Burj Khalifa ao amanhecer sobre Downtown Dubai, a torre de 828 m e como foi construída
O Burj Khalifa ao amanhecer, em Dubai. Foto: David Rodrigo / Unsplash.

Burj Khalifa: como foi construído o prédio de 828 m e por que ele não cai

O Burj Khalifa tem 828 m e 163 andares, e quase tudo o que se escreve sobre ele para nesses dois números. Desde 2007, ainda em obra, ele ocupa o posto de estrutura mais alta do mundo, que por 32 anos foi da CN Tower, em Toronto. A pergunta de engenharia é outra: como um prédio quase três vezes mais alto que a Torre Eiffel original fica de pé, num deserto com vento forte e sobre um solo que os engenheiros classificaram como rocha fraca.

Este artigo mostra como foi construído o Burj Khalifa a partir dos documentos de quem projetou e construiu: o escritório SOM, os engenheiros da fundação e o fornecedor do concreto. Cada número tem fonte, e onde as fontes discordam o texto mostra as duas versões.

Por que o Burj Khalifa não cai: o núcleo escorado

Vista de cima, a torre tem a forma de um Y. No centro fica um núcleo de concreto de seis lados, e cada uma das três alas se apoia nas outras duas por meio desse núcleo. O SOM chama o sistema de buttressed core, núcleo escorado: “cada ala escora as outras através de um núcleo central de seis lados”, nas palavras do artigo de William Baker e colegas apresentado no congresso do CTBUH de 2008.

A vantagem é geométrica. Uma torre fina e redonda resiste ao vento só com a largura do núcleo; o Y dá a cada direção de vento uma ala inteira trabalhando como contraforte. Assim o prédio fica rígido sem precisar de uma base enorme, e cada apartamento ainda tem fachada para fora, porque as alas são estreitas.

Como o vento foi domado: a torre que confunde o vento

Em prédio muito alto, o perigo maior não é o vento empurrar, e sim fazer o prédio balançar no mesmo ritmo dos redemoinhos que se formam atrás dele. A solução do Burj Khalifa foi mudar a forma a cada poucos andares. As alas recuam em espiral conforme a torre sobe, e com isso a largura muda ao longo da altura e os redemoinhos “nunca se organizam”, segundo o mesmo artigo do SOM.

A forma foi ajustada em mais de 40 ensaios em túnel de vento, segundo a Emaar, dona da torre. O efeito aparece num número do engenheiro de vento do projeto, Peter Irwin, em artigo do CTBUH: a aceleração prevista no topo caiu de mais de 37 mili-g nos primeiros ensaios para cerca de 12 mili-g nos ensaios finais com modelo flexível. Parte da queda veio do refinamento da forma e parte de estatísticas de vento mais precisas, como o próprio Irwin ressalva. Aceleração é o que as pessoas sentem dentro do prédio, e não o deslocamento em si.

Circula muito que o topo balança 1,5 m em ventania. Não encontramos esse número em nenhum documento técnico do projeto: o SOM diz apenas que as deformações ficam “bem abaixo dos critérios usuais”. O artigo do SOM registra ainda que a torre dispensou amortecimento auxiliar. Não há, no Burj Khalifa, um amortecedor de massa como a esfera de 660 t do Taipei 101: aqui o controle do vento foi resolvido pela forma. A outra estratégia, a de torcer a torre inteira, é a da Shanghai Tower.

A fundação: estacas que seguram pelo atrito

O terreno sob a torre é de arenito e siltito de fraco a muito fraco, segundo o estudo de fundação de Harry Poulos e Grahame Bunce, publicado em 2008. Sem rocha firme por perto, a solução foi um bloco de concreto de 3,7 m de espessura apoiado em estacas escavadas de 1,5 m de diâmetro, que trabalham principalmente pelo atrito lateral com o solo, e não pela ponta.

As fontes divergem nos detalhes. O artigo do SOM fala em 194 estacas; o modelo de Poulos e Bunce considera 196. O comprimento aparece como 43 m no SOM e na Emaar e como 47,45 m no estudo de fundação, que mede cerca de 50 m abaixo do bloco. A diferença provavelmente vem de medir a partir de pontos diferentes, mas nenhuma das fontes explica. A lógica de escolher entre estaca e sapata está em como escolher o melhor tipo de fundação.

O concreto que subiu 601 metros

As paredes do núcleo usam concreto de 80 MPa até os 440 m de altura e de 60 MPa até os 585 m, segundo James Aldred, engenheiro da GHD, em artigo técnico escrito durante a obra. Para comparar, a norma brasileira exige no mínimo 20 MPa para concreto armado em ambiente pouco agressivo. A comparação é aproximada, porque o projeto do Burj Khalifa especifica a resistência medida em corpo de prova cúbico e a norma brasileira usa o cilíndrico, que dá valores menores, mas o concreto das paredes do núcleo fica na faixa de três a quatro vezes o mínimo brasileiro. O bloco de fundação, por sua vez, usou concreto de 50 MPa, segundo o SOM. Os tipos e o que muda entre eles estão em o guia dos tipos de concreto.

Levar esse concreto até o alto foi um recorde: a bomba Putzmeister empurrou a massa a 601 m numa única etapa, sem estação intermediária. Só para sustentar uma coluna de concreto dessa altura, com premissa de densidade de 2.400 kg/m³, a pressão na base é de 2.400 × 9,81 × 601 ≈ 14 MPa, ou 140 vezes a pressão atmosférica, antes de somar o atrito da massa no tubo.

O calor de Dubai era o outro inimigo, porque concreto que cura quente demais trinca. Por isso a concretagem dos elementos verticais da torre foi feita à noite, e no verão quase toda a água da mistura entrava como gelo em lascas, para que o concreto chegasse à forma a no máximo 33 °C, segundo o mesmo artigo de Aldred.

Burj Khalifa visto de baixo, com a agulha de aço no topo da torre de 828 m
O Burj Khalifa visto de baixo: a agulha de aço no alto é a parte que não pode ser ocupada. Foto: Nick Fewings / Unsplash.

A agulha de 200 metros e a altura de vaidade

O topo do Burj Khalifa é uma agulha de aço de mais de 200 m, montada por dentro da torre e erguida com macacos hidráulicos até a posição final, com mais de 4.000 t de aço, segundo a Emaar. O CTBUH, que mantém o ranking dos prédios mais altos, chama de altura de vaidade a parte de cima que não pode ser ocupada. No Burj Khalifa ela tem 244 m, ou 244 ÷ 828 ≈ 29% da altura total, segundo estudo do CTBUH noticiado pelo Gulf News. O andar ocupado mais alto fica a cerca de 585 m, ainda entre os mais altos do mundo, mas longe do recorde. A comparação com outras torres está em as maiores obras de engenharia do mundo.

Elevadores e a água que sai do ar-condicionado

A torre tem 57 elevadores, segundo a Emaar, e os mais rápidos, de dois andares, sobem a 10 m/s, ou 36 km/h, segundo a Otis, que fabrica e mantém o sistema. Num prédio dessa altura o desafio não é só a velocidade, e sim o peso do próprio cabo, que cresce com a altura. A história de como o freio de segurança tornou o prédio alto possível está em a história do elevador.

O ar-condicionado de um prédio no deserto tira muita umidade do ar, e a torre aproveita essa água. O sistema recolhe cerca de 15 milhões de galões por ano, segundo a Emaar. Convertendo, 15 milhões × 3,785 ≈ 57 milhões de litros, cerca de 23 piscinas olímpicas de 2,5 milhões de litros por ano.

Os números do Burj Khalifa

Item Número Fonte
Altura 828 m, 163 andares Emaar
Obra escavação em janeiro de 2004; inauguração em 4 de janeiro de 2010 Emaar; Skyscraper Museum
Ensaios em túnel de vento mais de 40 Emaar
Aceleração prevista no topo de mais de 37 para cerca de 12 mili-g Irwin, CTBUH
Bloco de fundação 3,7 m de espessura Poulos e Bunce
Estacas 194 (SOM) ou 196 (Poulos e Bunce), 1,5 m de diâmetro SOM; Poulos e Bunce
Concreto 80 MPa até 440 m; 60 MPa até 585 m Aldred
Bombeamento 601 m numa única etapa Aldred
Agulha mais de 200 m; altura de vaidade de 244 m Emaar; CTBUH
Elevadores 57; os mais rápidos a 10 m/s Emaar; Otis
Água recolhida do ar-condicionado ~57 milhões de litros por ano Emaar
Painéis de vidro cerca de 26.000 Emaar

Perguntas frequentes

Quanto custou o Burj Khalifa?

Cerca de US$ 1,5 bilhão, segundo o Institution of Civil Engineers britânico. A Emaar não publica o valor nas páginas oficiais da torre.

Quanto tempo levou a construção?

A escavação começou em janeiro de 2004 e a inauguração foi em 4 de janeiro de 2010, cerca de seis anos depois.

O Burj Khalifa ainda é o prédio mais alto do mundo?

Sim. A Jeddah Tower, na Arábia Saudita, foi projetada para passar de 1 km e já passou dos 100 andares, mas ainda está em obra, com conclusão prevista para 2028; o andamento está em a futura torre de um quilômetro.

Por que o Burj Khalifa não usa amortecedor de massa como o Taipei 101?

Porque a forma resolve o problema principal. Mudando a largura a cada trecho, a torre impede que os redemoinhos do vento se organizem num ritmo único, que é o que faria o prédio balançar de forma perceptível.

Dá para visitar o Burj Khalifa?

Sim, a torre tem mirantes abertos ao público nos andares altos. Este artigo trata da engenharia; preços e horários mudam com frequência e devem ser conferidos no site oficial da torre.

Como foi construído o Burj Khalifa se resume a três decisões que se apoiam: uma forma em Y que dá rigidez sem base larga, recuos que desorganizam o vento e uma fundação que segura pelo atrito num solo fraco. O concreto bombeado a 601 m e a agulha de 200 m são o que aparece na foto, mas foram essas três decisões que permitiram o prédio existir.

Posts Similares