Projeto elétrico residencial passo a passo: cargas, circuitos, fios e disjuntores pela NBR 5410
Um projeto elétrico residencial segue quatro passos: levantar as cargas mínimas de cada cômodo pela NBR 5410, dividir essas cargas em circuitos, dimensionar fio e disjuntor de cada circuito e conferir a queda de tensão. No fim, o projeto vira planta com os pontos, diagrama unifilar, quadro de cargas e memorial, assinados por um profissional habilitado, com ART no CREA ou TRT no conselho dos técnicos. Este artigo faz os quatro passos para uma casa pequena, com as contas abertas.
O exemplo é didático e não substitui o projeto de um engenheiro eletricista ou técnico habilitado: a instalação real depende do padrão da distribuidora, do traçado dos eletrodutos e de equipamentos que a casa terá.
Passo 1: as cargas mínimas de cada cômodo
A NBR 5410 fixa um mínimo de iluminação e de tomadas por cômodo, segundo a apresentação técnica do Procobre:
- Iluminação: 100 VA para os primeiros 6 m² e mais 60 VA a cada 4 m² inteiros acima disso. Esse número serve para dimensionar o circuito, e a quantidade de lâmpadas que deixa o cômodo bem iluminado sai de outra conta, a de lux e lúmens.
- Tomadas em salas e quartos: uma a cada 5 m de perímetro ou fração, com 100 VA cada.
- Tomadas em cozinha, copa, área de serviço e lavanderia: uma a cada 3,5 m de perímetro ou fração; as três primeiras com 600 VA e as demais com 100 VA.
- Banheiro: pelo menos uma tomada perto da pia, com 600 VA.
A casa do exemplo, com as contas feitas cômodo a cômodo:
| Cômodo | Medidas | Iluminação | Tomadas |
|---|---|---|---|
| Sala | 3,5 × 4 m: 14 m², perímetro 15 m | 100 + 2 × 60 = 220 VA | 15 / 5 = 3 pontos: 300 VA |
| Quarto 1 | 3 × 3 m: 9 m², perímetro 12 m | 100 VA | 12 / 5 = 2,4, arredondado para 3: 300 VA |
| Quarto 2 | 3 × 4 m: 12 m², perímetro 14 m | 100 + 60 = 160 VA | 14 / 5 = 2,8, arredondado para 3: 300 VA |
| Cozinha | 3 × 3 m: 9 m², perímetro 12 m | 100 VA | 12 / 3,5 = 3,4, arredondado para 4: 3 × 600 + 100 = 1.900 VA |
| Banheiro | 2 × 1,5 m: 3 m² | 100 VA | 1 ponto: 600 VA |
| Área de serviço | 2 × 1,5 m: 3 m², perímetro 7 m | 100 VA | 7 / 3,5 = 2 pontos: 1.200 VA |
| Total | 780 VA | 4.600 VA |
Somando o chuveiro de 5.500 W, a carga instalada da casa fica em cerca de 10.900 VA. Equipamentos fixos de potência alta, como forno elétrico ou ar-condicionado, entram nessa soma com a potência de placa. Quanto cada aparelho pesa no consumo mensal está no artigo sobre o que mais consome energia em casa.

Passo 2: dividir em circuitos
A norma traz regras de separação, segundo O Setor Elétrico:
- iluminação e tomadas ficam em circuitos separados (item 4.2.5.5), com uma exceção residencial: podem dividir circuito se a corrente de projeto não passar de 16 A e se nem toda a iluminação nem todas as tomadas ficarem num circuito só (item 9.5.3.3);
- todo equipamento com corrente acima de 10 A ganha circuito próprio (item 9.5.3.1), o que inclui o chuveiro;
- as tomadas de cozinha, copa, área de serviço e lavanderia ficam em circuitos só delas (item 9.5.3.2).
Para a casa do exemplo, uma divisão possível tem cinco circuitos: iluminação; tomadas de sala, quartos e banheiro; tomadas da cozinha; tomadas da área de serviço; chuveiro.
Passo 3: fio e disjuntor de cada circuito
A regra de coordenação da norma é IB ≤ IN ≤ IZ: a corrente de projeto do circuito não pode passar da corrente nominal do disjuntor, que não pode passar da capacidade do fio, segundo o material de projeto residencial da UDESC. As capacidades de fio de cobre com isolação de PVC, embutido em eletroduto (método B1), com dois condutores carregados a 30 °C, segundo a tabela reproduzida pelo IFPR:
| Seção | Capacidade |
|---|---|
| 1,5 mm² | 17,5 A |
| 2,5 mm² | 24 A |
| 4 mm² | 32 A |
| 6 mm² | 41 A |
| 10 mm² | 57 A |
A norma também fixa seções mínimas: 1,5 mm² na iluminação e 2,5 mm² em circuitos de tomadas.
O chuveiro
- corrente: I = P / V = 5.500 / 220 = 25 A;
- fio de 6 mm², com capacidade de 41 A, e disjuntor de 32 A: 25 ≤ 32 ≤ 41, a regra fecha.
O fio de 4 mm², com 32 A, passaria pela regra só no limite, sem folga. E se o eletroduto do chuveiro levar outro circuito junto, a capacidade de cada fio cai por um fator de agrupamento da norma, e a conta precisa ser refeita com esse fator.
As tomadas da cozinha
- corrente: 1.900 / 127 ≈ 15 A, numa casa com tomadas em 127 V;
- fio de 2,5 mm², com 24 A, e disjuntor de 20 A: 15 ≤ 20 ≤ 24.
Passo 4: a queda de tensão
A norma limita a queda de tensão nos circuitos terminais a 4%, segundo a tabela técnica da SIL. Para um circuito monofásico com carga resistiva:
ΔV = 2 × ρ × L × I / S, com ρ = 0,01724 Ω·mm²/m para o cobre
Chuveiro a 15 m do quadro, com fio de 6 mm²: ΔV = 2 × 0,01724 × 15 × 25 / 6 ≈ 2,2 V, cerca de 1% de 220 V, bem abaixo dos 4%. O mesmo chuveiro a 40 m daria cerca de 5,7 V, ou 2,6%, ainda dentro do limite (contas nossas). Em casas grandes ou com o quadro longe dos banheiros, essa conta passa a decidir a seção do fio.
Proteções que a norma exige
- DR de 30 mA: obrigatório em circuitos de cômodos com chuveiro ou banheira, em tomadas externas e, nas residências, em cozinha, área de serviço, lavanderia, garagem e outras áreas molhadas, segundo material da UDESC sobre choque elétrico. O DR desliga o circuito quando percebe corrente escapando para a terra, que é o que acontece num choque.
- DPS: a proteção contra surtos, por exemplo de raio na rede, é exigida pela norma quando a entrada é por rede aérea em região com trovoadas ou quando o prédio tem para-raios.
- Aterramento: o DR e o DPS dependem de um condutor de proteção ligado a um aterramento, assunto do artigo sobre aterramento em residências.
O padrão de entrada e a distribuidora
A carga instalada define com a distribuidora o tipo de ligação: monofásica, bifásica ou trifásica. No Paraná, a norma da Copel atende em baixa tensão instalações de até 75 kW, em 127 V monofásico ou 220/127 V bifásico e trifásico. A própria Copel exemplifica um padrão monofásico de 50 A com 127 × 50 = 6.350 W. A casa do exemplo, com perto de 10,9 kVA instalados, passa disso, e a categoria exata sai da tabela da distribuidora, que aplica fatores de demanda. A tensão de 127 ou 220 V que chega à casa sai de um transformador no poste. Quem pretende instalar energia solar deve prever o inversor e o circuito dele no mesmo projeto.
Os documentos do projeto e quem assina
A NBR 5410 pede, como documentação mínima, plantas, diagramas unifilares, detalhes de montagem, memorial descritivo, especificação dos componentes e os parâmetros de projeto, como correntes de curto-circuito, queda de tensão e fatores de demanda. O quadro de cargas, com a tabela de circuitos, é prática comum. O projeto de engenheiro exige ART no CREA, pela Lei 6.496/1977; o de técnico, TRT no conselho dos técnicos. A Resolução 74/2019 do Conselho Federal dos Técnicos permite a técnicos em eletrotécnica projetos com demanda de até 800 kVA, limite contestado pelo Confea. As normas que entram no projeto estão no guia de normas da ABNT.
Perguntas frequentes
Quantas tomadas a NBR 5410 exige num quarto?
Uma a cada 5 m de perímetro ou fração. Um quarto de 3 × 4 m, com 14 m de perímetro, precisa de pelo menos 3.
Qual o fio e o disjuntor de um chuveiro de 5.500 W em 220 V?
A corrente é de 25 A. Fio de 6 mm² com disjuntor de 32 A atende à regra IB ≤ IN ≤ IZ em eletroduto com um só circuito. Com circuitos agrupados, a conta muda.
Iluminação e tomada podem ficar no mesmo circuito?
Na residência, só se a corrente de projeto do circuito for de até 16 A e a casa tiver mais de um circuito de iluminação e mais de um de tomadas. Cozinha e área de serviço têm circuitos de tomadas só delas.
Onde o DR é obrigatório?
Em cômodos com chuveiro ou banheira, tomadas externas, cozinha, área de serviço, lavanderia, garagem e outras áreas molhadas da residência.
Quem pode assinar um projeto elétrico residencial?
Engenheiro eletricista, com ART no CREA, ou técnico em eletrotécnica dentro dos limites da sua resolução, com TRT no conselho dos técnicos.
Um projeto elétrico residencial é uma sequência de somas e comparações: carga mínima por cômodo, corrente por circuito, capacidade do fio contra o disjuntor e queda de tensão contra o limite. Antes de comprar fio e disjuntor, monte o quadro de cargas, porque é ele que mostra se o padrão de entrada e o quadro de distribuição comportam a casa. Outros roteiros de cálculo estão nos guias de engenharia prática.
