Fachada de vidro de um edifício comercial sob céu claro
Fachada de vidro de um edifício comercial. Foto: Kenrick Baksh / Unsplash.

Vidro eletrocrômico: como funciona e quanto calor barra

O vidro eletrocrômico escurece e clareia com um comando elétrico. Uma tensão baixa faz íons migrarem entre camadas muito finas depositadas no vidro; com os íons de um lado, o vidro fica transparente, e do outro, escuro. Num produto comercial, a passagem de luz varia de 60% para 1%, e o calor do sol que entra cai para menos de um quarto.

Este artigo explica como funciona o vidro eletrocrômico, com a conta do calor que ele barra numa fachada, o que as medições de laboratório dizem sobre economia de energia e os limites da tecnologia. As fontes são o Laboratório Nacional Lawrence Berkeley (LBNL) e o Laboratório Nacional de Energia Renovável (NREL), dos Estados Unidos, e a fabricante SageGlass, do grupo Saint-Gobain.

As camadas dentro do vidro

A parte ativa é um revestimento. A SageGlass descreve cinco camadas de material cerâmico depositadas sobre o vidro, com espessura total menor que um cinquenta avos de um fio de cabelo. O LBNL cita os materiais usados nos dispositivos que estuda: filmes de óxido de tungstênio e de óxido de níquel e lítio, separados por um condutor de íons.

Na descrição usual dos livros da área, que não tiramos de uma fonte única, as cinco camadas são: dois condutores transparentes por fora, que levam a corrente; a camada eletrocrômica, que muda de cor; a camada que guarda os íons; e, entre as duas, o condutor de íons, que deixa os íons passarem e barra os elétrons. O conjunto funciona como uma bateria muito fina e transparente, em que carregar e descarregar muda a cor.

Esquema das camadas do vidro eletrocrômico: dois condutores transparentes, camada eletrocrômica, condutor de íons e reservatório de íons, entre duas lâminas de vidro
As cinco camadas ativas, na descrição usual da tecnologia, entre duas lâminas de vidro. Espessuras fora de escala.

Como ele escurece

Segundo a SageGlass, a tensão aplicada faz os íons migrarem de uma camada para outra (íons de lítio, pelos materiais que o LBNL descreve), numa mudança de estado sólido reversível. Inverter a polaridade devolve os íons e clareia o vidro. Não há peça móvel nem líquido.

O LBNL destaca uma característica que separa essa tecnologia de outras: o vidro só precisa de energia para mudar de estado. Depois de escurecido, ele se mantém por um tempo sem consumo. A memória não é permanente: a fabricante informa, na sua página de perguntas frequentes, que, sem energia, o vidro volta ao estado claro em uma a duas horas.

O consumo é pequeno. A SageGlass afirma que operar cerca de 280 m² do vidro gasta menos eletricidade que um modem doméstico. É dado de fabricante, sem valor em watts.

A conta do calor numa fachada

Dois números descrevem um vidro: a transmitância de luz visível, que é a fração da luz que passa, e o fator solar, a fração do calor do sol que entra no ambiente. A SageGlass informa a faixa do produto:

Estado Luz visível que passa Fator solar
Claro 60% 0,41
Escurecido 1% 0,09

Com o sol batendo na fachada a 800 watts por metro quadrado (premissa nossa, um valor de dia claro), o calor que entra por cada metro quadrado de vidro é:

  • estado claro: 800 × 0,41 = 328 W;
  • estado escurecido: 800 × 0,09 = 72 W;
  • diferença: 328 − 72 = 256 W por metro quadrado.

Numa sala com 20 m² de fachada envidraçada, são 20 × 256 ≈ 5.100 W a menos de calor entrando, o equivalente a cerca de 17.400 BTU por hora (5.100 × 3,412). É a capacidade de um aparelho de ar-condicionado que deixa de ser necessária naquela hora de sol. A conta vale para o pico; ao longo do dia e do ano a economia depende do clima, da orientação da fachada e do controle.

O calor cai 328 ÷ 72 ≈ 4,6 vezes, e a luz, 60 vezes. O vidro escurecido ainda deixa ver a paisagem, o que uma persiana fechada não faz.

Torres com fachadas inteiras de vidro
Em torres envidraçadas, o calor do sol que entra pelo vidro pesa no ar-condicionado. Foto: Georgi Kalaydzhiev / Unsplash.

Quanto economiza, pelas medições

Os percentuais publicados medem coisas diferentes e não devem ser somados:

Fonte O que foi medido Resultado
LBNL, teste de campo de dois anos e meio energia de iluminação, contra janela eficiente comum 48% a 67% de economia
LBNL, mesmo teste pico da carga de resfriamento 19% a 26% de redução
LBNL, página de materiais energia, em clima árido e com controle de iluminação 30% a 40% sobre janelas convencionais
NREL pico de demanda mais de 20% de redução

O teste de campo está resumido numa publicação do LBNL, e o dado do NREL, numa nota do laboratório. A economia de iluminação vem de um efeito indireto: como o vidro controla o ofuscamento sem fechar a vista, as persianas ficam abertas e a luz natural substitui parte das lâmpadas. O peso do ar-condicionado na conta de luz está em o que consome mais energia elétrica na sua casa.

Quanto tempo leva para mudar

Minutos. A demonstração do LBNL mostra cerca de 4 minutos para escurecer e 4 e meio para clarear, num dispositivo de pesquisa. O tempo varia com o tamanho da peça e com o produto. É a principal diferença para quem espera o efeito instantâneo de um interruptor.

Eletrocrômico não é o único vidro inteligente

Tecnologia Tempo de resposta O que faz Sem energia
Eletrocrômico minutos escurece e barra calor, mantendo a vista mantém o estado por um tempo
Cristal líquido (PDLC) 10 a 150 milésimos de segundo alterna entre leitoso e transparente, para privacidade; transparente, passa cerca de 80% da luz leitoso
Partículas suspensas (SPD) até 3 segundos escurece, barrando até 99% da luz escuro, na descrição usual

Os dados das duas últimas linhas são de um fabricante desses vidros. O vidro de privacidade de salas de reunião, que fica branco ao toque de um botão, é o de cristal líquido: esconde, mas não sombreia. Há ainda vidros que escurecem sozinhos com a luz ou com o calor, sem controle elétrico.

Onde já é usado

Além de fachadas e claraboias, a mesma família de tecnologia está em dois lugares conhecidos. Em fachadas, o vidro pesa no projeto: o Capital Gate, em Abu Dhabi, tem 12.500 vidros, todos de tamanhos diferentes. Os retrovisores que escurecem sozinhos quando o farol de trás ofusca usam um gel eletrocrômico entre dois vidros. E as janelas do Boeing 787 trocaram a persiana de plástico por um vidro que o passageiro escurece por botão, com um gel eletrificado entre duas lâminas, segundo a imprensa especializada.

Para durar numa fachada, o vidro precisa aguentar milhares de ciclos sob sol forte. O NREL informa que a norma de durabilidade usada pela indústria, a ASTM E2141, foi desenvolvida no laboratório no fim da década de 1990.

Os limites

  • Velocidade: a mudança leva minutos.
  • Não é blecaute nem privacidade: com 1% de luz passando, o vidro não fica opaco.
  • Custo: é mais caro que o vidro comum somado à persiana. Não encontramos um preço por metro quadrado de fonte confiável para citar.
  • Depende do controle: a economia medida nos testes vem de sensores e automação bem ajustados, e não só do vidro.

Perguntas frequentes

Como funciona o vidro eletrocrômico?

Uma tensão baixa move íons entre camadas finas depositadas no vidro. Conforme o lado em que os íons ficam, o vidro está claro ou escuro.

Vidro eletrocrômico gasta muita energia?

Não. Ele consome energia para mudar de estado e muito pouco para se manter. Um fabricante compara o consumo de 280 m² ao de um modem doméstico.

O vidro eletrocrômico fica totalmente escuro?

Não. No produto citado, ainda passa 1% da luz visível.

Qual a diferença para o vidro de privacidade?

O de privacidade, de cristal líquido, muda em uma fração de segundo e esconde a vista, mas não foi feito para sombrear. O eletrocrômico escurece devagar e barra o calor.

Onde o vidro eletrocrômico é usado?

Em fachadas e claraboias de edifícios, em retrovisores de carros e nas janelas de alguns aviões.

O vidro eletrocrômico é uma bateria transparente espalhada sobre a janela: mover íons de um lado para o outro muda quanto de luz e de calor atravessa. Na hora de sol forte, a diferença passa de 250 W por metro quadrado, e é daí que vem a economia. Outras tecnologias de edifícios estão em inovações tecnológicas na engenharia, e uma das fachadas de vidro mais altas do mundo, em Burj Khalifa.

Posts Similares