Trem de alta velocidade ICE 3, que usa freio magnético de correntes parasitas
Trem ICE 3, da Deutsche Bahn. Foto: Nico Ruge / Unsplash.

Freio magnético em trens: como funciona e quanto freia

Um trem freia pelas rodas, e a roda de aço sobre o trilho de aço agarra pouco. O freio magnético existe para contornar esse limite: ele age direto no trilho, sem depender do contato entre roda e trilho. Há dois tipos. O freio de sapata magnética encosta no trilho e freia por atrito. O freio de correntes parasitas fica a milímetros do trilho e freia sem tocar em nada.

Este artigo explica como funciona o freio magnético em trens, com os números de catálogo de um fabricante (Knorr-Bremse), os limites de norma e quatro contas: a desaceleração máxima pelas rodas, a distância de parada, a potência que um freio de correntes parasitas joga no trilho e a energia de um trem a 300 km/h. Ele trata de trens e bondes sobre trilhos; trens de levitação magnética ficam de fora, por falta de fonte primária.

Por que o freio das rodas não basta

A força máxima que uma roda consegue transmitir ao trilho é o peso sobre ela multiplicado pelo coeficiente de aderência. Na Europa, a regra de projeto para trens é não contar com aderência maior que 0,15 no cálculo da frenagem (entre 30 e 250 km/h; acima disso o limite cai), segundo o guia da Agência Ferroviária da União Europeia. Com esse valor, a maior desaceleração possível pelas rodas é:

a = 0,15 × 9,81 ≈ 1,47 m/s²

Um carro em asfalto seco freia várias vezes mais forte. Para um trem a 160 km/h (44,4 m/s), a distância mínima de parada, usando toda a aderência do início ao fim, é d = v² ÷ (2 × a) = 44,4² ÷ (2 × 1,47) ≈ 671 m (conta nossa, sem tempo de reação nem de aplicação do freio).

E a aderência piora com a velocidade. No Japão, o limite de aderência adotado no planejamento da frenagem dos trens-bala, um valor conservador, segue a fórmula 13,6 ÷ (V + 85), com V em km/h, segundo um artigo técnico da Japan Railway & Transport Review. A 100 km/h, ela dá 13,6 ÷ 185 ≈ 0,074; a 300 km/h, 13,6 ÷ 385 ≈ 0,035. Com chuva, folhas ou gelo no trilho, apertar mais o freio só faz a roda travar e deslizar. O sistema que evita isso é parente do que está em como funcionam os freios ABS.

Um freio que age no trilho, e não na roda, escapa dessa conta. É o que diz a literatura técnica: o freio de trilho não atua nas rodas e por isso consegue gerar força de frenagem adicional mesmo com pouca aderência (Pfaff, Railway Brake Systems, Springer, 2025).

Truque de vagão de passageiros com freio de sapata magnética entre as rodas
Truque de um vagão de passageiros suíço com freio de sapata magnética, a barra entre as rodas. Foto: Markus Giger / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

Freio de sapata magnética: o ímã que agarra o trilho

É o tipo mais comum, presente em bondes, metrôs leves e trens de passageiros. Entre as rodas de cada truque fica pendurada uma barra com eletroímãs. Em trens, ela fica recolhida a alguns centímetros do trilho e é baixada na hora de frear; em bondes, fica a cerca de 1 cm, e a própria atração a puxa. Com a corrente nas bobinas, o ímã gruda no trilho. A frenagem vem do atrito entre as sapatas do ímã e a cabeça do trilho. Um artigo da revista Meccanica o define como um freio de contato, por atrito, acionado por eletroímã e usado tipicamente como freio de emergência.

O catálogo da Knorr-Bremse dá a escala. O modelo para trens regionais e de alta velocidade pesa 125 kg por metro e tem força de 90 kN por metro. Esse número é a força de atração entre o ímã e o trilho. A força de frenagem é a atração multiplicada pelo coeficiente de atrito, que é de 0,20 com o trem quase parado, cai para 0,11 a 50 km/h e para cerca de 0,05 a 200 km/h, segundo um estudo publicado no Open Transportation Journal. A 50 km/h: 90 × 0,11 ≈ 10 kN de frenagem por metro de ímã; a 200 km/h, 90 × 0,05 ≈ 4,5 kN (contas nossas).

Por ser um freio de atrito, ele gasta sapata e trilho, e por isso fica reservado para emergências. Também não costuma ser usado até a parada total: em baixa velocidade o conjunto entra em vibração forte, segundo o mesmo artigo da Meccanica.

No bonde, ele é obrigatório

Bondes dividem a rua com carros e pedestres e precisam parar em distâncias de carro. A norma alemã para bondes (BOStrab, parágrafo 36) exige que veículos que circulam em vias compartilhadas tenham um freio independente da aderência entre roda e trilho. Na prática, é a sapata magnética. A tabela da mesma norma pede, numa frenagem de emergência a 70 km/h, parada em 69 m (veículo vazio, em via reta, plana e seca), o que dá 2,73 m/s². Dividindo por 9,81, isso equivale a uma aderência de 0,28, quase o dobro dos 0,15 que se pode contar nas rodas de um trem.

Esquema dos dois freios magnéticos de trem: a sapata magnética, que encosta no trilho, e o freio de correntes parasitas, que fica a 5 a 7 milímetros dele
A sapata magnética freia por atrito com o trilho; o freio de correntes parasitas, pelas correntes que induz nele, sem contato. Desenho esquemático.

Freio de correntes parasitas: frear sem encostar

O segundo tipo usa a mesma barra de eletroímãs, mas ela para a poucos milímetros do trilho, sem tocar. Os polos do ímã se alternam ao longo da barra. Com o trem em movimento, o campo magnético varia em cada ponto do trilho e induz nele correntes elétricas em redemoinho, as correntes parasitas. Essas correntes criam um campo que se opõe ao movimento, e o resultado é uma força que segura o trem. A energia do movimento vira calor dentro do trilho.

Os números do catálogo da Knorr-Bremse para uma unidade:

Característica Sapata magnética (linha para trens) Correntes parasitas
Contato com o trilho sim, por atrito não
Distância do trilho em ação zero cerca de 5 a 7 mm
Massa 125 kg por metro 900 kg por unidade de 1,54 m
Força 90 kN por metro (atração) 21 kN de frenagem por unidade, a 200 km/h
Desgaste sapata e trilho nenhum
Uso típico emergência serviço e emergência, em alta velocidade
Depende da aderência roda-trilho não não

A distância, de aproximadamente 5 a 7 mm, é a citada para trens ICE 3 modificados num projeto de pesquisa financiado pela União Europeia.

A conta da potência

Potência é força vezes velocidade. A 200 km/h (55,6 m/s), uma unidade que freia com 21 kN dissipa 21.000 × 55,6 ≈ 1.170.000 W, ou 1,17 MW (conta nossa). Essa potência sai da energia de movimento do trem e vira calor no trilho. A unidade em si consome no máximo 86 kW de eletricidade, segundo o catálogo, só para manter o campo magnético: 86 ÷ 1.170 ≈ 7% do que ela freia.

Em desaceleração: num trem de 410 t, como o ICE 3 da ficha da Deutsche Bahn, cada unidade contribui com 21.000 ÷ 410.000 ≈ 0,05 m/s². Oito unidades (premissa nossa, só para a ordem de grandeza; o trem real pode ter mais) somariam 0,41 m/s², sem usar nada da aderência das rodas.

Os efeitos colaterais

O calor fica no trilho. O modelo do mesmo projeto europeu, validado com ensaios em linha, prevê aquecimento de até 18 °C no trilho no pior caso (a 120 km/h, com o freio em capacidade máxima). Numa linha com muitos trens freando no mesmo ponto, o calor se acumula, e o trilho quente se dilata. O projeto também mediu a influência do campo magnético sobre contadores de eixos e sensores de roda da sinalização: os equipamentos testados funcionaram, mas alguns sofreram influência bem maior que os outros. Por isso o uso desse freio depende de a linha ser compatível com ele.

Há ainda um limite de velocidade. A força das correntes parasitas depende do movimento: o freio rende melhor entre 50 e 250 km/h, segundo o estudo do Open Transportation Journal, e perde efeito conforme o trem fica lento. Ele não segura um trem parado.

Freio de correntes parasitas de um trem ICE 3 abaixado sobre o trilho
Freio de correntes parasitas em posição de frenagem, junto ao trilho. Foto: Sebastian Terfloth User:Sese_Ingolstadt / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.

Quanta energia há para dissipar

Um trem-bala da série 500, com 16 carros e lotado, pesa cerca de 509 t, e pará-lo a partir de 300 km/h exige absorver 1,77 bilhão de joules, segundo a Japan Railway & Transport Review. A conta é a da energia cinética, E = m × v² ÷ 2, com 300 km/h = 83,3 m/s: 509.000 × 83,3² ÷ 2 ≈ 1,77 × 10⁹ J.

Para o ICE 3, de 410 t, a mesma conta dá 410.000 × 83,3² ÷ 2 ≈ 1,42 × 10⁹ J. Em unidades de conta de luz: 1,42 × 10⁹ ÷ 3.600.000 ≈ 395 kWh (conta nossa) por parada.

Nenhum freio magnético recupera essa energia. Quem recupera é o freio regenerativo, em que os motores de tração viram geradores e devolvem eletricidade à rede, o mesmo princípio de como os carros elétricos reciclam energia ao frear. Só que o freio regenerativo age pelas rodas e esbarra no limite de aderência. Os freios magnéticos entram como complemento, quando a aderência não dá conta ou quando a parada é de emergência.

Onde cada freio entra

Um trem moderno combina vários sistemas. O freio regenerativo faz a maior parte do trabalho no dia a dia. O freio pneumático, com discos ou sapatas, completa a frenagem e segura o trem parado; o princípio está em como funcionam os sistemas de frenagem a ar e em como funcionam os freios a disco. A sapata magnética fica para a emergência. O freio de correntes parasitas aparece em poucos trens de alta velocidade, como o ICE 3, em linhas compatíveis.

No Japão, a história teve um desvio. Os carros sem motor do trem-bala da série 100, de 1985, usavam freios de disco por correntes parasitas, em que o disco gira dentro de um campo magnético, segundo outro artigo da Japan Railway & Transport Review. Com a evolução dos motores e da frenagem regenerativa, os carros motorizados passaram a dar conta sozinhos, e esse equipamento se tornou desnecessário. A história desses trens está em o Shinkansen, o trem-bala japonês.

Perguntas frequentes

Como funciona o freio magnético de um trem?

Um eletroímã montado no truque age sobre o trilho. No tipo de sapata, ele gruda no trilho e freia por atrito. No tipo de correntes parasitas, fica a poucos milímetros e freia pelo campo magnético, sem contato.

Freio magnético é o mesmo que freio regenerativo?

Não. O regenerativo usa os motores do trem como geradores e devolve energia à rede. O magnético transforma a energia em calor, no trilho ou na sapata, e não recupera nada.

O freio magnético gasta o trilho?

O de sapata, sim: é atrito de aço contra aço, e por isso é usado só em emergência. O de correntes parasitas não encosta e não gasta, mas aquece o trilho.

Todo trem tem freio magnético?

Não. Bondes costumam ter, por exigência de norma. Em trens de passageiros ele é comum como freio de emergência. O de correntes parasitas existe em poucos modelos de alta velocidade.

O freio magnético segura o trem parado?

O de correntes parasitas não, porque só gera força com o trem em movimento. Para estacionar, o trem usa freios de atrito convencionais.

O freio magnético resolve um problema que vem do próprio trem: a roda de aço agarra pouco no trilho. A sapata magnética troca a aderência por atrito direto, e o freio de correntes parasitas troca por indução, sem contato e sem desgaste, ao custo de aquecer o trilho. Outros sistemas explicados com a conta feita estão em como funciona a engenharia.

Posts Similares