Grande tuneladora de metal com trabalhadores ao lado, dando a escala da máquina
Tuneladora, a máquina que escava e reveste o túnel ao mesmo tempo. Foto: Evangelos Mpikakis / Unsplash.

Túneis urbanos: métodos, tatuzões dos metrôs brasileiros e a conta do recalque

Um túnel urbano é planejado a partir de três perguntas: que solo existe embaixo da cidade, onde está a água subterrânea e quanto o chão pode afundar sem trincar os prédios de cima. As respostas escolhem o método. Em solo mole, abaixo do lençol freático e sob avenidas movimentadas, a escolha comum é a tuneladora, o tatuzão, que escava e reveste o túnel ao mesmo tempo. Perto da superfície e com espaço livre, a vala a céu aberto costuma ser mais barata. Em rocha ou em trechos curtos de formato variável, usa-se o concreto projetado.

Este artigo compara os métodos, faz a conta do recalque na superfície por uma fórmula que a engenharia usa desde 1969, traz os números das tuneladoras dos metrôs de São Paulo e do Rio e explica o que deu errado em Pinheiros, em 2007.

Os três métodos de escavação

Método Como funciona Quando costuma ser usado
Vala a céu aberto (cut and cover) escava-se uma trincheira, constrói-se a caixa de concreto e cobre-se de volta túneis rasos e estações, onde é possível interditar a superfície
Concreto projetado (NATM) escava-se em etapas curtas e reveste-se logo com concreto lançado por jato, treliças e tirantes rocha, cavernas de estação e trechos de seção variável
Tuneladora (TBM) uma máquina cilíndrica escava na frente e monta anéis de concreto pré-moldado atrás trechos longos em solo mole ou sob água, com pouca interferência na superfície

As tuneladoras de solo se dividem em dois tipos. A de pressão de terra, chamada EPB, usa o próprio material escavado, amassado numa câmara, para segurar a frente; funciona melhor em argilas e siltes. A de lama bentonítica injeta uma lama sob pressão na frente e serve para areias e cascalhos permeáveis com muita água, ao custo de uma usina de separação no canteiro, segundo a comparação da SI Engineering. Como a areia se comporta sob carga está no artigo sobre construção em solo arenoso.

Caminhão de obra dentro de um túnel escuro, com um grande duto de ventilação no teto
Túnel em obra, com o duto de ventilação no teto. O ar fresco precisa chegar à frente de escavação durante toda a obra. Foto: Ricardo Gomez Angel / Unsplash.

Os tatuzões dos metrôs brasileiros

Obra Diâmetro Avanço Dado
Linha 4 Amarela, São Paulo 9,46 m média de 15 m/dia, melhor dia 28,5 m 6.444 m escavados em silte, areia e areia argilosa, de 2007 a 2009
Linha 4, Rio de Janeiro 11,46 m não informado nas fontes consultadas 1.790 anéis em 3.620 m, de dezembro de 2013 a abril de 2016
Linha 6 Laranja, São Paulo 10,61 m 12 a 15 m/dia máquina de 109 m de comprimento e cerca de 2.000 t

Os dados vêm da Herrenknecht para a Linha 4 paulista, da Tunnels and Tunnelling para o avanço, da Herrenknecht para o diâmetro da máquina do Rio e do Tunnelbuilder para os anéis e as datas, e do Diário do Transporte para a Linha 6. O revestimento da Linha 4 paulista é feito de anéis de 1,5 m de largura e 35 cm de espessura, com oito segmentos de concreto pré-moldado cada.

A conta do ritmo: a 15 m por dia, os 6.444 m da Linha 4 levariam 6.444 / 15 ≈ 430 dias de escavação, cerca de 14 meses. A obra levou cerca de 31 meses entre o início e a chegada ao último poço, porque a máquina para nas estações, em manutenção e em trechos difíceis (conta nossa, com as datas da Herrenknecht).

A conta do recalque: quanto o chão afunda

Toda escavação tira um pouco mais de solo do que o volume do túnel, porque o terreno se move na direção do vazio antes de o revestimento segurar. Essa sobra, chamada perda de volume, aparece na superfície como uma bacia de recalque. O engenheiro Ralph Peck mostrou em 1969 que a bacia tem a forma de uma curva de Gauss, e as fórmulas seguem em uso, segundo um artigo da revista Tunnel de 2024:

  • recalque a uma distância y do eixo: S(y) = Smáx × e−y²/2i²;
  • largura da bacia: i = K × z0, com z0 a profundidade do eixo e K perto de 0,5 em argila;
  • recalque máximo: Smáx = VL × (π × D² / 4) / (2,507 × i), com VL a perda de volume.

Exemplo com a tuneladora da Linha 4 paulista. Premissas: D = 9,46 m, eixo a 20 m de profundidade (premissa nossa), K = 0,5 e perda de volume de 0,5%, valor coerente com a mediana de 0,41% medida em 78 obras com EPB na mesma revisão:

  • área do túnel: π × 9,46² / 4 ≈ 70,3 m²;
  • volume perdido por metro: 0,005 × 70,3 ≈ 0,35 m³;
  • largura da bacia: i = 0,5 × 20 = 10 m;
  • recalque máximo: 0,35 / (2,507 × 10) ≈ 0,014 m, cerca de 14 mm.
Gráfico de barras do recalque máximo na superfície para um túnel de 9,46 m com perda de volume de 0,5%: 28 mm com eixo a 10 m, 19 mm a 15 m, 14 mm a 20 m e 9 mm a 30 m
O mesmo volume perdido se espalha por uma bacia mais larga quando o túnel é mais fundo. Contas nossas pela fórmula de Peck.

Quanto mais fundo o túnel, mais larga e mais rasa fica a bacia. O mesmo volume perdido se espalha por uma faixa maior, e cada prédio sofre menos inclinação.

O que aconteceu em Pinheiros, em 2007

Em 12 de janeiro de 2007, a caverna da futura estação Pinheiros, da Linha 4, desabou e abriu uma cratera na superfície. Sete pessoas morreram, entre elas os passageiros de um micro-ônibus que caiu no buraco. O trecho era escavado pelo método de concreto projetado. As causas foram disputadas: o laudo do Instituto de Pesquisas Tecnológicas, citado pela promotoria, apontou erros de execução, e o consórcio construtor atribuiu o acidente a condições naturais do terreno, segundo o Vermelho. Uma análise publicada na Tunnels and Tunnelling aponta um bloco de rocha que as sondagens não detectaram e um tubo trincado que encharcou a argila. O caso virou referência de por que a investigação do subsolo e o monitoramento durante a obra pesam tanto quanto o cálculo.

Vista aérea de um poço de acesso de obra de túnel, com equipamentos ao redor
Poço de acesso de uma obra de túnel, por onde entram máquinas e sai o material escavado. Foto: david carballar / Unsplash.

Água, ar e custo

Abaixo do lençol freático, o túnel é uma caixa sob pressão de água. Os anéis pré-moldados levam juntas de vedação, e trechos moldados no local precisam de impermeabilização contínua, como mostra o guia de impermeabilização.

Em caso de incêndio, a ventilação precisa empurrar a fumaça para um lado só, para que as pessoas escapem pelo outro. A velocidade mínima de ar para isso, chamada velocidade crítica, ficou em torno de 2,5 a 3,0 m/s em ensaios de grande escala como o do Memorial Tunnel, nos Estados Unidos, segundo um estudo apresentado na conferência de túneis de Graz. Ventiladores a jato pendurados no teto produzem esse fluxo.

O custo é alto e varia muito. O Transit Costs Project, que compara obras de metrô no mundo, registra cerca de US$ 380 milhões por quilômetro para a Linha 4 do Rio, em valores ajustados por paridade de poder de compra, contra cerca de US$ 61 milhões na linha de Catânia, na Itália, uma das mais baratas da base do projeto. Os valores cobrem a linha inteira, com estações e sistemas. O túnel submarino mais conhecido da Europa está no artigo sobre o Canal da Mancha.

Perguntas frequentes

Como funciona o tatuzão do metrô?

A frente da máquina gira e escava, uma câmara pressurizada segura o solo, e atrás uma garra monta anéis de concreto pré-moldado que formam o revestimento. A máquina avança empurrando-se contra o último anel montado.

Quantos metros por dia uma tuneladora escava?

Nas fontes consultadas, de 12 a 15 m por dia em média nos metrôs de São Paulo. O melhor dia da Linha 4 chegou a 28,5 m.

Por que os prédios não afundam quando passa um túnel embaixo?

Afundam um pouco. Com perda de volume de 0,5% e eixo a 20 m, o recalque máximo estimado fica perto de 14 mm, pequeno o bastante para a maioria das construções. A obra monitora os prédios durante a passagem.

Qual a diferença entre NATM e tuneladora?

No NATM, a escavação é feita em etapas curtas e revestida com concreto projetado. Na tuneladora, uma máquina escava e monta anéis pré-moldados ao mesmo tempo, num ritmo contínuo.

Quanto custa um quilômetro de metrô?

Na base do Transit Costs Project, de cerca de US$ 61 milhões a cerca de US$ 380 milhões por quilômetro nos exemplos citados aqui, conforme o país e a obra. A Linha 4 do Rio ficou na parte alta da faixa.

O planejamento de um túnel urbano é, no fundo, a gestão de um volume perdido: o pouco de solo que se move antes de o revestimento segurar decide o recalque de todos os prédios acima. Ao avaliar uma obra de metrô, a pergunta que mais importa é como o terreno foi investigado e monitorado, porque é ali que os acidentes começam. Outras obras desse porte estão na lista das maiores obras de engenharia.

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