Painel digital e volante de um carro elétrico
Painel de um carro elétrico. Foto: Obi / Unsplash.

Frenagem regenerativa: como o carro elétrico recicla energia

A frenagem regenerativa é o que permite a um carro elétrico reciclar energia ao frear. Quando o motorista alivia o acelerador ou pisa no freio, o motor elétrico passa a funcionar como gerador: as rodas giram o motor, o motor produz eletricidade, e essa eletricidade volta para a bateria. A resistência que o gerador oferece é o que desacelera o carro. Num carro comum, essa mesma energia viraria calor nos discos de freio.

Este artigo explica como funciona a frenagem regenerativa, quanta energia ela devolve segundo o governo americano, e as contas que mostram os limites: por que ela não substitui o freio comum numa freada de emergência. As fontes são o portal fueleconomy.gov, do Departamento de Energia dos Estados Unidos, a Nissan, a Bosch e a Fórmula E.

Como o motor vira gerador

Um motor elétrico e um gerador são a mesma máquina, usada em sentidos opostos. Com corrente entrando, ela produz torque e empurra o carro. Com o carro em movimento empurrando o eixo, ela produz corrente. O portal fueleconomy.gov descreve assim: ao frear, a inércia do veículo gira o motor-gerador, que produz eletricidade armazenada na bateria.

Quem comanda a troca é a eletrônica de potência, o inversor, que controla o sentido e a intensidade da corrente. O princípio da máquina está em como funcionam os motores elétricos. A mesma ideia de frear sem atrito, usando campo magnético, aparece nos freios magnéticos de trens.

Mostrador digital de um carro elétrico, onde aparece a energia gasta e recuperada
No mostrador de um elétrico, a regeneração aparece como energia voltando à bateria. Foto: Markus Spiske / Unsplash.

Quanta energia volta

O fueleconomy.gov publica o balanço de energia de um carro elétrico em três tipos de percurso. O número é a energia devolvida pela regeneração, como parcela da energia total que o carro consome, na conta do portal:

Gráfico de barras da energia devolvida pela frenagem regenerativa: 32% na cidade, 22% no percurso combinado e 6% na estrada
Energia que a regeneração devolve, como parcela do consumo total do carro elétrico, segundo o fueleconomy.gov.

Na estrada, a regeneração quase não conta, porque quase não se freia; o portal diz que ali ela oferece pouca vantagem. Na cidade, com paradas a cada quarteirão, ela devolve perto de um terço da energia consumida.

Esses percentuais são parcelas do consumo total, e não a eficiência da frenagem em si. Nenhuma das fontes primárias consultadas dá um número oficial para quanto da energia de cada freada volta às rodas; os valores de 60% a 70% que circulam não têm origem que pudéssemos conferir.

A conta de uma freada

A energia de movimento de um carro é metade da massa vezes o quadrado da velocidade. Para um elétrico compacto com motorista, 1.600 kg (premissa nossa; um BYD Dolphin pesa cerca de 1.500 kg vazio, segundo bases de fichas técnicas):

Velocidade Em m/s Energia de movimento Em Wh
40 km/h 11,1 99 kJ 27 Wh
60 km/h 16,7 222 kJ 62 Wh
100 km/h 27,8 617 kJ 171 Wh

A conta para 60 km/h: 0,5 × 1.600 × 16,67² ≈ 222.000 J. Dividindo por 3.600, dá 62 Wh. Parece pouco perto de uma bateria de 44,9 kWh, que guarda 44.900 Wh. Mas um carro desses gasta algo como 150 Wh por quilômetro (premissa nossa). Se metade dos 62 Wh voltar às rodas (premissa nossa, só para dar a escala), cada parada a partir de 60 km/h devolve 31 Wh, o bastante para 31 ÷ 150 ≈ 0,2 km, ou 200 m. Num trajeto urbano com dezenas de paradas, a soma aparece.

A velocidade entra ao quadrado: frear de 100 km/h libera 171 ÷ 62 ≈ 2,8 vezes a energia de frear de 60 km/h.

Em descida

Numa serra, a energia vem da altura: massa × gravidade × desnível. Para o mesmo carro descendo 500 m: 1.600 × 9,81 × 500 ≈ 7,8 milhões de joules, ou 2,2 kWh. É 2,2 ÷ 44,9 ≈ 5% da bateria do exemplo, antes das perdas e do que o ar e os pneus consomem. Por isso o painel de um elétrico pode mostrar a autonomia subindo numa descida longa.

Os limites: por que o freio comum continua lá

A potência

A potência de uma freada é massa × desaceleração × velocidade. Para o carro de 1.600 kg a 100 km/h (27,8 m/s):

Freada Desaceleração Potência no início
Suave, só aliviando o pedal 0,2 g (1,96 m/s²) 87 kW
Moderada 0,3 g (2,94 m/s²) 131 kW
De emergência 1 g (9,81 m/s²) 436 kW

As contas são nossas: 1.600 × 1,96 × 27,8 ≈ 87.000 W. Um compacto elétrico tem motor de 70 a 150 kW (faixa das versões do Dolphin nas mesmas bases). Numa freada suave ou moderada, o motor dá conta. Numa de emergência, a potência passa de 400 kW, várias vezes o que o motor e a bateria conseguem absorver, e quem faz o trabalho são os freios a disco.

Os dois valores da tabela não são arbitrários. A Nissan informa que o seu sistema de um pedal, o e-Pedal, desacelera até 0,2 g só com o alívio do acelerador. A Bosch informa que o seu servo-freio elétrico, o iBooster, combina freio regenerativo e freio de atrito em desacelerações de até 0,3 g, quando trabalha junto com o módulo de estabilidade para híbridos e elétricos da marca.

A bateria

A energia precisa de lugar para ir. Com a bateria cheia, não há onde guardar. Com a bateria fria, ela aceita menos corrente. Nos dois casos o carro reduz a regeneração. A Tesla trata disso em software: uma atualização de 2022 passou a oferecer a opção de aplicar o freio comum automaticamente quando a regeneração está limitada pela temperatura ou pela carga da bateria, para o carro desacelerar sempre do mesmo jeito, segundo a imprensa especializada.

A parada completa

Em velocidade muito baixa, o gerador quase não produz força. A Nissan informa que, no e-Pedal, os freios são aplicados automaticamente quando o carro para por completo, e é o freio de atrito que o segura numa ladeira.

Disco e pinça de freio de um carro, vistos de perto
O freio de atrito continua no carro elétrico, para as freadas fortes e a parada completa. Foto: Toby Hall / Unsplash.

Como o carro mistura os dois freios

O motorista pisa num pedal só. Um computador decide quanto da desaceleração pedida vem do motor e quanto vem das pastilhas, e muda essa proporção a cada instante. É a frenagem combinada. O pedal deixa de ter ligação direta com a pressão do fluido, e o sistema simula a resistência que o pé espera sentir.

Na condução com um pedal, aliviar o acelerador já freia o carro. A Nissan informa que, nesse modo, as luzes de freio acendem na desaceleração, como num carro convencional, para avisar quem vem atrás.

Um efeito colateral é o desgaste menor das pastilhas e dos discos, já que boa parte das freadas do dia a dia nem chega a usá-los. Não encontramos um número de fonte primária para essa redução.

O extremo: a Fórmula E

O carro da terceira geração da Fórmula E regenera até 600 kW, com um gerador de 250 kW na frente somado ao conjunto de 350 kW atrás. Segundo a categoria, mais de 40% da energia usada numa corrida vem da frenagem regenerativa, e o carro foi o primeiro monoposto de fórmula sem freios hidráulicos traseiros. A potência de regeneração, 600 kW, é maior que os 436 kW da freada de emergência do compacto da tabela.

Perguntas frequentes

O que é frenagem regenerativa?

É o uso do motor elétrico como gerador para desacelerar o carro, devolvendo à bateria parte da energia que se perderia como calor nos freios.

Quanta energia a frenagem regenerativa recupera?

Segundo o fueleconomy.gov, o equivalente a 32% da energia consumida em percurso urbano, 22% no combinado e 6% em estrada.

Carro elétrico ainda tem freio a disco?

Tem. O freio de atrito é necessário nas freadas fortes, com a bateria cheia ou fria e para parar e segurar o carro.

A frenagem regenerativa funciona com a bateria cheia?

Pouco ou nada. Sem espaço para guardar energia, o carro reduz a regeneração e usa mais o freio comum.

Carro híbrido também tem frenagem regenerativa?

Sim. O princípio é o mesmo: o motor elétrico do híbrido gera energia ao frear e a guarda numa bateria menor.

A frenagem regenerativa aproveita uma energia que já foi paga na tomada: devolve muito na cidade, pouco na estrada, e nunca dispensa o freio de atrito, porque a potência de uma freada forte é maior que a do motor. A outra ponta do sistema, onde essa energia fica guardada, está em baterias de grafeno, e a alternativa à bateria, em células de combustível.

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