Retrato de Nikola Tesla no começo da década de 1890
Retrato de Nikola Tesla no começo da década de 1890 (recorte). Foto: Napoleon Sarony / Wikimedia Commons, domínio público.

O que Nikola Tesla inventou (e o que não inventou)

A corrente alternada já acendia lâmpadas antes de Nikola Tesla. A contribuição dele foi a peça que faltava para ela mover máquinas: o motor de indução polifásico, patenteado em 1º de maio de 1888. Com ele, a mesma rede passou a servir para iluminar e para girar um eixo, e isso pesou na disputa com a corrente contínua.

Este artigo separa o que Nikola Tesla inventou do que costuma ser atribuído a ele, com as patentes, as datas e duas contas: por que subir a tensão derruba a perda na linha e como a frequência da rede define a rotação do motor. As fontes são as próprias patentes, o acervo de história da engenharia elétrica do IEEE (ETHW), o Smithsonian e o Museu Nikola Tesla, de Belgrado.

O que Nikola Tesla inventou, em uma tabela

Invenção Ano Registro O que aconteceu depois
Motor de indução polifásico 1888 patentes US 381.968 e US 382.279 amplamente usado em acionamentos industriais
Sistema polifásico de transmissão 1888 patente US 382.280 licenciado pela Westinghouse, que construiu os geradores de Niagara (1895)
Bobina de Tesla 1891 data segundo a Britannica usada em rádio e em outros equipamentos eletrônicos
Barco por controle remoto 1898 patente US 613.809 demonstrado no Madison Square Garden
Torre de Wardenclyffe (energia sem fio) 1901 a 1905 obra não concluída demolida em 1917

Ao todo, Tesla teve 112 patentes registradas nos Estados Unidos e pelo menos 311 em 27 países, segundo o Museu Nikola Tesla. Muitas das estrangeiras são a mesma invenção registrada em outro país.

Protótipo de motor de corrente alternada de Nikola Tesla exposto em museu
Protótipo de motor de corrente alternada de Tesla, de cerca de 1895, no Museu de Ciência e Indústria de Chicago. Foto: Daderot / Wikimedia Commons, CC0.

O motor de indução: um campo magnético que gira

A patente US 381.968, pedida em 12 de outubro de 1887 e concedida em 1º de maio de 1888, descreve a ideia em uma frase: dois ou mais circuitos independentes, percorridos por correntes alternadas defasadas, fazem o magnetismo se deslocar progressivamente ao redor do motor. Na versão mais comum, com rotor de gaiola, o campo girante arrasta o rotor sem comutador nem escovas: as correntes do rotor são induzidas, como descreve a patente US 382.279. Sobram os rolamentos como peça de desgaste.

A velocidade desse campo depende só de duas coisas, a frequência da rede e o número de polos do motor:

n = 120 × f ÷ p (rotações por minuto), segundo a Britannica.

Na rede brasileira, de 60 Hz, um motor de 4 polos tem campo girando a 120 × 60 ÷ 4 = 1.800 rpm; com 2 polos, 3.600 rpm; com 6 polos, 1.200 rpm. O rotor gira um pouco abaixo disso, porque é essa pequena diferença de velocidade que induz corrente nele. O funcionamento passo a passo está em como funcionam os motores elétricos.

Tesla não foi o único a chegar ao campo girante. O italiano Galileo Ferraris concebeu a ideia em 1885 e a apresentou à Academia de Ciências de Turim em março de 1888, sem patentear, segundo a documentação do IEEE. O pedido de patente de Tesla é de outubro de 1887, anterior à publicação de Ferraris, e foram as patentes de Tesla que George Westinghouse licenciou em julho de 1888, segundo o histórico do IEEE sobre os sistemas polifásicos.

Por que a corrente alternada venceu: a conta da perda na linha

Todo fio esquenta quando conduz corrente, e esse calor é energia perdida. A perda vale a corrente ao quadrado vezes a resistência do fio: Pperda = I² × R. Como a potência transmitida é tensão vezes corrente (P = V × I), mandar a mesma potência com tensão maior exige corrente menor, e a perda cai com o quadrado.

Um exemplo com números redondos (conta nossa, linha simples com resistência total de 10 Ω, enviando 1.000 kW):

  • A 2.200 V: I = 1.000.000 ÷ 2.200 ≈ 454,5 A. Perda = 454,5² × 10 ≈ 2.066 kW, mais do que a potência enviada. Essa linha não funciona.
  • A 11.000 V: I = 1.000.000 ÷ 11.000 ≈ 90,9 A. Perda = 90,9² × 10 ≈ 83 kW, ou 8,3% do que foi enviado.

A tensão subiu 5 vezes e a perda caiu 5² = 25 vezes. O limite prático é que tensão alta é perigosa dentro de casa, e por isso ela precisa subir na saída da usina e descer perto do consumidor. Quem faz isso é o transformador, que depende de corrente variável, como a alternada. A corrente contínua da época não tinha como trocar de tensão com a mesma facilidade.

Comparação da perda numa linha de 10 ohms enviando 1.000 kW: 2.066 kW a 2.200 V e 83 kW a 11.000 V
Exemplo com números redondos: a mesma potência exige 5 vezes menos corrente quando a tensão é 5 vezes maior, e a perda no fio (corrente ao quadrado vezes resistência) cai 25 vezes. Conta nossa, linha simples de 10 Ω.

O transformador e as primeiras redes de corrente alternada também não são de Tesla. Em 20 de março de 1886, William Stanley ligou lojas e escritórios de Great Barrington, nos EUA, com transformadores baseados nos de Gaulard e Gibbs, segundo o registro histórico do IEEE. O que essas redes não tinham era um bom motor. A contribuição de Tesla foi completar o sistema.

Fileira de geradores Westinghouse na casa de força da usina de Niagara
Geradores Westinghouse na usina de Niagara. Foto: Works of the Westinghouse Electric & Manufacturing Company / Wikimedia Commons, domínio público.

Niagara, 1895: a prova em escala real

A usina Adams, nas cataratas do Niágara, entrou em operação em 26 de agosto de 1895 e é tratada pelo IEEE como uma vitória importante da corrente alternada sobre a contínua, segundo o marco histórico da usina. Cada gerador tinha 5.000 hp, duas fases, 25 Hz e 2.200 V, segundo a ficha do gerador nº 1 no acervo do Smithsonian. Em quilowatts: 5.000 × 0,7457 ≈ 3.730 kW por máquina. Em 1900 eram dez geradores, ou cerca de 37.300 kW.

Em 15 de novembro de 1896 a energia chegou a Buffalo, a 22 milhas (35 km). Para isso, os 2.200 V dos geradores eram elevados a 11.000 V em três fases, e a eficiência total medida foi de 79,6%, segundo o histórico da eletrificação de Buffalo. É o mesmo princípio da seção anterior: tensão 5 vezes maior, corrente bem menor e perda muito menor no fio (os 79,6% incluem também transformadores e conversores, e não só a linha). Os geradores foram construídos pela Westinghouse, que tinha licenciado as patentes polifásicas de Tesla; a parte hidráulica desse tipo de obra está em como funciona uma barragem hidrelétrica.

O que Tesla não inventou: o rádio e a decisão de 1943

É comum ler que a Suprema Corte dos EUA declarou Tesla o inventor do rádio em 1943. O texto da decisão, Marconi Wireless Telegraph Co. v. United States, é bem mais restrito. Ele anulou as reivindicações amplas de uma patente de Marconi sobre sintonia com quatro circuitos, porque o arranjo já estava antecipado, sobretudo por John Stone, com contribuições anteriores de Oliver Lodge e de Tesla (patente US 645.576, pedida em 2 de setembro de 1897); uma das reivindicações voltou à instância inferior. O próprio texto ressalva que a reputação de Marconi como o primeiro a conseguir uma transmissão de rádio bem-sucedida se apoia na patente original dele, que não estava em julgamento.

A participação de Tesla na técnica do rádio está nesses circuitos sintonizados. Em 1898 ele demonstrou no Madison Square Garden um barco comandado à distância por ondas de rádio, protegido pela patente US 613.809, segundo a série documental da PBS sobre Tesla.

Torre de Wardenclyffe, de Nikola Tesla, em Long Island, em 1904
A torre de Wardenclyffe em 1904. Foto: autor desconhecido / Wikimedia Commons, domínio público.

Wardenclyffe: a torre da energia sem fio

O projeto mais ambicioso de Tesla não funcionou. A torre de Wardenclyffe, em Long Island, tinha 187 pés acima do solo (57 m) e 120 pés de poço abaixo dele (37 m), segundo a Sociedade Americana de Física. Foi construída entre 1901 e 1905 para comunicação e transmissão de energia sem fio, nunca foi concluída e acabou demolida em 1917 para pagar dívidas de Tesla, segundo o Tesla Science Center, que hoje ocupa o terreno. A Sociedade Americana de Física dá outra versão, com obra de 1901 a 1903 e demolição por ordem do governo, que o Tesla Science Center contesta.

Antes dela, em 1899, Tesla passou cerca de nove meses em Colorado Springs testando altas tensões, com um mastro de 142 pés (43 m) e descargas de mais de 100 pés (30 m), segundo a PBS. Mesmo que a transmissão sem fio tivesse dado certo, a torre ainda precisaria de uma usina para alimentá-la: a ideia de energia de graça, muito associada a Tesla, não faz parte do projeto.

O tesla, a unidade de medida

Em 1960, a 11ª Conferência Geral de Pesos e Medidas deu o nome tesla (símbolo T) à unidade de densidade de fluxo magnético do Sistema Internacional, equivalente a um weber por metro quadrado, segundo a resolução publicada pelo BIPM. Para ter ideia do tamanho: o campo magnético da Terra na superfície fica entre 25 e 65 microteslas, segundo a agência americana NOAA. Um ímã de 1,5 T é 1,5 ÷ 0,00005 = 30 mil vezes mais forte que um campo terrestre de 50 microteslas (conta nossa).

Perguntas frequentes

Tesla inventou a corrente alternada?

A corrente alternada é anterior a ele: geradores e transformadores já existiam, e a demonstração de Great Barrington, com transformadores, é de 1886. Tesla inventou o motor de indução e o sistema polifásico que tornaram a corrente alternada útil para a indústria.

Tesla trabalhou para Edison?

Sim. Tesla chegou aos Estados Unidos em 1884 e trabalhou para Thomas Edison antes de se associar a George Westinghouse, segundo a Britannica. A história da promessa de 50 mil dólares que não foi paga vem da autobiografia de Tesla, que atribui a promessa ao gerente da oficina de Edison; não há outra fonte que a confirme.

Onde e quando Tesla nasceu?

Em Smiljan, então Império Austríaco e hoje Croácia, em julho de 1856; a data convencional é dia 10. Morreu em Nova York em 7 de janeiro de 1943, segundo a Britannica.

Quantas patentes Tesla teve?

O Museu Nikola Tesla conta 112 patentes nos Estados Unidos e pelo menos 311 em 27 países. O número de invenções é menor, porque a mesma invenção costuma ser registrada em vários países.

A principal resposta para o que Nikola Tesla inventou cabe numa frase: a forma de fazer a corrente alternada girar um motor. O resto do sistema já existia ou veio de outros engenheiros, e a fama posterior misturou as duas coisas. O motor de indução e a rede polifásica continuam em uso mais de um século depois. Outras histórias em que a versão popular e a documentada não batem estão nas curiosidades da engenharia.

Imagem de destaque: retrato de Nikola Tesla no começo da década de 1890. Foto: Napoleon Sarony / Wikimedia Commons, domínio público.

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