto: Rodrigo Soldon from Rio de Janeiro, Brazil / Wikimedia Commons, CC BY 2.0.

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