Palm Jumeirah: como foi construída a ilha artificial de Dubai
A Palm Jumeirah é uma palmeira de areia com cerca de 5 km de diâmetro, plantada no mar em frente a Dubai. Vista do alto parece um capricho arquitetônico, mas o desenho esconde três problemas de engenharia sérios: onde arranjar areia suficiente, como impedir que o mar a leve embora e como garantir que ela não vire lama num terremoto.
Este artigo mostra como foi construída a Palm Jumeirah a partir de quem fez a obra: os engenheiros da Van Oord, que dragaram a areia, o museu da própria incorporadora Nakheel e as imagens de satélite da NASA. Onde os números variam entre as fontes, o texto mostra as variações.
De onde veio a areia: o fundo do mar, não o deserto
A ilha foi feita com cerca de 100 milhões de m³ de areia, segundo os engenheiros da Van Oord em artigo técnico sobre a obra; a Royal IHC, que construiu as dragas, fala em 110 milhões de m³. O número de 94 milhões que circula em muitos sites não aparece em nenhuma das fontes da obra.
Dubai está cercada de deserto, mas a areia do deserto não serve. Os grãos são lisos demais e não travam uns nos outros, segundo o museu da Nakheel. A solução foi dragar areia calcária do fundo do Golfo, a cerca de 11 km da costa, com dragas de vários tipos, entre elas as de sucção e arrasto, que enchem o próprio casco e depois descarregam no ponto certo.

A descarga final tinha nome próprio: rainbowing. A draga se aproxima do local e lança a mistura de areia e água pela proa num arco alto, parecido com um arco-íris, que vai formando o contorno da ilha. Cada lançamento era guiado por GPS diferencial, para que as folhas da palmeira saíssem no desenho do projeto.
Para ter ideia do volume: a Britannica dá à ilha pelo menos 560 hectares de terra nova, ou 5,6 km² (a Royal IHC fala em 700 hectares). Dividindo 100 milhões de m³ por 5,6 milhões de m², dá uma camada média de cerca de 18 m de areia (conta nossa, aproximada). Isso inclui a parte submersa, do fundo do mar até a superfície, e a parte acima da água.
O quebra-mar: 11 km de rocha para segurar o mar
Uma ilha de areia solta no mar aberto seria desfeita pelas ondas em poucos anos. Por isso a palmeira fica dentro de um quebra-mar em forma de meia-lua, o Crescent, com 11 km de comprimento e 200 m de largura, construído em água de até 10,5 m de profundidade, segundo o museu da Nakheel. A camada externa é de blocos de calcário de 6 t, que absorvem a energia das ondas antes que ela chegue à areia. A Britannica dá cerca de 17 km para o Crescent, provavelmente medindo o contorno de outra forma.
O mesmo museu dá 7 milhões de toneladas de rocha, tiradas de 16 pedreiras; a Royal IHC fala em 9 milhões. Com 7 milhões de toneladas em 11 km, são 7.000.000 ÷ 11.000 ≈ 640 t de rocha por metro de quebra-mar. O projeto do quebra-mar é atribuído à consultoria Royal Haskoning e a construção à Archirodon, segundo o artigo da Van Oord.
Por que a ilha não vira lama: 200 mil furos de compactação
Areia lançada na água fica fofa, com os grãos soltos e cheios de água entre eles. Num terremoto, areia assim pode se liquefazer: a vibração faz a água assumir o peso, os grãos perdem contato e o terreno se comporta como líquido. É o mesmo fenômeno discutido em construções em solos arenosos.
A resposta foi a vibrocompactação. Guindastes enfiam na areia uma sonda vibratória, que adensa o terreno ao redor enquanto é retirada. Na Palm Jumeirah foram cerca de 200.000 furos de 12 m, feitos por 15 guindastes a partir de março de 2004, segundo o museu da Nakheel. Espalhados pelos 5,6 km² da ilha, dá um furo a cada 5.600.000 ÷ 200.000 ≈ 28 m², ou um a cada 5 m, mais ou menos (conta nossa). Parte do serviço foi da Vibrocompaction Ltd, do grupo Menard. Os prédios ainda precisam de fundação própria sobre esse terreno, como em qualquer obra; a lógica da escolha está em como escolher o tipo de fundação.
Quanto tempo levou
A obra começou no verão de 2001, e a Van Oord terminou de lançar a areia em outubro de 2003. As imagens de satélite da NASA mostram a sequência: em fevereiro de 2002, “o mais básico começo”; em novembro de 2003, a palmeira já estava formada. A terra e a infraestrutura básica estavam prontas em 2004, e os primeiros moradores chegaram em 2007, segundo a Britannica. O monotrilho que liga a ilha ao continente abriu em 30 de abril de 2009.

Os problemas que apareceram depois
O quebra-mar que protege a areia também prendia a água. Fechada dentro da meia-lua, a água das folhas da palmeira circulava pouco e tendia a ficar parada. A correção foi abrir duas passagens no quebra-mar, de 150 m cada segundo o museu da Nakheel (algumas publicações do setor falam em 100 m), que renovam a água a cada 14 dias.
Em 2009, um estudo comercial de sensoriamento remoto por satélite, feito pela empresa Fugro, sugeriu que a ilha estaria afundando cerca de 5 mm por ano. A Nakheel chamou as reportagens de “totalmente imprecisas” e argumentou que os satélites altímetros a laser da NASA, também citados no debate, têm precisão de apenas 50 mm para mais ou para menos, segundo a Arabian Business. Não encontramos medição publicada em revista científica que resolva a questão, e por isso o número deve ser lido como alegação, não como fato estabelecido.
Os números da Palm Jumeirah
| Item | Número | Fonte |
|---|---|---|
| Areia | ~100 milhões de m³ (Royal IHC: 110 milhões) | Van Oord; Royal IHC |
| Rocha do quebra-mar | 7 milhões de t (Royal IHC: 9 milhões) | Nakheel; Royal IHC |
| Quebra-mar | 11 km (Britannica: ~17 km), 200 m de largura | Nakheel; Britannica |
| Terra nova | ~560 ha (Royal IHC: 700 ha), cerca de 5 km de diâmetro | Britannica; Royal IHC |
| Vibrocompactação | ~200.000 furos de 12 m | Nakheel |
| Obra | início em 2001; areia concluída em outubro de 2003 | Van Oord |
| Primeiros moradores | 2007 | Britannica |
| Renovação da água | a cada 14 dias, por duas passagens no quebra-mar | Nakheel |
Perguntas frequentes
A Palm Jumeirah está afundando?
Houve uma alegação de 5 mm por ano em 2009, baseada num estudo comercial, e a Nakheel contestou. Não há medição científica publicada que confirme. O que é certo é que a areia foi compactada justamente para evitar recalque e liquefação.
Por que não usaram areia do deserto?
Porque os grãos de areia do deserto são lisos e arredondados pelo vento, e não travam uns nos outros. A areia calcária do fundo do mar tem grãos mais angulosos, que se acomodam melhor quando compactados.
A Palm Jumeirah dá para ver do espaço?
Sim. Com cerca de 5 km de diâmetro e contorno muito marcado, ela aparece nas imagens de satélite da NASA desde 2002, durante a obra.
Quais outras obras de Dubai usam engenharia parecida?
O hotel Burj Al Arab também fica sobre uma ilha artificial, menor e protegida por blocos de concreto. Já o Burj Khalifa enfrenta o problema oposto: um prédio muito pesado sobre rocha fraca, resolvido com estacas que seguram pelo atrito. Outras obras do mesmo porte estão em as maiores obras de engenharia do mundo.
A Palm Jumeirah foi construída resolvendo três problemas em sequência: achar areia que trave, cercá-la com rocha para que o mar não a leve e compactá-la para que não vire lama num tremor. O desenho de palmeira é o que aparece na foto de satélite, mas é a soma dessas três soluções que mantém a ilha de pé há mais de vinte anos.
