Turbina eólica de eixo vertical
Turbina eólica de eixo vertical. Foto: FunkyCanute / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.

Turbina eólica vertical: como funciona e quanto gera

Uma turbina eólica de eixo vertical gira em torno de um eixo em pé, como um carrossel, e por isso recebe vento de qualquer direção sem precisar se virar. A ideia é antiga e atraente, principalmente para telhados e cidades. Mesmo assim, todos os grandes parques eólicos do mundo usam o outro tipo, de eixo horizontal, com três pás voltadas para o vento.

Este artigo explica como funcionam as turbinas eólicas de eixo vertical, com a fórmula da potência do vento, uma conta com uma turbina pequena e os números das maiores já construídas. As fontes são as patentes originais, a Hydro-Québec, o laboratório Sandia, do governo americano, um ensaio de campo com turbinas em telhados no Reino Unido e a ABEEólica.

Quanta potência o vento carrega

A potência do vento que atravessa uma área é:

P = 0,5 × ρ × A × v³

em que ρ é a densidade do ar (1,225 kg/m³ na atmosfera padrão ao nível do mar), A é a área varrida pelo rotor e v é a velocidade do vento. A fórmula está em qualquer curso de energia eólica, como o da Universidade de Illinois.

Nenhuma turbina aproveita tudo. O limite teórico, o limite de Betz, é 16 ÷ 27 ≈ 59,3% da potência do vento, e na prática o melhor que se consegue fica abaixo de 50%, segundo a mesma aula. A fração aproveitada chama-se coeficiente de potência.

O termo que manda é a velocidade ao cubo. Com metade do vento, a potência cai para 0,5³ = 0,125, um oitavo. É esse cubo que decide o destino das turbinas de telhado, como se vê adiante.

Os dois princípios: arrasto e sustentação

Savonius. Patenteada pelo finlandês Sigurd Savonius (patente americana 1.697.574, de 1929), parece um tambor cortado ao meio com as metades deslocadas. O vento empurra a face côncava com mais força que a convexa, e a diferença faz o rotor girar. É uma máquina de arrasto: a pá nunca anda muito mais rápido que o vento. Parte sozinha, sem ajuda externa, é simples e robusta, e aproveita pouco da energia.

Darrieus. Patenteada pelo francês Georges Darrieus (patente americana 1.835.018, de 1931), usa pás com perfil de asa. Em movimento, cada pá gera sustentação, como a asa de um avião, e essa força puxa a pá para a frente. A pá anda várias vezes mais rápido que o vento, e o rendimento é bem maior. O formato clássico é o de batedeira de ovos, com pás curvas presas em cima e embaixo. A variante de pás retas é o rotor H, e a de pás torcidas, a helicoidal.

Um levantamento antigo hospedado pela NASA resume a diferença: a Savonius parte sozinha, e a Darrieus daquela época não partia sozinha (Vance, anais de um seminário de energia eólica dos anos 1970). O mesmo trabalho estima rendimento de cerca de 35% para a Darrieus e 31% para a Savonius, este último um número otimista para um rotor de arrasto. Uma revisão mais recente sobre o rotor H registra o mesmo problema de partida: baixo torque inicial e possível falha em partir mesmo sem carga (Du, Ingram e Dominy, Universidade de Durham).

Característica Savonius Darrieus e rotor H Eixo horizontal (três pás)
Força que move a pá arrasto sustentação sustentação
Parte sozinha sim em geral, não sim
Precisa se alinhar ao vento não não sim
Gerador na base do rotor na base do rotor no alto da torre
Rendimento o mais baixo dos três intermediário o mais alto, abaixo de 50%
Uso hoje ventilação, sinalização, pequenas cargas turbinas pequenas e pesquisa todos os grandes parques

A conta de uma turbina pequena

Tome um rotor H de 3,0 m de diâmetro e 3,6 m de altura, medidas típicas de um modelo comercial de 3 kW. A área varrida de um rotor H é um retângulo: 3,0 × 3,6 = 10,8 m².

Com vento de 10 m/s: P = 0,5 × 1,225 × 10,8 × 10³ = 6.615 W de potência no vento. Com coeficiente de potência de 0,35 (premissa nossa, o valor do levantamento citado acima, otimista para uma turbina pequena e sem contar as perdas do gerador), a turbina entregaria 6.615 × 0,35 ≈ 2,3 kW.

Só que 10 m/s é vento firme, de 36 km/h. Com 5 m/s, a potência no vento é 0,5 × 1,225 × 10,8 × 5³ ≈ 827 W, e a turbina entregaria 827 × 0,35 ≈ 290 W. Metade do vento, um oitavo da potência. Uma casa que quer saber o que isso representa pode comparar com a lista de o que consome mais energia elétrica em casa.

Gráfico da potência do vento num rotor de 10,8 metros quadrados: 827 W a 5 m/s, 2.791 W a 7,5 m/s e 6.615 W a 10 m/s
Potência disponível no vento para um rotor de 10,8 m², com ar a 1,225 kg/m³. Conta nossa.

O que os testes em telhados mostraram

O vento na cidade é fraco e turbulento, porque os prédios o freiam e desviam. Dois levantamentos mediram o resultado.

No Reino Unido, os ensaios de Warwick acompanharam 26 turbinas montadas em edifícios, de cinco fabricantes, em 2007 e 2008. O fator de capacidade médio foi de 0,85% contando os períodos em que as turbinas ficaram desligadas, e de 4,15% considerando só o tempo em operação. A melhor turbina produziu o equivalente a 869 kWh em um ano, segundo o relatório final. Fator de capacidade é a energia gerada dividida pela que a turbina geraria na potência nominal o tempo todo. As previsões feitas com a velocidade do mapa de ventos britânico, sem correção, e as curvas dos fabricantes erraram para mais por um fator de 15 a 17. As turbinas do ensaio eram microturbinas de eixo horizontal; nenhuma era de eixo vertical. O problema medido é o vento urbano, que afeta qualquer tipo de turbina.

Nos Estados Unidos, um levantamento do laboratório nacional de energia renovável concluiu que nenhum dos projetos estudados em ambiente construído atingiu a produção estimada (NREL, 2017).

Os próprios fabricantes dão a pista. A ficha da Quietrevolution QR6, uma turbina helicoidal de 5,5 m de altura e 3,1 m de diâmetro, recomenda vento médio anual mínimo de 5 m/s e informa partida com vento sustentado de 4,5 m/s (ficha do modelo). É um vento que poucos telhados urbanos têm.

As gigantes que já existiram

Turbinas de eixo vertical grandes foram construídas e funcionaram.

A maior foi a Éole, em Cap-Chat, no Canadá: uma Darrieus de 4 MW, com rotor de 96 m de altura e 64 m de diâmetro no meio, que operou comercialmente de março de 1988 a abril de 1993 e gerou cerca de 12.000 MWh, segundo a Hydro-Québec. Dá para estimar o fator de capacidade. De março de 1988 a abril de 1993 são cerca de 5,1 anos, ou 44.700 horas. A 4 MW o tempo todo seriam 4 × 44.700 ≈ 179.000 MWh. A turbina gerou 12.000 ÷ 179.000 ≈ 7% disso (conta nossa). A Éole era um protótipo experimental, e a fonte não informa quanto tempo ela ficou parada.

Como referência, apenas ilustrativa, os parques eólicos brasileiros, todos de eixo horizontal, tiveram fator de capacidade médio de 37% em 2025, com 36,0 GW instalados em 1.161 usinas, segundo o boletim anual da ABEEólica.

Nos Estados Unidos, o laboratório Sandia operou no Texas uma Darrieus de pesquisa com 34 m de diâmetro, 50 m de altura e 500 kW, inaugurada em maio de 1988 e desativada em 1998, segundo uma apresentação do próprio laboratório. O estudo dessa tecnologia no Sandia começou nos anos 1970 e terminou nos anos 1990, segundo o relatório retrospectivo do laboratório.

Turbina Éole, a maior de eixo vertical já construída, em Cap-Chat, no Canadá
A Éole, em Cap-Chat, no Canadá, a maior turbina de eixo vertical já construída. Foto: Pierre5018 / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

Por que o eixo horizontal venceu

A explicação a seguir é raciocínio de engenharia a partir do funcionamento das duas máquinas. Não conseguimos abrir o texto integral do relatório do Sandia para citar as conclusões dele.

Numa turbina de eixo horizontal, cada pá encontra o vento em ângulo quase constante ao longo da volta. Numa de eixo vertical, a pá muda de posição em relação ao vento o tempo todo: numa parte da volta trabalha a favor, noutra quase não produz, e na metade de trás atravessa o ar já perturbado pela metade da frente. A força sobre a pá sobe e desce a cada giro. Isso tem dois custos. O rendimento médio fica menor, e a estrutura sofre carga alternada milhões de vezes, que é a receita da fadiga do material.

Soma-se a isso a altura. O vento é mais forte longe do chão, e uma turbina horizontal põe o rotor inteiro no alto da torre. Um rotor vertical grande, apoiado no chão, fica com boa parte das pás perto do solo, no vento mais fraco. Como a potência vai com o cubo da velocidade, a perda é grande. O funcionamento do tipo vencedor está em como funcionam as turbinas eólicas.

Onde o eixo vertical ainda pode ter lugar

Turbinas próximas umas das outras. Turbinas horizontais precisam de muito espaço entre si, e por isso os parques rendem de 2 a 3 W por metro quadrado de terreno. Um experimento do pesquisador John Dabiri com seis turbinas verticais de 10 m de altura, postas bem juntas e girando em sentidos opostos, mediu média diária de 21 a 47 W/m² com vento acima do de partida (6 a 30 W/m² no total) nos 48,6 m² ocupados, e calculou cerca de 18 W/m² para um parque hipotético (artigo de 2011). É um resultado de campo pequeno, ainda sem parque comercial que o confirme.

Mar profundo. Numa plataforma flutuante, ter o gerador embaixo baixa o centro de gravidade, e não precisar de mecanismo para virar o rotor simplifica a máquina, argumentos listados pelo Sandia na apresentação citada. A empresa sueca SeaTwirl, que planejava uma turbina flutuante de 1 MW na Noruega, informou em setembro de 2026 que essa unidade não foi construída e que o recurso público restante passou para um projeto europeu de uma turbina flutuante de 2 MW, com prazo até 2029 (comunicado da empresa). A tecnologia segue em fase de protótipo. Os parques no mar que já operam usam eixo horizontal, como se vê em como funciona o maior parque eólico offshore do mundo.

Perguntas frequentes

Turbina eólica vertical vale a pena em casa?

Na maioria dos telhados urbanos, não. O vento é fraco e turbulento, e os ensaios de campo mediram produção muito abaixo da prometida. Em sítio aberto, com vento médio acima de 5 m/s medido no local, a conta muda. Meça o vento antes de comprar.

Qual a diferença entre Savonius e Darrieus?

A Savonius é empurrada pelo vento (arrasto), parte sozinha e rende pouco. A Darrieus usa pás em forma de asa (sustentação), rende mais e em geral precisa de ajuda para partir.

Turbina vertical faz menos barulho?

É um argumento comum dos fabricantes. Não encontramos medição independente em fonte primária, e por isso este artigo não afirma nem nega.

Por que os parques eólicos não usam eixo vertical?

Porque o eixo horizontal aproveita mais o vento, tem carga aerodinâmica mais regular e alcança o vento mais forte no alto da torre.

Qual foi a maior turbina de eixo vertical?

A Éole, no Canadá, de 4 MW, com rotor de 96 m de altura. Operou de 1988 a 1993.

A turbina eólica de eixo vertical aceita vento de qualquer lado e deixa o gerador no chão, e paga por isso com rendimento menor e esforço alternado nas pás. A fórmula do vento explica o resto: como a potência depende do cubo da velocidade, o lugar pesa mais que o tipo de turbina. Outras fontes de geração estão em o que é energia solar.

Imagem de destaque: Turbina eólica de eixo vertical. Foto: FunkyCanute / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.

Posts Similares