Trecho da Muralha da China com passadiço e torres sobre a crista das montanhas ao norte de Pequim
Trecho da muralha da dinastia Ming ao norte de Pequim, com o passadiço sobre a crista das montanhas. Foto: Mx. Granger / Wikimedia Commons, CC0.

Como foi construída a Muralha da China: técnicas, materiais e a conta dos tijolos

A Muralha da China foi construída ao longo de mais de dois mil anos, por dinastias diferentes, com o material que havia perto de cada trecho: terra socada nas planícies, camadas de junco e cascalho no deserto, pedra e tijolo cozido nas montanhas perto de Pequim. Somando todos os períodos, o levantamento oficial de 2012 chegou a 21.196 km de muros, trincheiras e barreiras. O trecho que aparece nas fotos, com torres e escadarias, é da dinastia Ming, entre 1368 e 1644.

Este artigo mostra como cada técnica funcionava, faz a conta do volume de um quilômetro de muralha Ming e de quantos tijolos ele leva, e separa os números confirmados dos que circulam sem fonte, como o da muralha visível do espaço.

Quanto mede a Muralha da China

Existem dois números oficiais, e eles medem coisas diferentes. O levantamento da Administração Estatal do Patrimônio Cultural da China, encerrado em 2012 depois de cinco anos, somou 21.196,18 km de estruturas de todas as dinastias, em 15 províncias e regiões, segundo a Live Science. O levantamento só da dinastia Ming, de 2009, feito com GPS e telêmetros, mediu 8.851,8 km, segundo o China Daily:

  • 6.259,6 km de muro construído;
  • 359,7 km de trincheiras;
  • 2.232,5 km de barreiras naturais, como rios e encostas, incorporadas à defesa.
Gráfico de barras com a extensão da Muralha da China: 21.196 km de todas as dinastias, 8.852 km da dinastia Ming, 6.260 km de muro Ming construído e 1.962 km de muro Ming desaparecido
O número muda conforme o que se conta: todas as dinastias, só o trecho Ming ou só o muro construído. Fontes: levantamentos oficiais de 2009 e 2012.

A UNESCO inscreveu a muralha como patrimônio mundial em 1987 e fala em “mais de 20.000 km” na ficha do sítio.

Quem construiu e quando

Período O que foi feito Material principal
Séculos VII a IV a.C. reinos rivais, como Chu e Qi, erguem muros de fronteira terra socada
Dinastia Qin (221 a 206 a.C.) o imperador Qin Shi Huang manda ligar os muros existentes terra socada e pedra local
Dinastia Han (206 a.C. a 220 d.C.) extensão para oeste, pelo corredor de Gansu, a partir de 121 a.C. camadas de junco e cascalho
Dinastia Ming (1368 a 1644) reconstrução com torres e tijolo, sobretudo ao norte de Pequim tijolo cozido, pedra e argamassa de cal

As datas e a sequência estão na Britannica. O historiador Sima Qian registra que o general Meng Tian foi enviado ao norte com 300 mil homens no reinado de Qin. O número se refere a um exército em campanha contra os povos da estepe; quantos trabalharam na obra não está registrado. Ninguém sabe quantos operários morreram: o número aparece em muitos textos, mas sem registro que o sustente.

Trecho de Badaling da Muralha da China fotografado em 1991
O trecho de Badaling em 1991. Reconstruído no século XX, é o mais visitado da muralha. Foto: Gary Todd from Xinzheng, China / Wikimedia Commons, CC0.

As técnicas de construção, trecho por trecho

Terra socada

A técnica mais antiga, chamada hangtu, consiste em montar uma fôrma de tábuas, encher com terra úmida e socar com pilões até compactar, camada por camada. É o mesmo princípio de compactação usado hoje em aterros, e os trechos de terra socada ainda de pé têm mais de dois mil anos.

Junco e cascalho no deserto

No deserto de Gansu, perto do Portal de Jade, faltava terra boa e sobrava vegetação de beira de rio. Os construtores da dinastia Han alternaram feixes de tamargueira e junco, com cerca de 15 cm de espessura, e camadas de argila com cascalho, de 7,5 a 10 cm. O arqueólogo Aurel Stein contou oito camadas duplas num trecho de cerca de 2,1 m de altura e notou que o sal do solo deixou o conjunto quase petrificado, segundo o material da Universidade de Washington sobre Dunhuang. O junco funciona como armadura: amarra a terra e evita que a camada se desfaça.

Tijolo, pedra e cal na dinastia Ming

Perto de Pequim, os Ming fizeram a muralha que virou símbolo: base de pedra, faces de tijolo cozido, núcleo de terra e entulho, e um passadiço no topo. Os tijolos longos de Simatai medem 37 × 15 × 9 cm, e muitos trazem gravados o forno e os responsáveis, para que um lote com defeito pudesse ser rastreado, segundo o Google Arts & Culture. A argamassa misturava cal com amido de arroz glutinoso, combinação estudada por químicos chineses e publicada na Accounts of Chemical Research em 2010: o amido controla o crescimento dos cristais de carbonato de cálcio e deixa a junta mais compacta e resistente à água. O estudo analisou a muralha da cidade de Nanjing, e o uso dessa argamassa em trechos da Grande Muralha é citado com menos documentação.

A Britannica dá as medidas médias da seção Ming: de 7 a 8 m de altura, cerca de 6,5 m de largura na base e 5,8 m no topo. Em encostas íngremes o muro fica mais baixo.

A conta: volume e tijolos de um quilômetro de muralha Ming

A seção é aproximadamente um trapézio. Premissas: altura de 7,5 m, base de 6,5 m e topo de 5,8 m, as médias da Britannica.

  • área da seção: (6,5 + 5,8) / 2 × 7,5 ≈ 46,1 m²;
  • volume de 1 km: 46,1 × 1.000 ≈ 46.100 m³, o equivalente a cerca de 18 piscinas olímpicas de 2.500 m³.

O tijolo forma só uma casca em volta do núcleo de terra. Para estimar os tijolos, supomos uma casca de 0,4 m de espessura em cada face (premissa nossa):

  • volume da casca: 2 faces × 7,5 m × 0,4 m × 1.000 m = 6.000 m³ por quilômetro;
  • cada tijolo com junta de 1 cm ocupa 0,38 × 0,16 × 0,10 ≈ 0,0061 m³, o que dá cerca de 164 tijolos por metro cúbico;
  • 6.000 × 164 ≈ 980 mil tijolos por quilômetro;
  • com densidade de 1.800 a 2.000 kg/m³ para o barro cozido (premissa nossa), cada tijolo pesa de 9 a 10 kg, e o quilômetro leva entre 9.000 e 10.000 toneladas só de tijolo.

Multiplicar esses números pelos 6.260 km de muro Ming daria um limite superior, porque a seção grande vale para os trechos perto de Pequim. No oeste, em Ningxia, há trechos de 1 a 3 m de altura feitos só de terra. Para comparar o esforço com outras obras antigas medidas pela mesma régua, veja o artigo sobre as pirâmides do Egito.

Torres e sinais de fumaça

A muralha Ming tem torres a cada 200 a 300 m, segundo a Britannica, e serviam de abrigo, depósito e posto de sinal. De dia, fumaça; à noite, fogo ou lanternas, além de bandeiras e disparos. Na dinastia Han, os registros em tiras de bambu achados em Juyan indicam um posto de sinal a cada 5 li, perto de 2 km. A rede de sinais permitia avisar a guarnição seguinte muito antes de o inimigo chegar a ela. Não encontramos fonte confiável para a velocidade de transmissão, e por isso o texto não traz número.

A muralha também resolvia água e drenagem: o passadiço tem caimento e saídas para a chuva, um problema que os romanos enfrentaram em escala ainda maior nos aquedutos.

Trecho de Simatai da Muralha da China seguindo a crista de montanhas a nordeste de Pequim
O trecho de Simatai, a nordeste de Pequim, em 2009. Na muralha Ming, as torres ficam a cada 200 a 300 m. Foto: Jakub Hałun / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

Dá para ver a muralha do espaço?

Não é possível vê-la a olho nu. O primeiro astronauta chinês, Yang Liwei, disse em 2003 que não viu a muralha da órbita, segundo a Al Jazeera. A NASA explica que ela tem poucos metros de largura e cor e textura parecidas com as do terreno em volta. O astronauta Leroy Chiao fotografou uma região da muralha em 2004 com teleobjetiva de 180 mm, mas não a viu diretamente, segundo uma nota da NASA. Da Lua, não há nenhuma chance de vê-la.

A conta mostra o porquê: a 400 km de altitude, um muro de 6 m de largura ocupa um ângulo de 6 / 400.000 = 0,000015 radiano, cerca de 0,05 minuto de arco. O olho humano separa, no melhor caso, cerca de 1 minuto de arco, ou seja, 20 vezes mais (conta nossa). Uma estrada larga e reta, com contraste forte, tem mais chance de aparecer do que a muralha.

Quanto da muralha ainda existe

Em 2015, uma pesquisa da Sociedade da Grande Muralha da China, divulgada pela imprensa chinesa, estimou que 1.962 km do muro Ming desapareceram, segundo a CNN. Sobre os 6.259,6 km de muro do levantamento de 2009, isso dá 1.962 / 6.259,6 ≈ 31%. As causas apontadas são vento e chuva, raízes de plantas, retirada de tijolos por moradores e turismo em trechos sem manutenção. Trechos famosos como Badaling foram reconstruídos no século XX, e o que o visitante vê ali é em boa parte restauração.

Perguntas frequentes

Quantos quilômetros tem a Muralha da China?

Somando todas as dinastias, 21.196 km, pelo levantamento oficial de 2012. Só o trecho Ming tem 8.851,8 km, dos quais 6.259,6 km são muro construído.

Do que é feita a Muralha da China?

Depende do trecho: terra socada nos mais antigos, camadas de junco e cascalho no deserto e, perto de Pequim, pedra, tijolo cozido e argamassa de cal.

Quanto tempo levou para construir a Muralha da China?

Mais de dois mil anos, em etapas, do século VII a.C. até o fim da dinastia Ming, em 1644. Cada dinastia construiu, ligou ou refez trechos em épocas diferentes.

Quantas pessoas morreram construindo a muralha?

Não existe número confiável. As contagens que circulam não têm registro histórico que as sustente.

A Muralha da China é visível do espaço?

Não é possível vê-la a olho nu. Da órbita, ela ocupa um ângulo cerca de 20 vezes menor que o limite de resolução do olho, e tem cor parecida com a do terreno.

A muralha é, antes de tudo, um catálogo de soluções locais: cada dinastia usou o material que estava perto e adaptou a técnica ao terreno. Ao ler qualquer número sobre ela, vale perguntar de qual trecho e de qual época ele fala, porque a diferença entre 6.260 e 21.196 km é justamente essa. Outras obras antigas medidas assim estão nas curiosidades da engenharia e na lista das maiores obras de engenharia.

Imagem de destaque: Trecho da muralha da dinastia Ming ao norte de Pequim, com o passadiço sobre a crista das montanhas. Foto: Mx. Granger / Wikimedia Commons, CC0.

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