A engenharia dos Jardins Suspensos da Babilônia: o que as fontes dizem e a conta da água
A engenharia dos Jardins Suspensos da Babilônia tem um problema de origem: ninguém provou que eles existiram. Nenhum texto babilônio os menciona, Heródoto descreveu a cidade sem citá-los, e a escavação alemã que procurou por eles entre 1899 e 1917 não achou nada conclusivo. O que existe são descrições de autores gregos e romanos, escritas séculos depois, que falam de terraços sobre abóbadas, camadas de impermeabilização e máquinas que subiam água do Eufrates sem parar.
Este artigo trata essas descrições como um caderno de encargos e faz a pergunta de engenheiro: dava para construir? Mostra o que as fontes antigas dizem, faz a conta da água e da força humana necessárias para irrigar um jardim desse tamanho no clima do Iraque, e apresenta a hipótese, defendida por uma pesquisadora de Oxford, de que os jardins ficavam em outra cidade.
O que dizem as fontes antigas
As descrições chegaram por cinco autores: Beroso, sacerdote babilônio citado por Flávio Josefo, além de Diodoro Sículo, Estrabão, Quinto Cúrcio e Fílon de Bizâncio. Beroso é o único que atribui a obra a Nabucodonosor II, que reinou entre 605 e 562 a.C., e diz que ela foi feita para a rainha, que vinha da Média e sentia falta das montanhas. Diodoro e Cúrcio copiaram a biografia perdida de Alexandre escrita por Clitarco, segundo o Livius, o que reduz o peso de terem dito a mesma coisa.
| O que a fonte diz | Quem diz | O que significa em engenharia |
|---|---|---|
| Planta quadrada de cerca de 4 pletros de lado | Diodoro, Estrabão | cerca de 120 m de lado, já que 1 pletro tem perto de 30 m |
| Terraço mais alto com 50 côvados de altura | Diodoro | cerca de 22 a 25 m, conforme o côvado usado (conta nossa) |
| Terraços abobadados sobre pilares cúbicos de tijolo cozido e asfalto | Estrabão | estrutura em arcos, a forma de vencer vãos com material que só resiste à compressão |
| Camadas de junco com betume, tijolo com gesso e lâminas de chumbo sob a terra | Diodoro | um sistema de impermeabilização em três camadas |
| Máquinas que erguiam água do Eufrates o tempo todo | Estrabão, Fílon | irrigação por elevação mecânica contínua |
A impermeabilização é a parte mais plausível. O betume era abundante na Mesopotâmia e usado como argamassa e vedação; tijolo cozido assentado com betume resiste à água de forma muito diferente do tijolo de barro cru, que se desfaz. É o mesmo problema que qualquer laje com jardim enfrenta hoje, e a solução em camadas lembra a lógica das mantas modernas descrita no guia de impermeabilização de lajes.

A conta da água: quantas pessoas para irrigar o jardim
O ponto fraco das descrições é a água. Um jardim plantado em terraços a 25 m de altura precisa receber, todo dia, a água que as plantas perdem para o ar. Premissas da conta:
- área plantada de 120 × 120 m = 14.400 m², o quadrado das fontes;
- evapotranspiração de referência de 8,5 mm por dia, a média de julho em Bagdá pelo método da FAO, segundo um estudo publicado no CIGR Journal em 2021;
- água erguida até 25 m, a altura do terraço mais alto;
- sem contar perdas por infiltração e vazamento, o que deixa a conta otimista.
Volume diário: 14.400 m² × 0,0085 m ≈ 122 m³, ou 122 toneladas de água. Energia para erguer essa massa: E = m × g × h = 122.000 × 9,81 × 25 ≈ 30 milhões de joules por dia, cerca de 8,3 kWh.
Agora a força humana. Uma pessoa sustenta de 60 a 75 W de trabalho mecânico, segundo um guia técnico da Practical Action sobre elevadores de água, e a FAO estima o trabalho útil de um dia inteiro em cerca de 250 Wh. Com esses números:

- a 75 W durante 8 horas, cada pessoa entrega 2,16 MJ por dia: 30 / 2,16 ≈ 14 pessoas, no caso ideal;
- a 250 Wh por dia (0,9 MJ), são 30 / 0,9 ≈ 33 pessoas;
- com um mecanismo que perca metade da energia em atrito e vazamento, o número dobra para cerca de 67.
Para um rei que mobilizava milhares de trabalhadores em muralhas e templos, algumas dezenas de pessoas operando bombas o ano inteiro é um custo pequeno. A conta mostra que a irrigação era possível com força humana ou animal, desde que existisse um mecanismo capaz de subir água 25 m de forma contínua. A dúvida está nesse mecanismo.
O problema do parafuso
Um balde puxado por corda ou uma alavanca com contrapeso, o shaduf, sobem água de 2 a 4 m por vez. Para chegar a 25 m, seriam precisos vários estágios em cascata ou uma corrente de baldes contínua. Estrabão e Fílon falam em máquinas, e traduções modernas leem ali um parafuso de Arquimedes, um cilindro com rosca interna que sobe a água quando gira. O problema é a data: Arquimedes viveu entre cerca de 287 e 212 a.C., segundo a Britannica, mais de três séculos depois de Nabucodonosor.
A hipótese de Nínive
A assirióloga Stephanie Dalley, da Universidade de Oxford, propôs em livro de 2013 uma solução para os dois problemas, a falta de vestígios em Babilônia e o parafuso fora de época. Para ela, o jardim existiu, mas em Nínive, a capital assíria no norte do Iraque, construído pelo rei Senaqueribe por volta de 700 a.C. Os autores gregos teriam confundido as cidades, segundo o resumo publicado pela editora da universidade.
Os argumentos de Dalley são de engenharia hidráulica:
- Água por gravidade: Senaqueribe construiu um sistema de canais que buscava água a cerca de 80 km, nas montanhas, segundo Dalley. Isso resolve a irrigação sem bombear do rio.
- Aqueduto de Jerwan: parte desse sistema, tem 280 m de comprimento, 22 m de largura e até 9 m de altura, em pedra, segundo o Structurae, e foi construído sob Senaqueribe, por volta de 690 a.C. É anterior em séculos aos aquedutos romanos.
- O parafuso de bronze: Dalley lê numa inscrição de Senaqueribe a fundição de grandes parafusos de bronze para erguer água, cerca de quatro séculos e meio antes de Arquimedes. Essa leitura depende da tradução da inscrição e é a parte mais discutida da hipótese.
A proposta divide os arqueólogos, e a força dela está em casar a descrição dos gregos com obras hidráulicas que existem e podem ser medidas.
O que Koldewey achou em Babilônia
O arqueólogo alemão Robert Koldewey escavou Babilônia de 1899 a 1917 e encontrou, no canto nordeste do Palácio Sul, uma série de câmaras abobadadas que ele identificou como a base dos jardins. A leitura posterior é outra: no mesmo prédio apareceram tabuletas de argila com rações de alimentos para prisioneiros, entre eles o rei Joaquim, de Judá, datadas de cerca de 595 a 570 a.C., e o edifício hoje é interpretado como ala administrativa ou de armazenamento. A revista World Archaeology resume que a identificação de Koldewey provavelmente está errada.

Abóbadas de tijolo como as que Koldewey achou eram a forma de vencer vãos com material que só resiste à compressão, a mesma lógica dos arcos do Coliseu. Um jardim em terraços exigiria muitas delas, carregadas com terra molhada, que pesa perto de 2 toneladas por metro cúbico.
Perguntas frequentes
Os Jardins Suspensos da Babilônia existiram?
Não há prova. Nenhum texto babilônio os cita e as escavações não acharam vestígio conclusivo. As descrições são de autores gregos e romanos escritas séculos depois.
Como os Jardins Suspensos eram irrigados?
As fontes falam em máquinas que subiam água do Eufrates. A conta com 122 m³ por dia erguidos a 25 m indica de 14 a cerca de 70 pessoas trabalhando o dia inteiro, conforme a eficiência do mecanismo.
Qual era o tamanho dos Jardins Suspensos?
Segundo Diodoro e Estrabão, uma planta quadrada de cerca de 120 m de lado, com o terraço mais alto a cerca de 22 a 25 m.
Quem construiu os Jardins Suspensos?
A tradição atribui a Nabucodonosor II, por volta de 600 a.C. A hipótese de Stephanie Dalley atribui a Senaqueribe, em Nínive, por volta de 700 a.C.
Por que estão entre as Sete Maravilhas?
Porque entraram nas listas gregas de obras admiráveis, junto com a Grande Pirâmide de Gizé, uma das pirâmides do Egito e a única das sete que continua de pé.
Os Jardins Suspensos são o caso raro de uma obra famosa que só existe no papel, e por isso a melhor forma de estudá-los é pela conta: a impermeabilização em camadas era viável, a estrutura em abóbadas também, e a água era o desafio que decidia tudo. Quem quiser julgar uma descrição antiga pode começar pelo mesmo caminho, perguntando de onde vinha a água e quanta energia custava levá-la até onde o texto diz. Outras obras antigas medidas assim estão nas curiosidades da engenharia.
Imagem de destaque: Os Jardins Suspensos na série das Sete Maravilhas, gravura de 1614. A imagem é imaginada: não existe registro visual da obra. Foto: Rijksmuseum / Wikimedia Commons, CC0.
