Gravura antiga dos Jardins Suspensos da Babilônia, com terraços arborizados e uma caçada ao leão em primeiro plano
Os Jardins Suspensos na série das Sete Maravilhas, gravura de 1614. A imagem é imaginada: não existe registro visual da obra. Foto: Rijksmuseum / Wikimedia Commons, CC0.

A engenharia dos Jardins Suspensos da Babilônia: o que as fontes dizem e a conta da água

A engenharia dos Jardins Suspensos da Babilônia tem um problema de origem: ninguém provou que eles existiram. Nenhum texto babilônio os menciona, Heródoto descreveu a cidade sem citá-los, e a escavação alemã que procurou por eles entre 1899 e 1917 não achou nada conclusivo. O que existe são descrições de autores gregos e romanos, escritas séculos depois, que falam de terraços sobre abóbadas, camadas de impermeabilização e máquinas que subiam água do Eufrates sem parar.

Este artigo trata essas descrições como um caderno de encargos e faz a pergunta de engenheiro: dava para construir? Mostra o que as fontes antigas dizem, faz a conta da água e da força humana necessárias para irrigar um jardim desse tamanho no clima do Iraque, e apresenta a hipótese, defendida por uma pesquisadora de Oxford, de que os jardins ficavam em outra cidade.

O que dizem as fontes antigas

As descrições chegaram por cinco autores: Beroso, sacerdote babilônio citado por Flávio Josefo, além de Diodoro Sículo, Estrabão, Quinto Cúrcio e Fílon de Bizâncio. Beroso é o único que atribui a obra a Nabucodonosor II, que reinou entre 605 e 562 a.C., e diz que ela foi feita para a rainha, que vinha da Média e sentia falta das montanhas. Diodoro e Cúrcio copiaram a biografia perdida de Alexandre escrita por Clitarco, segundo o Livius, o que reduz o peso de terem dito a mesma coisa.

O que a fonte diz Quem diz O que significa em engenharia
Planta quadrada de cerca de 4 pletros de lado Diodoro, Estrabão cerca de 120 m de lado, já que 1 pletro tem perto de 30 m
Terraço mais alto com 50 côvados de altura Diodoro cerca de 22 a 25 m, conforme o côvado usado (conta nossa)
Terraços abobadados sobre pilares cúbicos de tijolo cozido e asfalto Estrabão estrutura em arcos, a forma de vencer vãos com material que só resiste à compressão
Camadas de junco com betume, tijolo com gesso e lâminas de chumbo sob a terra Diodoro um sistema de impermeabilização em três camadas
Máquinas que erguiam água do Eufrates o tempo todo Estrabão, Fílon irrigação por elevação mecânica contínua

A impermeabilização é a parte mais plausível. O betume era abundante na Mesopotâmia e usado como argamassa e vedação; tijolo cozido assentado com betume resiste à água de forma muito diferente do tijolo de barro cru, que se desfaz. É o mesmo problema que qualquer laje com jardim enfrenta hoje, e a solução em camadas lembra a lógica das mantas modernas descrita no guia de impermeabilização de lajes.

Ilustração de cerca de 1900 que reconstrói os Jardins Suspensos como terraços sobre arcos, com árvores no topo
Reconstrução de cerca de 1900 com terraços sobre arcos, como descreve Estrabão. A forma é hipótese do ilustrador. Foto: „H. Waldeck“ / Wikimedia Commons, domínio público.

A conta da água: quantas pessoas para irrigar o jardim

O ponto fraco das descrições é a água. Um jardim plantado em terraços a 25 m de altura precisa receber, todo dia, a água que as plantas perdem para o ar. Premissas da conta:

  • área plantada de 120 × 120 m = 14.400 m², o quadrado das fontes;
  • evapotranspiração de referência de 8,5 mm por dia, a média de julho em Bagdá pelo método da FAO, segundo um estudo publicado no CIGR Journal em 2021;
  • água erguida até 25 m, a altura do terraço mais alto;
  • sem contar perdas por infiltração e vazamento, o que deixa a conta otimista.

Volume diário: 14.400 m² × 0,0085 m ≈ 122 m³, ou 122 toneladas de água. Energia para erguer essa massa: E = m × g × h = 122.000 × 9,81 × 25 ≈ 30 milhões de joules por dia, cerca de 8,3 kWh.

Agora a força humana. Uma pessoa sustenta de 60 a 75 W de trabalho mecânico, segundo um guia técnico da Practical Action sobre elevadores de água, e a FAO estima o trabalho útil de um dia inteiro em cerca de 250 Wh. Com esses números:

Gráfico de barras de quantas pessoas seriam precisas para erguer 122 m³ de água por dia a 25 m: 14 no caso ideal, 33 pela estimativa da FAO e 67 com metade da energia perdida
De 14 a 67 pessoas, conforme a eficiência do mecanismo. Contas nossas com evapotranspiração de julho em Bagdá e dados de trabalho humano da FAO.
  • a 75 W durante 8 horas, cada pessoa entrega 2,16 MJ por dia: 30 / 2,16 ≈ 14 pessoas, no caso ideal;
  • a 250 Wh por dia (0,9 MJ), são 30 / 0,9 ≈ 33 pessoas;
  • com um mecanismo que perca metade da energia em atrito e vazamento, o número dobra para cerca de 67.

Para um rei que mobilizava milhares de trabalhadores em muralhas e templos, algumas dezenas de pessoas operando bombas o ano inteiro é um custo pequeno. A conta mostra que a irrigação era possível com força humana ou animal, desde que existisse um mecanismo capaz de subir água 25 m de forma contínua. A dúvida está nesse mecanismo.

O problema do parafuso

Um balde puxado por corda ou uma alavanca com contrapeso, o shaduf, sobem água de 2 a 4 m por vez. Para chegar a 25 m, seriam precisos vários estágios em cascata ou uma corrente de baldes contínua. Estrabão e Fílon falam em máquinas, e traduções modernas leem ali um parafuso de Arquimedes, um cilindro com rosca interna que sobe a água quando gira. O problema é a data: Arquimedes viveu entre cerca de 287 e 212 a.C., segundo a Britannica, mais de três séculos depois de Nabucodonosor.

A hipótese de Nínive

A assirióloga Stephanie Dalley, da Universidade de Oxford, propôs em livro de 2013 uma solução para os dois problemas, a falta de vestígios em Babilônia e o parafuso fora de época. Para ela, o jardim existiu, mas em Nínive, a capital assíria no norte do Iraque, construído pelo rei Senaqueribe por volta de 700 a.C. Os autores gregos teriam confundido as cidades, segundo o resumo publicado pela editora da universidade.

Os argumentos de Dalley são de engenharia hidráulica:

  • Água por gravidade: Senaqueribe construiu um sistema de canais que buscava água a cerca de 80 km, nas montanhas, segundo Dalley. Isso resolve a irrigação sem bombear do rio.
  • Aqueduto de Jerwan: parte desse sistema, tem 280 m de comprimento, 22 m de largura e até 9 m de altura, em pedra, segundo o Structurae, e foi construído sob Senaqueribe, por volta de 690 a.C. É anterior em séculos aos aquedutos romanos.
  • O parafuso de bronze: Dalley lê numa inscrição de Senaqueribe a fundição de grandes parafusos de bronze para erguer água, cerca de quatro séculos e meio antes de Arquimedes. Essa leitura depende da tradução da inscrição e é a parte mais discutida da hipótese.

A proposta divide os arqueólogos, e a força dela está em casar a descrição dos gregos com obras hidráulicas que existem e podem ser medidas.

O que Koldewey achou em Babilônia

O arqueólogo alemão Robert Koldewey escavou Babilônia de 1899 a 1917 e encontrou, no canto nordeste do Palácio Sul, uma série de câmaras abobadadas que ele identificou como a base dos jardins. A leitura posterior é outra: no mesmo prédio apareceram tabuletas de argila com rações de alimentos para prisioneiros, entre eles o rei Joaquim, de Judá, datadas de cerca de 595 a 570 a.C., e o edifício hoje é interpretado como ala administrativa ou de armazenamento. A revista World Archaeology resume que a identificação de Koldewey provavelmente está errada.

Ruínas de tijolo em Babilônia, no Iraque, apontadas como local dos Jardins Suspensos
Ruínas em Babilônia apresentadas como o local dos Jardins Suspensos. A identificação não é confirmada pela arqueologia. Foto: Al-Hamza Ahmad / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

Abóbadas de tijolo como as que Koldewey achou eram a forma de vencer vãos com material que só resiste à compressão, a mesma lógica dos arcos do Coliseu. Um jardim em terraços exigiria muitas delas, carregadas com terra molhada, que pesa perto de 2 toneladas por metro cúbico.

Perguntas frequentes

Os Jardins Suspensos da Babilônia existiram?

Não há prova. Nenhum texto babilônio os cita e as escavações não acharam vestígio conclusivo. As descrições são de autores gregos e romanos escritas séculos depois.

Como os Jardins Suspensos eram irrigados?

As fontes falam em máquinas que subiam água do Eufrates. A conta com 122 m³ por dia erguidos a 25 m indica de 14 a cerca de 70 pessoas trabalhando o dia inteiro, conforme a eficiência do mecanismo.

Qual era o tamanho dos Jardins Suspensos?

Segundo Diodoro e Estrabão, uma planta quadrada de cerca de 120 m de lado, com o terraço mais alto a cerca de 22 a 25 m.

Quem construiu os Jardins Suspensos?

A tradição atribui a Nabucodonosor II, por volta de 600 a.C. A hipótese de Stephanie Dalley atribui a Senaqueribe, em Nínive, por volta de 700 a.C.

Por que estão entre as Sete Maravilhas?

Porque entraram nas listas gregas de obras admiráveis, junto com a Grande Pirâmide de Gizé, uma das pirâmides do Egito e a única das sete que continua de pé.

Os Jardins Suspensos são o caso raro de uma obra famosa que só existe no papel, e por isso a melhor forma de estudá-los é pela conta: a impermeabilização em camadas era viável, a estrutura em abóbadas também, e a água era o desafio que decidia tudo. Quem quiser julgar uma descrição antiga pode começar pelo mesmo caminho, perguntando de onde vinha a água e quanta energia custava levá-la até onde o texto diz. Outras obras antigas medidas assim estão nas curiosidades da engenharia.

Imagem de destaque: Os Jardins Suspensos na série das Sete Maravilhas, gravura de 1614. A imagem é imaginada: não existe registro visual da obra. Foto: Rijksmuseum / Wikimedia Commons, CC0.

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