Vagens de soja verdes e penugentas presas ao caule da planta
Vagens de soja, a cultura com 99% de área transgênica no Brasil. Foto: Kelly Sikkema / Unsplash.

Bioengenharia na agricultura: transgênicos, edição gênica e bactérias no campo brasileiro

A bioengenharia na agricultura já está no campo brasileiro em escala que pouca gente imagina. Segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, o Brasil deve plantar 69,6 milhões de hectares com transgênicos na safra 2024/25, com 99% da soja, 99% do algodão e 96% do milho geneticamente modificados. Ao lado dos transgênicos, a mesma área usa bactérias que fixam nitrogênio, vespas que controlam pragas e, mais recentemente, plantas com genes editados.

Este artigo separa as quatro frentes da bioengenharia agrícola, mostra o que cada uma já entrega em números, com as contas, e onde estão os limites e as controvérsias. As fontes são a Embrapa, a CTNBio, o USDA, a legislação brasileira e artigos científicos.

O que é bioengenharia na agricultura

Bioengenharia agrícola é o uso de organismos vivos, ou de partes deles, como ferramenta de produção. Na prática, são quatro frentes:

Frente O que faz Exemplo no Brasil
Transgenia insere na planta um gene de outro organismo soja tolerante a herbicida, milho Bt, feijão resistente a vírus
Edição gênica altera genes da própria planta, sem DNA de fora no produto final cana Flex da Embrapa
Fixação biológica usa bactérias que tiram nitrogênio do ar para a planta inoculação da soja
Controle biológico e bioinsumos usa insetos, fungos e bactérias contra pragas e doenças vespa contra a broca-da-cana

Transgênicos: a frente mais difundida

A transgenia está regulada no Brasil pela Lei de Biossegurança, nº 11.105, de 2005, que dá à Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, a CTNBio, a palavra técnica sobre cada evento. A área cresceu rápido: 51,8 milhões de hectares na safra 2018/19 e mais de 56 milhões em 2020/21, segundo os relatórios anuais do USDA de 2019 e 2021, e 69,6 milhões previstos em 2024/25. O Brasil é o segundo maior produtor de transgênicos do mundo, atrás dos Estados Unidos.

Gráfico de barras da área com transgênicos no Brasil: 51,8 milhões de hectares em 2018/19, mais de 56 milhões em 2020/21 e 69,6 milhões previstos em 2024/25
Em milhões de hectares. Fonte: relatórios anuais do USDA.

Dois exemplos mostram o alcance. O primeiro é o feijão resistente ao mosaico-dourado, desenvolvido pela Embrapa e aprovado pela CTNBio em 2011. O vírus, transmitido pela mosca-branca, causa perdas de 40% a 100% na lavoura, segundo a Embrapa Arroz e Feijão. A planta carrega um trecho do gene que o vírus usa para se replicar, montado de forma que a própria planta produz um RNA que desliga esse gene quando o vírus entra. Sem replicar, o vírus não avança. É uma vacina embutida na semente.

O segundo é o trigo HB4, tolerante à seca, da empresa argentina Bioceres, aprovado pela CTNBio para cultivo em março de 2023. A empresa declara ganho de mais de 40% de produtividade sob seca severa, segundo o comunicado de aprovação. O número é do fabricante e vale para a condição de seca, não para anos normais.

Edição gênica: a bioengenharia sem gene de fora

A edição gênica, cuja ferramenta mais conhecida é o CRISPR-Cas9, rendeu o Nobel de Química de 2020 a Emmanuelle Charpentier e Jennifer Doudna. Em vez de trazer um gene de outra espécie, ela corta e altera genes da própria planta. A mesma técnica é usada em medicina, como mostra a biotecnologia médica.

No Brasil, a Resolução Normativa nº 16, de 2018, da CTNBio criou um caminho para essas técnicas: o produto é avaliado caso a caso e pode não ser considerado transgênico se não tiver DNA de outra espécie. O primeiro exemplo de destaque foi a cana Flex, da Embrapa Agroenergia, classificada como não transgênica em 2021. Na Flex II, desligar um gene resultou em maior teor de sacarose, segundo a Pesquisa FAPESP. A vantagem regulatória é grande: um produto editado e não transgênico chega ao campo mais rápido e mais barato.

Fixação biológica de nitrogênio: a maior economia

A bioengenharia que mais economiza no Brasil não é a mais recente. Desde os anos 1960, a soja brasileira é inoculada com bactérias do gênero Bradyrhizobium, que vivem em nódulos na raiz e transformam o nitrogênio do ar em nutriente para a planta. Segundo a Embrapa, a tecnologia poupa ao país cerca de US$ 8 bilhões por ano em adubo nitrogenado.

A conta mostra de onde vem o número. A soja precisa de cerca de 80 kg de nitrogênio por tonelada de grão, segundo a Embrapa. Numa lavoura de 3,5 toneladas por hectare, premissa nossa próxima da média brasileira recente, são 3,5 × 80 = 280 kg de nitrogênio por hectare. Como a planta raramente aproveita mais da metade do adubo nitrogenado aplicado, seriam necessários pelo menos 280 ÷ 0,5 = 560 kg de nitrogênio. Na forma de ureia, que tem cerca de 45% de nitrogênio, isso daria 560 ÷ 0,45 ≈ 1.240 kg de ureia por hectare, em dezenas de milhões de hectares. As bactérias fazem esse trabalho por um inoculante barato, e a reinoculação anual ainda rende ganho médio de 8,4% de produtividade, segundo a mesma página.

Há também um ganho de clima. A fabricação de adubo nitrogenado consome muito gás natural, e o nitrogênio aplicado em excesso libera óxido nitroso, um gás de efeito estufa. É por isso que práticas de baixo carbono no campo entram nas discussões sobre crédito de carbono.

Caminhão verde numa lavoura seca sob céu azul
Uma lavoura na época da colheita. Foto: James Baltz / Unsplash.

Controle biológico e bioinsumos

O controle biológico usa inimigos naturais das pragas. O caso brasileiro mais citado é a vespinha Cotesia flavipes, que parasita a broca-da-cana. Introduzida nos anos 1970, ela era liberada em 3,3 milhões de hectares, de 8,9 milhões de hectares de cana, cerca de 37% da área: 3,3 ÷ 8,9 ≈ 0,37, segundo palestra de 2013 de Alexandre de Sene Pinto em evento da Embrapa. O dado é antigo; não há número oficial mais recente publicado.

Os bioinsumos, que incluem inoculantes, fungos e bactérias de controle e biofertilizantes, viraram mercado. O faturamento no Brasil foi de R$ 4,5 bilhões em 2024, 30% acima de 2022 e estável em relação a 2023, segundo o boletim da CropLife Brasil. Ainda é pouco: cerca de 4% dos R$ 114,1 bilhões do mercado de insumos agrícolas. A Lei nº 15.070, de dezembro de 2024, passou a regular toda a cadeia, da produção, inclusive a feita pelo próprio agricultor na fazenda, ao registro e ao descarte. Aplicar esses produtos no lugar e na dose certos é tarefa em que os drones da agricultura de precisão ajudam.

Os limites: pragas e plantas daninhas resistentes

A bioengenharia agrícola tem custo biológico, e ele já apareceu no Brasil. A lagarta-do-cartucho desenvolveu resistência no campo a uma das proteínas Bt do milho transgênico, a Cry1F, num caso documentado em 2014 por Farias e colegas no periódico Crop Protection. O mecanismo é a seleção natural: quando quase toda a lavoura tem a mesma toxina, sobrevivem só os insetos que a toleram. A resposta técnica são as áreas de refúgio, plantadas sem a tecnologia, e a troca de proteínas.

O mesmo vale para os herbicidas. O uso repetido do glifosato nas lavouras tolerantes selecionou plantas daninhas resistentes, como a buva e o capim-amargoso, segundo estudo de monitoramento publicado em 2021 nos Anais da Academia Brasileira de Ciências.

Há também limites sociais. O arroz dourado, enriquecido com betacaroteno contra a deficiência de vitamina A, foi liberado para plantio nas Filipinas em 2021 e suspenso por decisão judicial em abril de 2024, segundo o instituto filipino de pesquisa do arroz. A aceitação pública pesa tanto quanto a técnica.

Perguntas frequentes

O que é bioengenharia na agricultura?

É o uso de organismos vivos como ferramenta de produção: plantas transgênicas e editadas, bactérias que fixam nitrogênio e inimigos naturais das pragas.

Qual a diferença entre transgênico e editado?

O transgênico recebe um gene de outra espécie. O editado tem genes da própria planta alterados e, no Brasil, pode não ser considerado transgênico pela CTNBio se não tiver DNA de fora.

Quanto da soja brasileira é transgênica?

Cerca de 99% na safra 2024/25, segundo o USDA.

Quanto o Brasil economiza com a fixação biológica de nitrogênio?

Cerca de US$ 8 bilhões por ano em adubo nitrogenado, segundo a Embrapa.

A bioengenharia agrícola tem riscos?

Tem limites documentados: pragas resistentes a proteínas Bt e plantas daninhas resistentes ao glifosato. O manejo com refúgios e rotação de tecnologias reduz o problema.

A bioengenharia na agricultura funciona melhor quando é tratada como manejo, não como produto. A soja inoculada, a vespa da cana e o feijão resistente ao vírus deram certo porque resolvem um problema específico; a resistência das pragas mostra o que acontece quando uma tecnologia é usada sozinha e em toda parte. O desafio de não perder o que foi colhido continua depois da porteira, na cadeia do frio, como mostra o jelly ice.

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