Placa de circuito eletrônico azul, vista de perto
Uma placa de circuito convencional, feita para durar. A eletrônica transiente busca o contrário. Foto: Umberto / Unsplash.

Sensores biodegradáveis: os implantes que medem e depois se dissolvem

Sensores biodegradáveis são dispositivos eletrônicos feitos para funcionar por um tempo determinado dentro do corpo e depois se dissolver, sem cirurgia de retirada. O exemplo mais avançado é um marcapasso temporário com 1,8 mm de largura e 3,5 mm de comprimento, menor que um grão de arroz, que é injetado por seringa. Nenhum desses dispositivos está em uso clínico: os estudos publicados são em animais e em corações de doadores.

Este artigo explica o problema que eles resolvem, do que são feitos, o que cada protótipo conseguiu medir e o que falta para chegarem aos hospitais. As fontes são os comunicados das universidades que publicaram os estudos, o instituto de saúde dos Estados Unidos (NIH) e o relatório da ONU sobre lixo eletrônico.

O problema: o implante que precisa sair

Muitos implantes são necessários só por dias ou semanas. Depois de uma cirurgia cardíaca, o paciente pode precisar de um marcapasso temporário até o coração retomar o ritmo. Depois de um traumatismo craniano, é preciso medir a pressão dentro do crânio durante a fase crítica. Em seguida, o aparelho tem de ser retirado.

A retirada é o risco. O comunicado da Universidade Northwestern sobre o marcapasso que se dissolve lista os problemas dos fios temporários usados hoje: infecção, deslocamento, dano ao tecido na hora de puxar, sangramento e coágulos. Um dispositivo que desaparece sozinho elimina essa segunda intervenção. Os implantes feitos para ficar, que seguem outra lógica, estão em sensores implantáveis no monitoramento cardíaco e em ligas metálicas em próteses.

Do que é feito um circuito que se dissolve

A eletrônica comum é projetada para não reagir com nada. A eletrônica transiente, nome técnico do campo, usa materiais que a água do corpo consome aos poucos:

  • Polímeros: plásticos como o PLGA e o PLLA, da mesma família dos fios de sutura absorvíveis, servem de base e de cápsula.
  • Metais: magnésio e molibdênio fazem os fios e os eletrodos.
  • Silício: em camadas extremamente finas, faz os componentes eletrônicos.

O tempo de vida é ajustado pela espessura e pela composição das camadas: mais material, mais tempo. O campo ganhou nome com um artigo de 2012 na revista Science, do grupo do pesquisador John Rogers. Não lemos esse artigo, e por isso não trazemos as taxas de dissolução de cada material. Polímeros de origem biológica aparecem também em Shrilk.

O que cada protótipo fez

Dispositivo Ano e origem O que fez Testado em
Sensor de pressão e temperatura no crânio 2016, Washington University e Illinois Mediu e transmitiu sem fio; dissolveu-se em poucos dias em solução salina Ratos
Sensor de pressão piezoelétrico 2018, Universidade de Connecticut Detectou a respiração por 4 dias, junto ao diafragma Camundongos
Estimulador de nervo 2018, Washington University e Northwestern Estimulou o nervo por 1 hora ao dia; absorvido em cerca de 2 semanas Ratos
Sensor de fluxo em artéria 2019, Stanford Detectou o bloqueio completo da artéria, sem bateria Rato
Marcapasso temporário 2021, Northwestern Estimulou o coração sem fios nem bateria; absorvido em 5 a 7 semanas Animais pequenos e grandes
Marcapasso do tamanho de um grão de arroz 2025, Northwestern Ativado por luz, injetável por seringa Animais e corações de doadores
Fontes: comunicados das universidades, NIH e Physics World.

O sensor do crânio. Segundo o comunicado da Washington University, é feito de PLGA e silício, mede pressão e temperatura dentro do crânio e manda os dados para um monitor externo. Os autores apontavam como próximo passo o teste em pacientes; não encontramos confirmação de que tenha ocorrido.

O sensor de pressão. Segundo o NIH, é um filme de PLLA entre eletrodos de molibdênio ou magnésio, com 5 mm por 5 mm e 0,2 mm de espessura. O PLLA é piezoelétrico: gera uma pequena tensão quando é pressionado, o mesmo princípio de alguns microfones. O protótipo ainda dependia de um fio até um amplificador externo.

O sensor de artéria. Envolve o vaso depois de uma cirurgia. A pulsação deforma o sensor e muda uma propriedade elétrica que um leitor externo consulta, como um leitor de crachá, conta a Universidade Stanford. A versão publicada só distinguia artéria aberta de artéria totalmente bloqueada.

Gráfico de barras da duração de três dispositivos: sensor de pressão com 4 dias de medição, estimulador de nervo com cerca de 14 dias até ser absorvido e marcapasso com 35 a 49 dias
O tempo de vida de cada dispositivo é definido no projeto, pela espessura e pela composição dos materiais.

Os dois marcapassos

O marcapasso de 2021 tem 250 micrômetros de espessura, um quarto de milímetro, e pesa menos de meio grama. Não tem bateria: recebe energia por indução, de uma antena externa, pela mesma tecnologia dos pagamentos por aproximação.

A versão de 2025 encolheu de outra forma. Com 1,8 mm por 3,5 mm por 1 mm, o volume da caixa que o contém é de 1,8 × 3,5 × 1 = cerca de 6 milímetros cúbicos. Segundo a Physics World, um dispositivo macio e sem fio, preso ao peito, acompanha o batimento e, quando detecta irregularidade, emite pulsos de luz infravermelha que atravessam o corpo e ativam o marcapasso. O alvo declarado são os bebês com defeito cardíaco congênito, cerca de 1% dos nascimentos, em quem os fios temporários comuns são grandes demais.

O que ainda falta

Controlar o relógio. O dispositivo precisa funcionar bem até o último dia útil e só então falhar. A dificuldade de projeto é que a água do corpo age sobre o aparelho desde o primeiro dia, e não só no último.

Energia e comunicação. Baterias comuns não se dissolvem. As soluções atuais transferem energia de fora, o que exige uma antena ou um emissor de luz junto ao corpo. Dois dos protótipos ainda tinham limitações básicas: um dependia de fio, o outro só dava resposta de sim ou não.

A prova em pessoas. Tudo o que lemos descreve testes em animais ou em corações de doadores. Os pesquisadores do estimulador de nervo foram diretos: ainda não é uma opção de tratamento, porque não foi testado em pessoas. Não encontramos registro de aprovação de nenhum desses dispositivos por agência reguladora.

Fora do corpo

A mesma ideia interessa a um problema maior. Segundo o relatório da ONU de 2024, o mundo gerou 62 milhões de toneladas de lixo eletrônico em 2022, 82% a mais que em 2010, e só 22,3% foram documentados como coletados e reciclados. A projeção é de 82 milhões de toneladas em 2030.

Sensores que se degradam no solo depois de uma safra seriam uma parte pequena da resposta. A maior parte desse lixo são aparelhos comuns, de eletrodomésticos a brinquedos, para os quais a saída continua sendo reciclagem. Formas pouco convencionais de degradar materiais estão em reciclagem de plásticos por larvas.

Perguntas frequentes

O que são sensores biodegradáveis?

São dispositivos eletrônicos feitos de materiais que o corpo absorve, projetados para funcionar por dias ou semanas e depois se dissolver.

Para que servem?

Para monitorar ou tratar por pouco tempo, como medir a pressão no crânio depois de um trauma ou estimular o coração depois de uma cirurgia, sem precisar de retirada.

Do que são feitos?

De polímeros absorvíveis, como PLGA e PLLA, de metais como magnésio e molibdênio e de camadas muito finas de silício.

Já são usados em pacientes?

Não. Os estudos publicados que consultamos são em animais e em corações de doadores de órgãos.

Quanto tempo duram no corpo?

De dias a semanas, conforme o projeto. O marcapasso de 2021 é absorvido em 5 a 7 semanas.

Os sensores biodegradáveis invertem a meta da eletrônica, que sempre foi durar. A física já funciona em laboratório; o que falta é provar, em pessoas, que o aparelho some na hora certa. Outras tecnologias avaliadas pelo que já entregam estão em inovações tecnológicas na engenharia.

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