Gelo que não derrete? Conheça o Jelly Ice, a gelatina reutilizável que mantém tudo gelado
Pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Davis (UC Davis), desenvolveram um processo inovador que transforma gelatina em um material reutilizável capaz de substituir o gelo convencional, um “gelo que não derrete”, ou Jelly ice.
O chamado “jelly ice” é produzido em uma única etapa a partir de gelatina — o mesmo ingrediente usado em sobremesas gelatinosas. Diferente do gelo tradicional, ele não derrete em água ao descongelar, o que o torna uma alternativa sustentável e prática para a cadeia de alimentos e o transporte de medicamentos. Além disso, é um material compostável, podendo ser descartado sem prejudicar o meio ambiente.
A ideia surgiu a partir de uma inquietação da professora de ciência e tecnologia de alimentos, Luxin Wang, que observou o gelo derretendo em expositores de frutos do mar em supermercados. O problema estava na água acumulada, capaz de espalhar patógenos e contaminar toda a vitrine. A partir disso, ela lançou o desafio para os pesquisadores Jiahan Zou e Gang Sun, que iniciaram o desenvolvimento do material.
Além da aplicação como gelo reutilizável, a equipe também investiga estruturas à base de proteínas para revestimentos seguros em alimentos e até como suportes para carne cultivada em laboratório.
Um Short do YouTube da série Headline Science apresenta os detalhes da pesquisa de Zou
Tofu congelado: a inspiração para o desenvolvimento do “jelly ice”
A ideia para o novo material surgiu a partir da observação do tofu congelado. O professor Gang Sun, que orientou a pesquisa de doutorado de Jiahan Zou, explicou: “O tofu mantém a água em seu interior quando congelado, mas, ao descongelar, libera todo o líquido. Tentamos resolver esse problema com outro material: a gelatina.”
As proteínas da gelatina apresentam duas características essenciais para o projeto: são seguras para uso em alimentos e possuem cadeias longas que se conectam, formando hidrogéis com minúsculos poros capazes de reter água — diferentemente do tofu. Nos primeiros testes, esses hidrogéis mostraram-se eficazes: conseguiram manter a água dentro da estrutura mesmo durante as mudanças de fase (líquido ↔ gelo), sem sofrer danos ou liberar líquido.
Com o passar dos anos, Zou aperfeiçoou a fórmula e o método de produção desses hidrogéis à base de gelatina. Hoje, ela conta com um processo prático de uma única etapa para criar o jelly ice, composto por 90% de água. O material pode ser lavado repetidas vezes com água ou solução diluída de água sanitária, congelado e descongelado sem perder sua integridade.
Em temperatura ambiente, o jelly ice apresenta textura macia e gelatinosa. Porém, ao ser resfriado abaixo de 0 °C (32 °F), adquire uma consistência mais firme, semelhante ao gelo tradicional.
Segundo Zou, o desempenho também é promissor: “Comparado ao gelo comum do mesmo tamanho e formato, o jelly ice oferece até 80% da eficiência de resfriamento, ou seja, a capacidade de absorver calor durante a mudança de fase. Além disso, pode ser reutilizado em vários ciclos de congelamento e descongelamento, mantendo essa eficiência, o que é uma vantagem em relação ao gelo convencional.”

O “jelly ice” é um material de resfriamento reutilizável e compostável que não derrete e vira bagunça como o gelo comum. (Cortesia de Zou)
Produção, aplicações e futuro do jelly ice
A equipe de pesquisadores já consegue produzir o jelly ice em blocos de aproximadamente 0,45 kg (1 libra), semelhantes às bolsas de gel refrigerante encontradas no mercado, mas sem a necessidade de capas plásticas volumosas. Além disso, o novo material apresenta vantagens importantes em relação ao gelo seco e aos packs tradicionais: pode ser moldado em diferentes formatos e tamanhos e, ao final de sua vida útil, é compostável.
Em experimentos, quando o gel descartado foi incorporado ao solo, houve melhora no crescimento de plantas de tomate, demonstrando um potencial agrícola adicional. Outro benefício é que o jelly ice não contém polímeros sintéticos, o que significa que não gera microplásticos.
Embora tenha sido inicialmente projetado para a conservação de alimentos, o material mostra aplicações promissoras em setores como o transporte de medicamentos, a biotecnologia e até em regiões com acesso limitado à água, onde a produção de gelo convencional é inviável.
Atualmente, a tecnologia já conta com licenças em andamento, e a pesquisadora Jiahan Zou espera que, em breve, o produto esteja disponível comercialmente como uma alternativa sustentável, segura para contato com alimentos e livre de água de derretimento. No entanto, ainda há etapas importantes a serem concluídas, como análises de mercado, ajustes no design do produto e testes em produção em larga escala.
Paralelamente, Zou tem expandido suas pesquisas para outros biopolímeros naturais, especialmente proteínas vegetais obtidas de subprodutos agrícolas, como a soja. Seu objetivo é desenvolver materiais sustentáveis aplicáveis em revestimentos removíveis para superfícies e em estruturas celulares usadas na produção de carne cultivada em laboratório.
“Durante minhas pesquisas, percebi a força da própria natureza na criação de biopolímeros e as inúmeras possibilidades que eles oferecem”, afirma Zou. “Acredito que veremos produtos surpreendentes baseados nesses materiais, pois eles mesmos estão nos mostrando como trabalhar com eles.”
Os resultados mais recentes sobre o jelly ice e os avanços em biopolímeros foram apresentados por Zou no encontro de outono da American Chemical Society, realizado entre 17 e 21 de agosto de 2025.
O desenvolvimento do jelly ice contou com o apoio financeiro de diferentes instituições. O projeto recebeu recursos do National Institute of Food and Agriculture, ligado ao Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), além de um Henry A. Jastro Graduate Research Award, concedido pela Universidade da Califórnia, Davis. Também obteve financiamento por meio do Food Systems Innovation Award, promovido pelo Innovation Institute for Food and Health da mesma universidade. Com conteúdo de ACS
Equipe 41 Ideias
