Duas pessoas analisando juntas um trabalho na tela de um computador
Revisão a dois de um resultado na tela. Registrar quem conferiu cada saída é um dos controles de governança de IA. Foto: litoon dev / Unsplash.

Governança de IA na engenharia: quem responde, o que a lei exige e a conta do erro

Governança de IA na engenharia é o conjunto de regras que uma empresa ou um projeto usa para decidir onde a inteligência artificial pode entrar, como ela é testada e quem responde pelo resultado. A resposta para a última pergunta não mudou: no Brasil, quem assina o projeto continua responsável por ele, use ou não IA, e o código de ética do Confea diz que a IA não substitui o julgamento ético do profissional. O que muda é a necessidade de controles: saber onde a IA é usada, medir quanto ela erra e registrar quem conferiu cada saída.

Este artigo resume os padrões internacionais, mostra o que a lei europeia e o projeto de lei brasileiro exigem, faz a conta do custo esperado de erro de um modelo que detecta fissuras e propõe controles práticos para escritórios e equipes de engenharia.

Os padrões que existem

Referência O que é Ano
NIST AI RMF 1.0 guia de gestão de riscos de IA do instituto de padrões dos Estados Unidos, com quatro funções: governar, mapear, medir e gerenciar 2023
ISO/IEC 42001 norma de sistema de gestão de IA, certificável, para quem fornece ou usa IA 2023
ISO/IEC 23894 orientação para gestão de riscos específicos de IA no ciclo de vida 2023
Regulamento europeu de IA (2024/1689) lei com quatro níveis de risco e obrigações por nível em vigor desde 2024, com aplicação escalonada
PL 2338/2023 (Brasil) projeto de marco legal da IA, aprovado no Senado em análise na Câmara

As datas e escopos vêm do NIST, da ISO para a 42001 e da ISO para a 23894.

A lei europeia

O regulamento europeu entrou em vigor em agosto de 2024. As proibições valem desde fevereiro de 2025, e as regras para modelos de uso geral, desde agosto de 2025, segundo a Comissão Europeia. Em julho de 2026, um pacote de simplificação adiou as obrigações para sistemas de alto risco: as do anexo III passaram para dezembro de 2027, e as de IA embutida em produtos regulados, para agosto de 2028, segundo o escritório Cuatrecasas. As multas chegam a 35 milhões de euros ou 7% do faturamento mundial para práticas proibidas, segundo o artigo 99. Empresas que colocam sistemas de IA no mercado europeu, ou cujos resultados são usados na União Europeia, podem entrar nessas regras.

O projeto brasileiro

O PL 2338/2023 foi aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e, até setembro de 2026, aguardava o parecer do relator na comissão especial da Câmara, segundo o monitor legislativo da LCF Consulting. Enquanto não há lei específica, valem regras gerais, como o artigo 20 da LGPD, que dá à pessoa o direito de pedir revisão de decisões tomadas só por processamento automatizado.

Quem responde pelo projeto feito com IA

O Confea não tem resolução específica sobre IA e responsabilidade profissional, mas o prefácio do seu código de ética afirma que a IA não substitui o julgamento ético do profissional responsável. Duas regras já existentes cobrem o caso: o código proíbe aceitar trabalho para o qual o profissional não está efetivamente capacitado, e a Resolução 1.090/2017 trata como negligência a não participação efetiva na autoria do projeto. Na prática, assinar um cálculo gerado por IA sem conferir é assumir o erro dele, e a conferência mais simples ainda é refazer a conta principal à mão, como no passo a passo de resistência dos materiais.

Um caso brasileiro de 2026 mostra o risco, fora da engenharia de projeto: a Justiça Federal em Novo Hamburgo multou o próprio CREA-RS por litigância de má-fé depois que uma peça citou precedentes que não tinham relação com o caso, provavelmente gerados por IA sem revisão, segundo a COAD.

Profissional analisando dados técnicos na tela de um computador
A conferência humana da saída de um programa é o que sustenta a assinatura do responsável técnico. Foto: Maxim Tolchinskiy / Unsplash.

A conta do custo esperado de erro

Todo modelo erra, e governar é decidir quais erros são aceitáveis. Um exemplo com um modelo de detecção de fissuras em concreto publicado em 2024, que usou um conjunto de 40 mil imagens e relatou precisão de 0,993 e sensibilidade, ou recall, de 0,999, segundo o artigo no arXiv. Premissa nossa: um lote de 8.000 imagens, metade com fissura e metade sem.

  • fissuras detectadas: 0,999 × 4.000 ≈ 3.996; fissuras perdidas (falsos negativos): 4;
  • alarmes falsos: com precisão de 0,993, cerca de 3.996 × (1/0,993 − 1) ≈ 28;
  • custo esperado, com valores ilustrativos: cada fissura perdida custa R$ 500 mil em reparo tardio, e cada alarme falso, R$ 2 mil de inspeção;
  • 4 × 500.000 = R$ 2 milhões; 28 × 2.000 = R$ 56 mil.
Gráfico de barras do custo esperado de erro de um modelo de detecção de fissuras: R$ 2 milhões em quatro fissuras perdidas contra R$ 56 mil em 28 alarmes falsos
Com valores ilustrativos, as quatro fissuras perdidas custam 36 vezes mais que os 28 alarmes falsos. Contas nossas com as métricas do artigo citado.

Mesmo com 99,9% de sensibilidade, as quatro fissuras perdidas pesam 36 vezes mais que todos os alarmes falsos juntos. A conclusão de governança é ajustar o modelo para perder menos fissuras, aceitando mais alarmes, e manter inspeção humana nos casos de dúvida. O conjunto tem imagens padronizadas, de 227 × 227 pixels, de um único campus; em outras obras e condições o desempenho tende a ser menor. É a mesma lógica de conferir a saída de qualquer programa, discutida no artigo sobre software de análise estrutural.

Supervisão humana só funciona com atenção

No acidente com o carro autônomo de testes da Uber em Tempe, nos Estados Unidos, em 2018, o sistema detectou a pedestre 5,6 segundos antes do impacto, mas não a classificou como pedestre, e a operadora de segurança estava olhando o celular. O órgão americano de segurança no transporte apontou como causa a distração da operadora e como fatores a cultura de segurança fraca e a acomodação com a automação, segundo a Roads & Bridges. O sensor que esse tipo de carro usa está no artigo sobre LIDAR. Ter uma pessoa no circuito ajuda só quando ela está de fato acompanhando, e isso precisa ser desenhado no processo.

Controles práticos para uma equipe de engenharia

  1. Inventário: listar onde a IA é usada, de redação de memorial a verificação de projeto e manutenção preditiva.
  2. Classificação de risco: separar o que só sugere texto do que influencia decisão técnica, como dimensionamento ou laudo.
  3. Validação com casos conhecidos: antes de usar, testar o modelo em problemas com resposta já conhecida e medir o erro.
  4. Revisão registrada: quem conferiu cada saída, com data, junto do projeto.
  5. Dados: não enviar a ferramentas externas dados pessoais ou de cliente sem base legal e sem contrato, pela LGPD.
  6. Monitoramento: repetir a validação quando a ferramenta muda de versão ou quando o tipo de projeto muda.

Esses passos seguem as funções do NIST e as obrigações de sistemas de alto risco da lei europeia, que incluem gestão de risco, qualidade de dados, registro e supervisão humana. Equipamentos que trabalham ao lado de pessoas, como os robôs colaborativos, já seguem normas técnicas com essa mesma lógica de risco.

Quanto as empresas já usam IA

  • na indústria brasileira com 100 ou mais funcionários, 41,9% usavam IA em 2024, contra 16,9% em 2022, segundo a pesquisa Pintec do IBGE, divulgada pelo Olhar Digital;
  • numa pesquisa da Bentley com 130 profissionais de infraestrutura, publicada em 2025, mais de um terço disse ter controles limitados ou nenhum controle de risco de IA nos projetos, segundo a Bentley;
  • numa pesquisa da KPMG com a Universidade de Melbourne, 49% dos profissionais brasileiros admitiram erros por confiar em respostas de IA, segundo a KPMG.

Perguntas frequentes

Quem é responsável por um projeto de engenharia feito com IA?

O profissional que assina. O Confea não tem regra específica sobre IA, mas o código de ética e a resolução sobre negligência já cobrem quem assina sem participar efetivamente do projeto.

Existe lei de IA no Brasil?

Ainda não há lei específica. O PL 2338/2023 foi aprovado no Senado em 2024 e estava na Câmara em setembro de 2026. Valem regras gerais, como a LGPD.

O que é a ISO/IEC 42001?

Uma norma de 2023 para sistema de gestão de IA, certificável, aplicável a quem desenvolve ou usa IA.

Como avaliar se um modelo de IA é bom o suficiente?

Medindo os erros em casos conhecidos e multiplicando cada tipo de erro pelo seu custo. Um modelo com 99,9% de sensibilidade ainda pode ter custo de erro alto se o erro raro for caro.

Quando a lei europeia de IA passa a valer para sistemas de alto risco?

Depois do adiamento de 2026, a partir de dezembro de 2027 para os sistemas do anexo III e agosto de 2028 para IA embutida em produtos regulados.

Governar IA em engenharia é aplicar à ferramenta nova o que a profissão já faz com qualquer cálculo: conhecer o método, medir o erro, conferir o resultado e assinar com responsabilidade. Antes de adotar uma ferramenta, a pergunta que define o controle necessário é quanto custa o erro mais raro que ela pode cometer.

Posts Similares